JF Diorio/Estadão
Ex-jogadores Wendel e Pierre jogam pebolim no camarote antes do jogo entre Palmeiras e Ponte Preta  JF Diorio/Estadão

DJ, barbearia, piscina e até futebol nos camarotes dos estádios

Arenas apostam em serviços e entretenimento para atrair novos torcedores

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2019 | 04h30

Palmeirense que vai a todos os jogos do clube, dentro e fora do Brasil, o professor Rafael Rodrigues Alboccino decidiu comemorar o último Dia dos Pais no Allianz Parque. Ele nem bem havia chegado de outro jogo no Paraguai pela Libertadores. Em São Paulo, pegou sua filha, Luna Emanuelle, de 8 anos, e comprou os ingressos para o Allianz Parque. A menina gostou. Onde ficou, havia pipoca, comida, refrigerante, brincadeiras com os monitores e pebolim. Se quisesse, tinha até o jogo de futebol.

Os divertimentos não foram preparados só para a data festiva. Eles exemplificam uma nova tendência: estádios com serviços e atrações de entretenimento para atrair novos torcedores, fazendo com que eles passem mais tempo no estádio. E, obviamente, consumam mais. 

O camarote do Corinthians abre as portas para 300 pessoas quatro horas antes do início das partidas. Por meio de uma autorização especial da PM, o espaço localizado no setor Oeste (lado sul) vende bebidas alcoólicas até duas horas antes do jogo. A exemplo do Allianz, o espaço oferece barbearia, videogame, mesas de sinuca, pebolim, palco para apresentação musical e DJ’s, open bar, churrasco e hamburgueria. Também faz parte das atrações dos camarotes a presença de ex-atletas. Tem barbearia? Isso mesmo.

“O futebol tem de ser visto como entretenimento que vai além dos 90 minutos de jogo”, diz Leonardo Rizzo, dono de uma empresa que possui camarotes em três estádios paulistas. “É uma tendência mundial que pude perceber em viagens por mais de 40 países”, diz o empresário. 

Mauro Corrêa, da empresa de gestão esportiva Golden Goal e especialista no mercado de hospitalidade, concorda com a inovação. “Esses serviços são a forma de o futebol competir com outras opções de lazer, como cinema, teatro ou uma viagem em família”, conta. 

O negócio não é unanimidade. Alguns corintianos protestaram nas redes sociais quando o clube inaugurou uma piscina de dois metros de diâmetro e 80 cm de profundidade, que fica em uma área vip. É um camarote dentro do camarote que custa R$ 4 mil para dez pessoas. Na opinião dos críticos, o espaço é uma ostentação, distante do perfil dos torcedores médios. 

Vale lembrar que metade do público é formado pelo segmento corporativo, ou seja, empresas que compram os assentos para negócios e relacionamento com seus próprios clientes. 

Para o jogo Corinthians e Ceará, pela Copa do Brasil, na próxima quarta-feira, os ingressos para o camarote, sem acesso à área da piscina, custam a partir de R$ 270. A diferença de valores é apenas o local em que o torcedor pode acompanhar a partida, todos oferecem os mesmos serviços extras. Como comparação, um lugar no setor Norte das arquibancadas da Arena Corinthians, o setor mais em conta, custa R$ 30.

“Vivemos fase difícil no País, mas em algum momento eu acho que o torcedor deve se dar esse presente”, diz o implantodontista palmeirense Marcos Inohue. 

Os camarotes também têm o desafio de superar os altos e baixos dos clubes. A taxa de ocupação dos camarotes de Corinthians é Palmeiras é de 95% enquanto a do Morumbi está na casa de 70%. A diferença está no desempenho dos times: os dois primeiros têm títulos recentes, mas o São Paulo soma sete anos sem conquistas. A média do mercado é ocupação de 50%. 

Independentemente dos valores e das intempéries das equipes, os espaços atraem novos torcedores. Inoue leva os filhos Marcos e Giselle e a mulher Gislaine ao Allianz. O empresário corintiano Youssef Turk, brasileiro de origem libanesa, convenceu a mulher, Terylaine Turk, a ir ao estádio só por causa dos diferenciais que o espaço oferece. “Os estádios que não oferecerem algo diferente serão ultrapassados”, diz Inoue.

NO CEARÁ, RIVAIS SE UNEM E DIVIDEM GESTÃO DO CASTELÃO

Os rivais Fortaleza e Ceará se uniram por uma gestão compartilhada do estádio Castelão. Desde dezembro de 2018, quando o governo estadual retomou a administração da arena, ambos resolveram negociar em conjunto, em condições idênticas, e agora operam estacionamento, bilheteria, bares e os camarotes. 

A arena multiúso pertence ao Estado, mas os clubes têm liberdade para criar formas de gerar receitas. Os valores dos camarotes são iguais para os torcedores dos dois clubes. O pacote anual sai por R$ 80 mil. Os custos de uma partida avulsa é de R$ 6 mil – os camarotes comportam entre 20 e 25 pessoas. 

No Campeonato Cearense, a procura tem sido razoável. “Nossa expectativa é de que as vendas melhorem com o início do Brasileiro”, diz Marcelo Paz, presidente do Fortaleza. 

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Entretenimento nos estádios pode ir além do 90 minutos da partida de futebol

Especialista analisa a oferta de serviços e atrações nas arenas brasileiras

Entrevista com

Mauro Correa - especialista em hospitalidade nos estádios

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2019 | 04h30

O entretenimento em estádios de futebol pode ir além da partida em si e oferecer memórias únicas e experiências diferenciadas para os torcedores. A opinião é de Mauro Correa, sócio diretor da Golden Goal, empresa de gestão e marketing esportivo. Para o especialista no mercado de hospitalidade, os camarotes nos estádios ainda possuem grande potencial de crescimento. Em entrevista ao Estado, Correa explica o funcionamento dos espaços exclusivos no mercado brasileiro. E como podem gerar mais receita para os clubes. 

Por que os camarotes oferecem barbearia e shows?

O futebol tem de ser visto como produto de entretenimento ampliado em relação aos 90 minutos da partida em si. Essa é a forma de competir com outras opções de lazer, como cinema, viagem em família, peça de teatro. 

Como assim?

O futebol tem de oferecer atrativos que engajem o torcedor de forma diferente, única e que traga boas memórias e experiências diferentes, ampliando o tempo de consumo no estádio. O entretenimento vai além de comemorar a vitória do time e permite captar receitas de outras formas para os clubes. 

A quem pertencem os camarotes?

Aos clubes ou aos proprietários das arenas, que fazem contratos de concessão para permissionários. É quase um contrato de concessão por tempo determinado. 

Quantos faturam os camarotes?

Existem diferentes precificações. Cada arena está num mercado e, além disso, os clubes disputam em séries diferentes. No eixo Rio-São Paulo, os preços variam entre 350 e 600 por reais por jogo de acordo com a relevância da partida. Os estádios de Copa do Mundo têm entre 1200 e 2000 assentos de camarote. O Maracanã, por exemplo, tem 2000 assentos.

Qual é a taxa de ocupação dos camarotes? 

A taxa de ocupação média no Brasil não é maior do que 50%. Isso significa que ainda existe um bom potencial para ser ocupado. A melhor performance é a do Allianz Parque, que oferece shows frequentes, tem boa localização e facilidade de acesso por transporte público.

Como tem se comportado o mercado nos últimos anos?

Os anos de 2016 e 2017 foram difíceis em função do contexto macroeconômico. Desde a metade do ano passado, nós estamos converter algumas oportunidades de negócios, inclusive além dos estádios de futebol. É um momento oportuno para os clubes desenvolverem mais um canal de receitas. Nós crescemos em 45% a base de clientes corporativos nos últimos 18 meses. É um momento positivo de expansão. 

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Pioneiro, Mineirão aposta na força de Atlético Mineiro e Cruzeiro

Desde 2016, arena aposta em shows e atrações diversificadas para atrair novos torcedores

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2019 | 04h30

O Mineirão foi um dos primeiros estádios do Brasil a reunir futebol e entretenimento. No contexto de modernização da arenas em função da Copa de 2014, o principal estádio de Minas inaugurou o Mineirão Tribuna em março de 2016 para oferece, entre outras atrações, shows musicais com bandas locais e nacionais antes e nos intervalos das partidas. 

Hoje, a Minas Arena, concessionária que administra o estádio, aposta alto nas receitas obtidas com as áreas de hospitalidade. Os clubes que jogam lá (Atlético Mineiro e Cruzeiro) não pagam aluguel pelo uso do estádio e ficam com a receita das bilheterias. “Quando falamos da venda de ingressos nos jogos, a concessionária se remunera exclusivamente com a receita proveniente das áreas de hospitalidade”, diz Samuel Lloyd, diretor do Mineirão. 

De acordo com a concessionária, 70% dos espaços são ocupados com permissionários referentes às vendas anuais. Já a venda avulsa, que tem relação direta com o apelo de cada partida, tem média de ocupação de 80%. A volta do Atlético Mineiro a atuar no estádio neste ano, depois de um praticamente um ano e meio, traz novas perspectivas de venda dos camarotes até o final do ano. 

Os valores de um assento variam de acordo com a competição em disputa, os times envolvidos e as variações do mercado local. No Mineirão, os espaços para 18 a 20 pessoas variam de R$ 90 mil a 150 mil por ano. Já o preço para a venda dos espaços por partida acompanham os tíquetes do jogo, definidos às vésperas dos confrontos. 

A maior parte dos espaços é ocupada por empresas que investem em relacionamento com os clientes, parceiros e funcionários. Em menor quantidade, alguns camarotes são ocupados por grupos de torcedores que se unem para garantir seus lugares em todos os jogos de seu time em um espaço exclusivo. O público dos camarotes é formado principalmente por empresários, familiares de atletas, diretoria de clubes. Em geral, os usuários procuram comodidade de acesso, espaço garantido para assistir aos jogos e serviços personalizados.

A exemplo do que acontece nas arenas paulistas, o Mineirão aposta em atrações diferenciadas, além do futebol, como a recreação infantil e alimentação, por exemplo. “Vir ao estádio de futebol pode ser uma experiência completa de entretenimento para o torcedor. Envolver o torcedor desde o momento que chega ao estádio, criando um ambiente agradável, divertido e desejado contribui para que o espetáculo seja ainda completo”, opina Lloyd. 

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