Mônica Zaratiini/Estadão/2004
Mônica Zaratiini/Estadão/2004

Djalma Santos, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial

Garoto pobre, ex-lateral tinha como sonho ser piloto de avião

Wilson Baldini Jr., O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2013 | 21h37

SÃO PAULO - O garoto pobre da Parada Inglesa tinha como sonho ser piloto de avião, e jamais imaginou ser um dos maiores jogadores da história do futebol, com direito ao apelido de "Lord", que recebeu dos sisudos ingleses. Este foi Djalma Santos, que morreu ontem à noite, aos 84 anos, em Uberaba. Ele estava internado no Hospial Hélio Angotti desde 1º de julho por causa de um quadro de pneumonia e insuficiência respiratória. A situação se agravou nesta terça-feira, quando ele passou a apresentar insuficiência renal.

A forma dócil com que tocava na bola, a maneira correta para desarmar o adversário e a entrega certeira para os companheiros fizeram deste paulistano o lateral-direito da seleção brasileira em quatro Copas do Mundo (1954, 1958, 1962 e 1966), com direito a dois títulos (58 e 62). Foram 98 jogos oficiais com a camisa verde-amarela e três gols marcados.

Em 1963, teve a honra de ser eleito para a seleção da Fifa, ao lado de mitos como Puskas, Di Stéfano, Eusébio e Yashin, para disputar um amistoso com a seleção inglesa em Wembley, em comemoração à fundação da federação local. O selecionado perdeu, mas Djalma foi aplaudido de pé.

Dono de um físico privilegiado, tinha como jogada característica o incrível arremesso lateral, que se tornava uma arma temida por todos os rivais. A força necessária para transformar a cobrança em cruzamentos para a área adversária foi adquirida em intermináveis exercícios feitos com medicine-ball, até que os braços ficassem dormentes.

Como na seleção, Djalma Santos construiu uma carreira de muito sucesso nos clubes pelos quais passou em 22 anos de carreira. Primeiro na Portuguesa, depois de ser reprovado na "peneira" do Corinthians. Foi descoberto por Conrado Rossi, técnico das categorias de base do time do Canindé. Em quatro meses no ano de 1948, sua categoria o transformou em profissional, dividindo o gramado com nomes consagrados como Renato, Nininho e Pinga. Atuava como volante, mas com a chegada de Brandãozinho passou para a lateral-direita.

Foram dez anos de sucesso no momento mais glorioso da Portuguesa. Ganhou dois títulos do Rio-São Paulo (1952 e 1955) , "Fita Azul" pela excursão invicta à Europa e aconvocação para a seleção paulista e a brasileira.

Em 1958, ganhou o primeiro título mundial com a seleção na Suécia, ao disputar apenas a final no lugar do então titular de Sordi. O ponta-esquerda Skoglund, apontado como o melhor da posição na Copa, não viu a cor da bola.

ACADEMIA

No mesmo ano se transferiu para o Palmeiras e fez parte da primeira "Academia". Atuou em 498 jogos pelo time do Palestra Itália, que na época era a única equipe paulistra capaz de fazer frente ao Santos de Pelé. Foram três títulos paulistas, dois da Taça Brasil (equivalente ao atual Brasileiro), um Robertão e um Rio-São Paulo.

Sua passagem pelo Palmeiras, que durou até 1968, serviu também para acabar de vez com os últimos resquícios de racismo que imperavam no clube. Até a sua contratação, apenas dois jogadores negros tinham vestido a camisa verde: Og Moreira e Liminha.

Em 1962, atuou como titular indiscutível da seleção que levantou o bicampeonato mundial no Chile. Sem a presença de Pelé, que se machucara contra a Tchecoslováquia, Djalma, juntamente com Gylmar, Bellini, Zito, Nilton Santos viu Mané Garrincha desequilibrar.

Em 1968, Djalma Santos foi para o Atlético-PR, time no qual se sagrou campeão paranaense em 1970. Jogou até o ano seguinte, e se aposentou aos 41 anos sem nunca ter sido expulso.

Sua fama de jogador habilidoso e de rara técnica fez com que várias lendas fossem criadas com seu nome. Uma das principais afirma que em um jogo contra a Argentina, no Maracanã, Djalma Santos levou a bola de sua área até a adversária controlando com a cabeça.

Manteve sempre o físico impecável, e até há pouco tempo ainda jogava peladas e mostrava seu amor pelo futebol.

"SÓ JOGO TRÊS VEZES POR SEMANA POR CAUSA DA BRONQUITE"

Os problemas respiratórios foram um adversário constante na vida de Djalma Santos. Na infância, sua mãe, que cuidou dele e dois irmãos depois que o pai abandonou a família, chegou a fazer um guisado com carne de gato – que Djalma pensou ser de coelho – na tentativa de acabar com a doença crônica do filho. A intenção foi boa, mas o problema continuou.

Mas esse problema jamais acabou com o amor de Djalma Santos pelo futebol. Com mais de 80 anos, ele jogava sua “bolinha” todos os dias em Uberaba, cidade da família de sua primeira mulher ou em Conquista, onde existiu o Instituto Djalma Santos, que cuidava de uma centena de garotos. “Ultimamente só tenho jogado três vezes por semana, porque a bronquite está brava”, brincou, em uma de suas últimas entrevistas. Era constante sua participação em jogos festivos, que impressionava pela condição física apesar da idade.

Tudo o que sabemos sobre:
seleção brasileiradjalma santos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.