WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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'Do jeito que está, a dívida dos clubes é quase impagável'

Para o futuro presidente da CBF, o fair play financeiro só é possível com novo parcelamento para ajudar os clubes

Entrevista com

Marco Polo Del Nero

Almir Leite; Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2015 | 17h00

Marco Polo Del Nero assume de direito a presidência da CBF em abril. Mas já dá expediente constante na entidade. Embora ressalte que o aliado e amigo José Maria Marin é ainda o dono do cargo, já impõe seu estilo, dissemina seus planos. Diz que vai administrar ouvindo os clubes. E já definiu uma de suas principais bandeiras: sanar as finanças das equipes, primeiro por meio do parcelamento das dívidas passadas e depois com adoção de regras para que não voltem a ficar no vermelho, sob risco de penalizações.

No entanto, Del Nero é resistente ao projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que vem sendo negociada há meses por governo federal, entidades que representam os atletas, o movimento Bom Senso, clubes e a própria CBF.

Defende a sanção do projeto que parcela dívidas fiscais e tributárias que superam R$ 4 bilhões sem estabelecer contrapartidas. Entende que, em seguida, caberá a CBF determinar normas para punir clubes que desrespeitarem o fair play financeiro. E garante que esse sistema será colocado em prática imediatamente, apesar das desconfianças.

Del Nero falou de suas propostas para o futebol brasileiro em entrevista exclusiva ao Estado na quinta-feira, em seu gabinete no terceiro andar do prédio da CBF, no Rio. A sede fica na Barra da Tijuca, bairro em que mora há alguns meses. Apesar de ainda presidir a Federação Paulista, já se dedica quase integralmente à CBF.

O que fazer para que os clubes brasileiros se estruturem melhor?

Primeiro temos de resolver a questão das dívidas dos clubes. As dívidas impedem qualquer administração de planejar o futuro. A conta é quase impagável do jeito que está hoje, o parcelamento é muito elevado. Num parcelamento maior, os clubes têm tudo para pagar. Mas entendo que é fundamental a contrapartida.

Então o senhor não concordou com a inclusão na MP 656/2014 do parcelamento de débito federais de entidades esportivas sem nenhuma contrapartida (originalmente, a MP reduzia impostos para venda e importação de aerogeradores, mas recebeu várias emendas)?

Eu concordo (com a inclusão) porque conhecemos o trabalho do Jovair (Arantes, deputado federal do PTB/GO, conselheiro do Atlético-GO e autor da emenda) e ele conhece o que a CBF quer fazer. Nós falamos que, se fosse aprovado o parcelamento (o artigo da MP que trata do parcelamento pode ser vetado pela presidente Dilma Rousseff) e os clubes pudessem se revitalizar, que a CBF tinha todas as condições de fazer normas que dariam garantias ao governo do pagamento das dívidas e de um futuro melhor para os clubes.

Mas não foi colocada na MP nenhum tipo de garantia (o texto prevê apenas parcelamento das dívidas com a União em 240 meses, com descontos de 70% das multas e 50% dos juros).Não foi colocada porque a MP é sobre parcelamento.

Mas, imediatamente, a CBF se posicionou, dizendo que pode gerir, desde que seja palpável. Não se pode viver em cima de dívidas. Queremos parcelar a conta primeiro. Em cima desse parcelamento, aí se coloca o fair play trabalhista, fiscal, que a CBF pode fazer e está pronta para executar.

E como fica a discussão da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte que está sendo encaminhada pelo governo federal com participação dos clubes, CBF e Bom Senso?

Os clubes estão agonizando. Há necessidade urgente de uma solução, que veio na Medida Provisória. E a CBF, que regulamenta o futebol brasileiro, fez a parte dela, que é colocar no regulamento da competição tudo o que estava na lei (o Regulamento Geral de Competições, versão 2015, prevê a adoção de normas sobre fair play financeiro e trabalhista e para saneamento fiscal e financeiro dos clubes, sob pena de punições esportivas). Nós quisemos agilizar.


Então, o projeto de Lei de Responsabilidade será deixado de lado?

Poderá ficar prejudicado, porque a gente (CBF) fez tudo. A gente pode fazer.

Essa regulamentação já passa a valer este ano?

Passa a valer se for aprovada (o parcelamento). Se não, vamos fazer alguma coisa, que não é aquilo que deveria ser feito com perfeição. Vamos conversar com os clubes e mostrar a eles a necessidade de avançar e de, daqui para frente, não poder ter dívidas. Mas nós temos de resolver o passado. Já fazemos isso no Paulistão há quatro anos e não tem dívidas. Queremos deixar o futebol zerado, mas com parcelamento. Não é perdão. Vamos pagar a conta.

Mas com a aprovação da MP não vai ter uma garantia em lei...

Lógico que vai ter (garantia). Se for aprovada a MP, vamos exigir (dos clubes) a certidão dos débitos fiscais, vamos querer saber dos jogadores sobre os pagamentos, da transparência dos clubes... Tudo isso a CBF pode fazer. Tanto que fez e está pronta para executar. Basta o governo aprovar.

E se não aprovar?

Vamos buscar o plano B.

Qual é?

É conversar com os clubes e daqui para frente, de uma forma mais modesta, fazer como faz no Paulistão: não poderá haver débitos durante a competição. Daqui para frente, temos de cobrar dos clubes, eles estão cientes e querem isso, o compromisso de pagar em dia as suas contas. Os clubes não podem gastar mais do que recebem. Têm de projetar as contas no sentido de terminar a competição e não dever para ninguém, perdendo ou ganhando.

Mas tivemos casos de atrasos no Paulistão e nenhum clube foi punido...

Quem atrasou e foi denunciado no tribunal (de Justiça Desportiva)... o tribunal convocou o clube e ele pagou imediatamente. Tivemos quatro casos, não me lembro os clubes, mas durante a competição, não teve ninguém. Funcionou perfeitamente.

Como está o futebol brasileiro seis meses depois da Copa do Mundo?

O futebol brasileiro, depois de uma derrota, de um momento muito difícil, está caminhando para uma nova fase. Não adianta chorar o leite derramado, ficar criticando o que passou. Temos de nos voltar para o futuro. Só o futuro pode trazer melhoras para o futebol brasileiro. Temos trabalhado bastante para isso. A contratação do Dunga, do Gilmar, já tínhamos o Gallo, dá uma exata visão do que a gente quer. O Gallo faz belíssimo trabalho na base, Dunga é um grande comandante e a expectativa é que a gente possa fazer uma mudança muito grande na maneira de a equipe atuar, e isso ele está fazendo.

Até quando vai a paciência para que esse período de transição comece a dar frutos efetivos?

Não tem de esperar muito. O Brasil sempre foi vanguarda, esteve na frente, sempre está entre os grandes países do mundo. Não estamos aprendendo futebol, sabemos jogar. Temos de encontrar alguma forma de melhorar o que já temos. E isso está bem claro no trabalho que o Dunga tem feito. O Dunga quer uma equipe forte, firme, solidária. No mais, o futebol brasileiro é um dos maiores do mundo. Perdemos, mas não perdemos a dignidade. O que precisa é jogar bola e aquilo que o Dunga está construindo. Colocar em campo e esperar os resultados.

A condição de grande também se faz com resultados. Então, por exemplo, ganhar a Copa América do Chile é praticamente uma obrigação?

A grandeza do futebol brasileiro indica que nós temos de estar entre os primeiros (nas competições), disputando pelo menos uma final. Dentro do que nós temos no futebol brasileiro ela (a seleção) é protagonista, temos de estar na frente, ganhando.

O Dunga correrá risco se tivermos uma campanha ruim no Chile?

Não. Nesses 4 anos que eu vou estar à frente da confederação ele é nosso técnico. Sei do caráter e da importância dele.

A volta do Dunga ainda é contestada por não ter, para muitos, significado um avanço.

Tem muito mais gente apoiando o Dunga do que contrária Ele é um homem que teve um passado bom na seleção, foi campeão do mundo, já jogou em seleção que perdeu Copa, tem experiência, evoluiu. Está no auge para administrar a seleção.

O futebol brasileiro continua tendo grandes talentos?

Tenho certeza de que sim. Temos de avançar é no entendimento de que o futebol é um conjunto, precisa ter harmonia. Não é um jogar por todos, mas todos jogarem por todos.

Na eleição do melhor do mundo da Fifa o brasileiro mais bem colocado foi o Neymar, em sétimo. Isso não seria um sinal de que estão faltando jogadores diferenciados no País?

Tudo é cíclico, e me refiro a essa eleição da Fifa. Nós tivemos momentos grandiosos especificamente nessa votação. Para mim, o melhor do mundo é o Neymar... Eu acho. E com visão de dirigente, não é de torcedor, porque eu não sou torcedor. Cristiano Ronaldo é bom? É bom. Mas eu acho que o Neymar é o grande jogador do mundo.

Por que o senhor considera ele o melhor do mundo?

É só você vê-lo jogar futebol. O passes, a maneira como ele conduz a bola... ele é ovacionado nos estádios. Não sei se aqueles que ganharam, os seis primeiros, são ovacionados da forma que o Neymar tem sido. A forma como ele mexe com a bola... Ele tem um trato com a bola que poucos jogadores têm.

Qual sua impressão sobre o George Hilton (novo ministro do Esporte)?

Fiquei muito impressionado com ele. Ele é ativo e determinado, quer acertar, tem vontade fazer o melhor para o Brasil. É um idealista, pensa na pátria dele, quer ter soluções. Quando você vê um homem que demonstra essas qualidades você melhora a sua expectativa em relação ao que pode fazer pelo futebol e pelo esporte.

Mas isso é suficiente?

O homem quando tem capacidade de administrar, ele administra qualquer segmento.

Ele apresentou alguma ideia para o futebol brasileiro?

Ele está ouvindo. Primeiro você tem ouvir. Não pode tomar medidas... ah, vou fazer isso vou fazer aquilo. Aqui na CBF também um só fazia o regulamento, hoje fazemos ouvindo dez pessoas. E para errar menos.

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