Arquivo Pessoal
Marcos Catão, sócio do CTA Advogados e professor de direito desportivo da Universidade Complutense de Madrid Arquivo Pessoal

'Do jeito que está, a tendência é que muitos clubes quebrem como o Cruzeiro'

Marcos Catão, professor de direito desportivo, vê aprovação do projeto de clube-empresa como principal saída para evitar crise financeira no futebol brasileiro

João Prata, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 16h48

Marcos Catão, sócio do CTA Advogados e professor de direito desportivo da Universidade Complutense de Madrid, na Espanha, é o nono entrevistado da série sobre finanças no futebol. Membro do conselho que elaborou o projeto de clube-empresa no Brasil, ele vê como fundamental para a saúde financeira das equipes a migração de associação civil para sociedade anônima. "Do jeito que está a tendência é que muitos clubes quebrem como o Cruzeiro. Como vem acontecendo há tempos. E acabou também com outros clubes tradicionais, centenários, como a Portuguesa e o América-RJ."

Como vê a administração dos clubes hoje em dia?

O atual estágio, de uma maneira geral, é péssimo. E a situação se agravou com a pandemia. Isso no mundo inteiro. 

Qual é a saída para essa crise?

Os clubes como associação civil podem crescer um pouco, claro, mas não existe a menor chance de aumentar consideravelmente o faturamento. O caso do Flamengo é emblemático, mas é único por causa do tamanho da torcida. Há outros bons exemplos de administração como a do Ceará, que teve a iniciativa de produzir o uniforme, assim não precisa repassar valor para o fornecedor. Os clubes se movimentam para criar novas fontes de receita. Mas os clubes, como associação civil, não têm muitas condições de ir ao mercado. E isso hoje em dia é fundamental. 

A MP984 pode ajudar na saída dessa crise?

Essa história de só o mandante receber vai funcionar até a esquina. Um pouco adiante vai criar o 'papagaio de arena', que é o clube ficar esperando que o Flamengo ou o Corinthians venham jogar na sua casa para ganhar um tostão. Isso só faz aumentar o gap enorme e vai na contramão do fair play financeiro. A criação da Fla TV, Flu TV, Corinthians TV pode ser boa porque elimina um intermediário, mas é muito pequena ainda.

A saída é o clube se tornar empresa?

Acho que a MP do clube empresa não tem que ser obrigatória. O projeto é muito bom e precisa passar. Meu medo é que aconteça o mesmo que aconteceu com a reforma tributária do governo, que demore um ano e meio para aprovar e quando chegar, chegue já está defasada. O processo de regulação precisa ser rápido. Sai com a regulação e depois melhora. A pior coisa é ficar sem regulação. Os clubes estão completamente quebrados. 

Uma das críticas ao modelo proposto no Congresso é que a medida provisória seria só mais uma forma de perdoar as dívida sem contribuir para de fato organizar a gestão dos clubes. 

Seria interessante deixar os clubes escolherem. Na Espanha, deixaram não aderir ao clube-empresa associações que tiveram superávit nos últimos três anos. Sobraram quatro clubes: Real Madrid, Barcelona, Osasuna e Athletic Bilbao. Talvez pudesse incluir isso no Brasil. Quem está mal das pernas adere e não vai poder ficar financiando a dívida no Profut. 

O que acha mais importante nessa mudança?

A questão do regime tributário. Hoje tem discussão. Clube-empresa coloca aliquota de 5% como se fosse um Simples do futebol. Hoje não é bem verdade que os clubes não pagam nada imposto. Eles pagam a contribuição previdenciária sobre receita bruta, que é 5%, o que não é pouco. Pagam também contribuição previdenciária para o governo sobre folha de salário, de 4,5%. Acredito que seja melhor ter regra fixa para todos. 

A mudança para o formato S.A. Pode contribuir para que clubes percam seus nomes tradicionais como aconteceu com o Bragantino, por exemplo?

Acho que não. O caso do Red Bull é pontual, na figura de clube-empresa bem administrado, de uma empresa que quis criar clubes de futebol. No modelo proposto a intenção é atrair investidor. Quando tem investidor e diversas formas de receita o patrocinador vai ser mais uma forma de receita. Num ambiente saudável as rendas correspondentes seriam: 20% arena, 15% patrocinador, 30% de operação de matchday, outras receitas menores. Patrocinador não tende a ser tão relevante. Os clubes brasileiros são centenários, torcedores não iriam deixar acontecer. Até porque também para muitas empresas talvez não seja interessante ficar com o nome vinculado a um clube. 

Além da dificuldade com arrecadação, os clubes perdem também muito dinheiro com questões judiciais. Isso dá para evitar ou é um dinheiro que inevitavelmente o clube vai perder?

É absolutamente evitável. Jogador de futebol tem legislação específica com série de questões. Quando se negocia um atleta, se destaca a parte bonita que é do ganho, mas não falam da feia. Quando você faz um longo contrato, de quatro anos, por exemplo, se você manda o jogador embora no meio do contrato você continuará pagando proporcionalmente. E muito clube faz isso, contrata, dispensa e depois briga na Justiça. E perde. Passivo judicial, fiscal e trabalhista é fruto da má administração. 

A saída do futebol brasileiro é a aprovação do projeto de clube-empresa. Mas como Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique seguem sustentáveis como associações? 

Dá certo porque o sócio desses clubes é o cara que tem cadeira no estádio. O Santiago Bernabéu tem 78 mil cadeiras, 63 mil são de sócios abonados. Uma cadeira no Bernabéu vale 1 milhão de euros e tem fila de cem mil pessoas para comprar. 

Então no Brasil há mais saídas?

Pode ter clubes que sejam viáveis nessa linha de associação civil. O Brasil tem grande potencial para atrair investidor. Se houvesse abertura de capital dos clubes, acredito que apareceria gente que compraria R$ 10 mil em ação, R$ 20 mil.O mercado brasileiro tem no mínimo 100 milhões de pessoas que gostam de futebol. Tem espaço para abrir mercado de capitais sadio. 

Qual sua crítica ao modelo proposto de clube-empresa?

Acho que não tem que ter tipo societário único, específico para o futebol. Não tem um único tipo societário para telecomunicações, para petróleo e gás, por que vai ter pro futebol? 

O que acha que vai acontecer com o futebol brasileiro se essa lei não for aprovada? 

Do jeito que está a tendência é que muitos clubes quebrem como o Cruzeiro. Acabou. Tem outros exemplos de clubes tradicionais como a Portuguesa, o América-RJ, que acabaram. A Portuguesa,  com o estádio do Canindé, com toda uma a comunidade de Portugal no Brasil... Bagunça, bagunça e acabou. O América, clube centenário carioca, com estádio. A mesma coisa. Se não houver uma mudança drástica vários outros vão para o mesmo caminho.

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Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

Na contramão, Bahia 'ignora' YouTube e aposta no seu aplicativo para 'substituir' receita

Em entrevista ao 'Estadão', presidente Guilherme Bellintani detalha objetivos do clube neste ano

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

A crise do coronavírus e o novo modelo de transmissão advindo de Medida Provisória (MP) 984 impulsionaram os clubes a investir em seus canais no YouTube, seja com transmissão de partidas oficiais, jogos-treino ou lançamento de camisas, em ações para aumentar a audiência e o alcance na plataforma. Mas há uma exceção: o Bahia optou por deixar em segundo plano essa possibilidade apostando no próprio aplicativo.

De acordo com o seu presidente, Guilherme Bellintani, não é possível obter monetização relevante pelo YouTube. Por isso, o clube lançou o Sócio Digital, acreditando que em até dois anos obterá com o aplicativo a mesma receita que consegue pelo acordo de pay-per-view, ainda mais que a partir de 2021 poderá transmitir jogos do Campeonato Baiano pela plataforma.

A postura está na contramão de diversos clubes, mas o Bahia é um dos líderes da união da maioria deles, defendendo o conteúdo da MP 984, por acreditar que ela fará aumentar a arrecadação das equipes, embora destaque que só haverá divisão mais igualitária dos recursos se os times caminharem juntos. Nesta entrevista ao Estadão, o presidente do Bahia defende o fim dos Estaduais, embora não veja movimento para isso, e não crê que o futebol esteja vivendo o início de uma hegemonia dentro dos campos. Além disso, assegura que o clube vai intensificar a implementação de iniciativas de inclusão tão defendidas em campanhas da sua gestão. 

A mudança nos direitos de transmissão veio através de MP. Isso foi surpresa para a maioria dos clubes? Pode trazer insegurança aos investidores?

A forma como aconteceu não foi a planejada, nem do modo que devem acontecer as mudanças no futebol, que devem vir de desdobramentos de discussões e construções coletivas. Mas o mérito da MP atende a maioria dos clubes brasileiros. A MP se perpetua se virar lei, sendo aprovada no Congresso Nacional. Não importa se a origem é por um projeto de lei ou medida provisória. A origem fica apagada

Há muita desigualdade na distribuição das receitas de TV. Como a MP e o seu conteúdo podem ajudar a combater isso?

Não tenho essa ilusão, mas é um caminho para a redução. Eu acredito muito nisso. E que também é um caminho para aumentar o tamanho do bolo. Primeiro, o bolo precisa ser feito. E as fatias não podem ser tão diferentes. O direito do mandante torna o bolo maior por colocar na mesa jogos que estavam fora. Mais da metade das partidas do Brasileirão não são transmitidas em TV fechada porque há uma lei, a única no mundo, que divide o direito de transmissão. A MP resolve isso, com exceção se algum clube não vender para ninguém ou nem fizer a sua transmissão, o que é muito improvável. Com mais jogos, há mais remuneração. O equilíbrio na divisão das receitas dependerá da união dos clubes. Quanto maior for esse bloco, maior será a união. Se isso não acontecer, a disparidade poderá até ser maior.

Recentemente, 16 clubes da Série A se manifestaram a favor do conteúdo da MP. Como se deu essa união e qual é a sua importância?

Essa união vem amadurecendo há algum tempo, embora as pessoas não acreditem, É assim,com a Liga do Nordeste, um campeonato estruturado pela liga. Outro bloco que demonstra isso é o dos 8 clubes que assinaram com a Turner. Tudo é feito coletivamente, como o processo decisório. E a Comissão Nacional de Clubes (CNC), de um ano para cá, tem demonstrado isso. Ter uma manifestação de 16 clubes da Série A, com os 19 da B e os times da Liga do Nordeste é uma demonstração de união.

Há problemas nessa união que redundou no acordo com a Turner?

A crise ou une ou separa. E está unindo. É uma experiência nova, tem muitas discussões, muitas divergências, o que é natural. E buscamos a convergência. Vou te dar um exemplo. Na CNC, tivemos uma reunião emblemática, quando tomamos a decisão sobre a venda dos direitos internacionais. A nossa votação para um determinado modelo comercial teve placar de 10 a 9. Sugeri que não fechássemos questão por isso e voltasse a conversar 48 horas depois, corrigindo as ideias do grupo que perdeu. E aí voltamos a conversar, fizemos correções e saiu 19 a 0.

Para Entender

Entenda como ficam os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro após a MP 984

Com a tabela já confirmada, competição terá alguns jogos nas primeiras rodadas que não vão passar em nenhum canal

O contrato do Brasileirão vai até 2024. Não haverá mudanças significativas até lá, mesmo que a MP se torne lei. O que esse tempo pode ajudar? E como o senhor imagina o novo modelo de transmissões?

Será um novo contexto jurídico e com uma revolução de tecnologia, com estrutura, com internet e plataformas melhores, streaming melhores. Também haverá a redução da força econômica dos players tradicionais. As tevês abertas passam por uma crise e isso vai impactar. Vamos ter uma realidade absolutamente diferente. As pessoas falam equivocadamente em substituição de players. O que haverá é uma mudança de contexto, com a convivência entre diferentes players. Não será um monopólio substituindo outro. Acredito que a Globo possa não ter dinheiro para comprar tudo, talvez a Amazon e o Facebook não queiram comprar tudo, o pay-per-view não se sustente como está, os clubes tenham suas próprias plataformas, que poderão transmitir uma parte de jogos. Ainda vai demorar um tempo para entendermos quais serão os melhores caminhos. Temos de tatear, sentir as circunstâncias.

Qual será o papel ocupado pelo streaming?

Ele não é uma nova plataforma, é um novo meio. Vai brigar com algumas plataformas, mas vai coexistir. Na situação atual, não substitui a TV aberta, que chega em todos os lares. Hoje, tenderia a competir com o pay-per-view. Mas já compete com a TV fechada, como acontece com o DAZN. Um Flamengo x Corinthians no streaming pode pegar parte do público da TV aberta, embora vá ser menos democrático, ter menos alcance. Se nós estivéssemos hoje com todos os direitos liberados, provavelmente as novas plataformas de streaming, de clubes, competiriam com o pay-per-view. Mas em 2025 isso pode ser muito diferente.

O Bahia lançou um aplicativo próprio, o Sócio Digital. Quais são os planos do clube com a iniciativa?

Brinquei que é uma mistura de Netflix, com BBB, Esporte Espetacular e rede social. Estamos criando novos conteúdos, porque o de jogo está vendido. A partir dessa limitação, usamos todo o conteúdo entre os jogos. Estamos na contramão dos outros clubes, que estão apostando em TVs no YouTube, que entendemos não dar perspectivas de monetização. Criamos um aplicativo que oferece tudo do YouTube e muito mais, com pesquisa no celular, tabela de jogos, classificação dos campeonatos, loja virtual, além de tudo que pode ser transmitido. E com usabilidade mais fácil e amigável. Tínhamos 275 mil inscritos em outro aplicativo e queremos converter isso para 50, 60 ml assinaturas em até 12 meses. Temos uma linguagem única, parecida com redes sociais, com filmagens pelo celular, transmissões ao vivo, com informalidade. Conseguimos assim produzir muito mais por um preço baixo. Não me preocupo com transmissão de jogos ou números de seguidores no YouTube.

Em 2021, o Bahia pretende transmitir os jogos do Estadual na plataforma. A receita obtida com o Sócio Digital pode substituir o acordo de TV?

Acredito que já pode acontecer em um ou dois anos em relação ao pay-per-view. O que o Bahia recebe é baixo, eu recebi R$ 9 milhões no ano passado e tudo indica que nesse ano eu vou receber menos. Se eu tiver 70, 80 mil assinantes, sendo que fechamos a primeira semana com 7 mil, a receita será a mesma do pay-per-view. Hoje tenho 7 mil só com treinos e bastidores. O máximo que transmito é o rachão.

Mas o investimento nas transmissões não pode diminuir o lucro com o aplicativo?

O custo é infinitamente menor do que o da transmissão pela TV. Fiz o orçamento para o Campeonato Baiano com gasto de R$ 500 mil, contratando produção e narrador para todos os jogos. Um jogo para a TV custa pelo menos R$ 300 mil.

O calendário pode passar por mudanças profundas em 2021 e que incluiriam o fim dos Estaduais?

Filosoficamente, eu gostaria. Mas não acho que exista um movimento firme de clubes e da CBF para acabar com os estaduais. Eles vão se acabar, infelizmente. Se fossemos estratégicos, acabaríamos com o produto antes. Na prática, eu ainda creio que haverá uma convivência mortal dos estaduais com o Nacional. A minha posição é que os estaduais fossem jogados com times de transição pelos clubes de Série A e B, o que ajudaria a revelar jogadores que ou abandonam a carreira ou são vendidos rapidamente. Paralelo a isso, um Brasileirão com 9 ou 10 meses de duração, conciliando datas com torneios internacionais. Mas não acredito que isso vá acontecer.

As tevês terão participação direta no fim dos estaduais?

A televisão vai ajudar. Na Bahia, não vou jogar e nem o Vitória com o time principal em 2021. Neste ano, joguei no mesmo dia da Copa do Nordeste, fizemos uma rodada dupla na Fonte Nova. É uma escolha ideológica. Alguns estados podem fazer isso, fizemos em decisão conjunta. Outros estados vão ser forçados pela crise dos contratos de TV.

O Bahia tem ficado marcado por posicionamento em questões sociais. Tem puxado esse “movimento” no futebol?

Isso já tem acontecido. Mas estou menos preocupado com posicionamentos, onde avançamos bastante. Agora preciso ir além, na postura e nas crenças, implementando avanços no clube e no futebol. Precisamos dizer menos e fazer mais. O Bahia agora está pensando nessa transformação.

Como a sua gestão tem pensado e agido para isso?

Temos começado a fazer. Tem o processo democrático, de transparência, de abertura do clube para a torcida. De permitir e estimular produtos mais populares, brigar pelo preço da cerveja, ter um local para denúncia de mulheres contra o assédio dentro do estádio, fazer o botão do aplicativo para essa denúncia. Ter uma pessoa transexual como vendedora da loja sem ninguém saber disso. A gente quer que isso vire normalidade. Tem muito mais para fazer. Temos poucos negros na gestão do futebol. O Conselho é muito machista numericamente, com pouca presença feminina. Na próxima eleição, teremos a obrigação de presença de 20% de mulheres em cada chapa.

Esse posicionamento melhora a imagem do Bahia diante de torcedores de outros clubes?

A gente percebe isso, mas também tem uma reação negativa porque o País está mais intolerante, homofóbico. A gente luta porque acredita, não para agradar. Mas a gente vê gente vestindo a camisa do Bahia mesmo não sendo o seu time principal. Isso é ótimo e se dá por um conjunto de circunstâncias. É por outras questões também não só pelo posicionamento. Hoje temos uma gestão mais equilibrada, honramos compromisso, somos abertos, exercitamos a dignidade, a ética e o respeito. Se fosse só o discurso, mesmo corajoso, mas estivéssemos endividando o clube, seria algo superficial e não teria a mesma repercussão.

O Bahia conseguiu se consolidar na Série A. A crise atrapalha o clube a dar saltos maiores?

Atrapalha, ainda que sem uma análise comparativa. O Bahia hoje está muito mais fragilizado do que antes do coronavírus. Antes, tínhamos um plano de faturar R$ 200 milhões neste ano. Agora estamos lutando para chegar em R$ 130 milhões. Vai gerar um déficit depois de seis anos. É prejudicial ao projeto. Mas não consigo responder se ao final do coronavírus vamos subir ou descer no ranking de competitividade. A tendência é que a gente suba, saia mais forte do que a média dos clubes, porque vínhamos mais estruturados do que a média. Mas eu não posso cravar isso porque não sei a realidade dos outros clubes. Trabalho loucamente para manter os salários em dia, algo que não acontecia antes. Tenho despesas contratadas que não consigo pagar. A gente vai se fragilizar. Mas se o adversário saiu pior, você se dá bem. A gente não torce por uma pandemia, mas você pode até sair fortalecido.

Como recuperar o que se perdeu com a crise do coronavírus?

O próprio futebol está dando oportunidades, como a Lei das S/A, que está tramitando no Congresso Nacional, os temas relativos à modernização dos clubes, com Profut e fair-play financeiro. Essa é uma chance que o futebol tem de se reinventar em um momento de crise profunda. Se você enfrentar a crise como você encarava a normalidade, você vai perder. O Bahia está muito mais criativo do que seis meses atrás. O Sócio Digital só seria lançado no fim do ano.

O senhor é a favor do clube-empresa?

Acredito e defendo a aprovação de uma legislação. O Bahia não necessariamente vai se tornar uma empresa e tenho críticas às visões de que essa é a única saída para o futebol. O mundo corporativo mostra que há boas empresas e más. A gente vê o Grêmio como uma associação muito bem gerida e compara com empresas trágicas. É preciso ter um DNA associativo, governança. A empresa não é a única solução.

O seu mandato termina no fim do ano. Se imagina em reeleição? Até onde o Bahia pode chegar?

Ainda não decidimos se o caminho é uma reeleição, vamos discutir mais para frente. Mas o que precisamos fazer é ir para o terceiro ciclo. Tivemos o primeiro, da dignidade, tornando o Bahia um time respeitável, mesmo com o orçamento limitado. No segundo, mesmo com a pandemia, estamos aumentando o poder econômico do clube, com protagonismo nacional relevante. O terceiro é tornar o clube mais competitivo para dar voos mais rápidos, com uma base mais forte, ser inovador, apostar em dados para os negócios e dentro de campo, com metodologia, para que sejamos mais competitivos. Já inauguramos um CT moderno. É um ciclo até 2027, 2028, para voltar a disputar com os times grandes.

O Brasileiro vai repetir o modelo de torneios nacionais europeus, com hegemonia de um ou dois clubes?

Ainda é cedo para tirar essas conclusões. Há um ano, o Flamengo investia, mas não tinha um modelo vencedor, tanto que o Palmeiras foi campeão em 2019. Não se falava dessa hegemonia antes do Jorge Jesus. Já tivemos outros momentos parecidos, com o São Paulo muito absoluto, com o Fluminense com o patrocínio da Unimed, o Palmeiras com o apoio da Parmalat... Precisamos ver qual é sustentabilidade dos projetos hegemônicos. Há clubes que vão ser sempre competitivos, como o Grêmio. Se o Corinthians encontrar caminhos, se reestruturar, pode ser mais competitivo, tem tamanho para isso, para rivalizar com o Flamengo. O São Paulo também tem. Há caminhos. O Athletico tem demonstrado isso, chegando perto do topo, tendo ganho Copa do Brasil e Sul-Americana, mesmo tendo uma torcida muito menor do que a média dos clubes do futebol brasileiro. Acho que o Brasil ainda não está se tornando uma Alemanha.

Mas está se tornando uma Espanha?

Não sei, pode ser mais provável do que a Alemanha. Mas o modelo dos clubes espanhóis é muito mais estável do que o nosso. O Flamengo ou o Palmeiras, ou qualquer outro, não tem de provar que são grandes. Precisam provar que são grandes e estáveis. A grandeza sozinha não faz a hegemonia.

O objetivo do Bahia é se consolidar como o maior time do Nordeste?

Isso é uma coisa para a torcida. Quanto mais o Nordeste estiver forte, melhor para nós. Queremos ser mais competitivos nacionalmente. É melhor se o Bahia for o 6º, o Fortaleza ficar em 8º e o Ceará em 9º do que ter o Bahia sozinho e em 5º Eu prefiro assim do que ficar arrotando ser o maior, mas com o futebol do Nordeste fraco.

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Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

'Streaming chegou para ficar, mas por enquanto é apenas complemento da TV', diz diretor do Ibope

Em entrevista ao 'Estadão', presidente Guilherme Bellintani detalha objetivos do clube neste ano

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

A crise do coronavírus e o novo modelo de transmissão advindo de Medida Provisória (MP) 984 impulsionaram os clubes a investir em seus canais no YouTube, seja com transmissão de partidas oficiais, jogos-treino ou lançamento de camisas, em ações para aumentar a audiência e o alcance na plataforma. Mas há uma exceção: o Bahia optou por deixar em segundo plano essa possibilidade apostando no próprio aplicativo.

De acordo com o seu presidente, Guilherme Bellintani, não é possível obter monetização relevante pelo YouTube. Por isso, o clube lançou o Sócio Digital, acreditando que em até dois anos obterá com o aplicativo a mesma receita que consegue pelo acordo de pay-per-view, ainda mais que a partir de 2021 poderá transmitir jogos do Campeonato Baiano pela plataforma.

A postura está na contramão de diversos clubes, mas o Bahia é um dos líderes da união da maioria deles, defendendo o conteúdo da MP 984, por acreditar que ela fará aumentar a arrecadação das equipes, embora destaque que só haverá divisão mais igualitária dos recursos se os times caminharem juntos. Nesta entrevista ao Estadão, o presidente do Bahia defende o fim dos Estaduais, embora não veja movimento para isso, e não crê que o futebol esteja vivendo o início de uma hegemonia dentro dos campos. Além disso, assegura que o clube vai intensificar a implementação de iniciativas de inclusão tão defendidas em campanhas da sua gestão. 

A mudança nos direitos de transmissão veio através de MP. Isso foi surpresa para a maioria dos clubes? Pode trazer insegurança aos investidores?

A forma como aconteceu não foi a planejada, nem do modo que devem acontecer as mudanças no futebol, que devem vir de desdobramentos de discussões e construções coletivas. Mas o mérito da MP atende a maioria dos clubes brasileiros. A MP se perpetua se virar lei, sendo aprovada no Congresso Nacional. Não importa se a origem é por um projeto de lei ou medida provisória. A origem fica apagada

Há muita desigualdade na distribuição das receitas de TV. Como a MP e o seu conteúdo podem ajudar a combater isso?

Não tenho essa ilusão, mas é um caminho para a redução. Eu acredito muito nisso. E que também é um caminho para aumentar o tamanho do bolo. Primeiro, o bolo precisa ser feito. E as fatias não podem ser tão diferentes. O direito do mandante torna o bolo maior por colocar na mesa jogos que estavam fora. Mais da metade das partidas do Brasileirão não são transmitidas em TV fechada porque há uma lei, a única no mundo, que divide o direito de transmissão. A MP resolve isso, com exceção se algum clube não vender para ninguém ou nem fizer a sua transmissão, o que é muito improvável. Com mais jogos, há mais remuneração. O equilíbrio na divisão das receitas dependerá da união dos clubes. Quanto maior for esse bloco, maior será a união. Se isso não acontecer, a disparidade poderá até ser maior.

Recentemente, 16 clubes da Série A se manifestaram a favor do conteúdo da MP. Como se deu essa união e qual é a sua importância?

Essa união vem amadurecendo há algum tempo, embora as pessoas não acreditem, É assim,com a Liga do Nordeste, um campeonato estruturado pela liga. Outro bloco que demonstra isso é o dos 8 clubes que assinaram com a Turner. Tudo é feito coletivamente, como o processo decisório. E a Comissão Nacional de Clubes (CNC), de um ano para cá, tem demonstrado isso. Ter uma manifestação de 16 clubes da Série A, com os 19 da B e os times da Liga do Nordeste é uma demonstração de união.

Há problemas nessa união que redundou no acordo com a Turner?

A crise ou une ou separa. E está unindo. É uma experiência nova, tem muitas discussões, muitas divergências, o que é natural. E buscamos a convergência. Vou te dar um exemplo. Na CNC, tivemos uma reunião emblemática, quando tomamos a decisão sobre a venda dos direitos internacionais. A nossa votação para um determinado modelo comercial teve placar de 10 a 9. Sugeri que não fechássemos questão por isso e voltasse a conversar 48 horas depois, corrigindo as ideias do grupo que perdeu. E aí voltamos a conversar, fizemos correções e saiu 19 a 0.

Para Entender

Entenda como ficam os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro após a MP 984

Com a tabela já confirmada, competição terá alguns jogos nas primeiras rodadas que não vão passar em nenhum canal

O contrato do Brasileirão vai até 2024. Não haverá mudanças significativas até lá, mesmo que a MP se torne lei. O que esse tempo pode ajudar? E como o senhor imagina o novo modelo de transmissões?

Será um novo contexto jurídico e com uma revolução de tecnologia, com estrutura, com internet e plataformas melhores, streaming melhores. Também haverá a redução da força econômica dos players tradicionais. As tevês abertas passam por uma crise e isso vai impactar. Vamos ter uma realidade absolutamente diferente. As pessoas falam equivocadamente em substituição de players. O que haverá é uma mudança de contexto, com a convivência entre diferentes players. Não será um monopólio substituindo outro. Acredito que a Globo possa não ter dinheiro para comprar tudo, talvez a Amazon e o Facebook não queiram comprar tudo, o pay-per-view não se sustente como está, os clubes tenham suas próprias plataformas, que poderão transmitir uma parte de jogos. Ainda vai demorar um tempo para entendermos quais serão os melhores caminhos. Temos de tatear, sentir as circunstâncias.

Qual será o papel ocupado pelo streaming?

Ele não é uma nova plataforma, é um novo meio. Vai brigar com algumas plataformas, mas vai coexistir. Na situação atual, não substitui a TV aberta, que chega em todos os lares. Hoje, tenderia a competir com o pay-per-view. Mas já compete com a TV fechada, como acontece com o DAZN. Um Flamengo x Corinthians no streaming pode pegar parte do público da TV aberta, embora vá ser menos democrático, ter menos alcance. Se nós estivéssemos hoje com todos os direitos liberados, provavelmente as novas plataformas de streaming, de clubes, competiriam com o pay-per-view. Mas em 2025 isso pode ser muito diferente.

O Bahia lançou um aplicativo próprio, o Sócio Digital. Quais são os planos do clube com a iniciativa?

Brinquei que é uma mistura de Netflix, com BBB, Esporte Espetacular e rede social. Estamos criando novos conteúdos, porque o de jogo está vendido. A partir dessa limitação, usamos todo o conteúdo entre os jogos. Estamos na contramão dos outros clubes, que estão apostando em TVs no YouTube, que entendemos não dar perspectivas de monetização. Criamos um aplicativo que oferece tudo do YouTube e muito mais, com pesquisa no celular, tabela de jogos, classificação dos campeonatos, loja virtual, além de tudo que pode ser transmitido. E com usabilidade mais fácil e amigável. Tínhamos 275 mil inscritos em outro aplicativo e queremos converter isso para 50, 60 ml assinaturas em até 12 meses. Temos uma linguagem única, parecida com redes sociais, com filmagens pelo celular, transmissões ao vivo, com informalidade. Conseguimos assim produzir muito mais por um preço baixo. Não me preocupo com transmissão de jogos ou números de seguidores no YouTube.

Em 2021, o Bahia pretende transmitir os jogos do Estadual na plataforma. A receita obtida com o Sócio Digital pode substituir o acordo de TV?

Acredito que já pode acontecer em um ou dois anos em relação ao pay-per-view. O que o Bahia recebe é baixo, eu recebi R$ 9 milhões no ano passado e tudo indica que nesse ano eu vou receber menos. Se eu tiver 70, 80 mil assinantes, sendo que fechamos a primeira semana com 7 mil, a receita será a mesma do pay-per-view. Hoje tenho 7 mil só com treinos e bastidores. O máximo que transmito é o rachão.

Mas o investimento nas transmissões não pode diminuir o lucro com o aplicativo?

O custo é infinitamente menor do que o da transmissão pela TV. Fiz o orçamento para o Campeonato Baiano com gasto de R$ 500 mil, contratando produção e narrador para todos os jogos. Um jogo para a TV custa pelo menos R$ 300 mil.

O calendário pode passar por mudanças profundas em 2021 e que incluiriam o fim dos Estaduais?

Filosoficamente, eu gostaria. Mas não acho que exista um movimento firme de clubes e da CBF para acabar com os estaduais. Eles vão se acabar, infelizmente. Se fossemos estratégicos, acabaríamos com o produto antes. Na prática, eu ainda creio que haverá uma convivência mortal dos estaduais com o Nacional. A minha posição é que os estaduais fossem jogados com times de transição pelos clubes de Série A e B, o que ajudaria a revelar jogadores que ou abandonam a carreira ou são vendidos rapidamente. Paralelo a isso, um Brasileirão com 9 ou 10 meses de duração, conciliando datas com torneios internacionais. Mas não acredito que isso vá acontecer.

As tevês terão participação direta no fim dos estaduais?

A televisão vai ajudar. Na Bahia, não vou jogar e nem o Vitória com o time principal em 2021. Neste ano, joguei no mesmo dia da Copa do Nordeste, fizemos uma rodada dupla na Fonte Nova. É uma escolha ideológica. Alguns estados podem fazer isso, fizemos em decisão conjunta. Outros estados vão ser forçados pela crise dos contratos de TV.

O Bahia tem ficado marcado por posicionamento em questões sociais. Tem puxado esse “movimento” no futebol?

Isso já tem acontecido. Mas estou menos preocupado com posicionamentos, onde avançamos bastante. Agora preciso ir além, na postura e nas crenças, implementando avanços no clube e no futebol. Precisamos dizer menos e fazer mais. O Bahia agora está pensando nessa transformação.

Como a sua gestão tem pensado e agido para isso?

Temos começado a fazer. Tem o processo democrático, de transparência, de abertura do clube para a torcida. De permitir e estimular produtos mais populares, brigar pelo preço da cerveja, ter um local para denúncia de mulheres contra o assédio dentro do estádio, fazer o botão do aplicativo para essa denúncia. Ter uma pessoa transexual como vendedora da loja sem ninguém saber disso. A gente quer que isso vire normalidade. Tem muito mais para fazer. Temos poucos negros na gestão do futebol. O Conselho é muito machista numericamente, com pouca presença feminina. Na próxima eleição, teremos a obrigação de presença de 20% de mulheres em cada chapa.

Esse posicionamento melhora a imagem do Bahia diante de torcedores de outros clubes?

A gente percebe isso, mas também tem uma reação negativa porque o País está mais intolerante, homofóbico. A gente luta porque acredita, não para agradar. Mas a gente vê gente vestindo a camisa do Bahia mesmo não sendo o seu time principal. Isso é ótimo e se dá por um conjunto de circunstâncias. É por outras questões também não só pelo posicionamento. Hoje temos uma gestão mais equilibrada, honramos compromisso, somos abertos, exercitamos a dignidade, a ética e o respeito. Se fosse só o discurso, mesmo corajoso, mas estivéssemos endividando o clube, seria algo superficial e não teria a mesma repercussão.

O Bahia conseguiu se consolidar na Série A. A crise atrapalha o clube a dar saltos maiores?

Atrapalha, ainda que sem uma análise comparativa. O Bahia hoje está muito mais fragilizado do que antes do coronavírus. Antes, tínhamos um plano de faturar R$ 200 milhões neste ano. Agora estamos lutando para chegar em R$ 130 milhões. Vai gerar um déficit depois de seis anos. É prejudicial ao projeto. Mas não consigo responder se ao final do coronavírus vamos subir ou descer no ranking de competitividade. A tendência é que a gente suba, saia mais forte do que a média dos clubes, porque vínhamos mais estruturados do que a média. Mas eu não posso cravar isso porque não sei a realidade dos outros clubes. Trabalho loucamente para manter os salários em dia, algo que não acontecia antes. Tenho despesas contratadas que não consigo pagar. A gente vai se fragilizar. Mas se o adversário saiu pior, você se dá bem. A gente não torce por uma pandemia, mas você pode até sair fortalecido.

Como recuperar o que se perdeu com a crise do coronavírus?

O próprio futebol está dando oportunidades, como a Lei das S/A, que está tramitando no Congresso Nacional, os temas relativos à modernização dos clubes, com Profut e fair-play financeiro. Essa é uma chance que o futebol tem de se reinventar em um momento de crise profunda. Se você enfrentar a crise como você encarava a normalidade, você vai perder. O Bahia está muito mais criativo do que seis meses atrás. O Sócio Digital só seria lançado no fim do ano.

O senhor é a favor do clube-empresa?

Acredito e defendo a aprovação de uma legislação. O Bahia não necessariamente vai se tornar uma empresa e tenho críticas às visões de que essa é a única saída para o futebol. O mundo corporativo mostra que há boas empresas e más. A gente vê o Grêmio como uma associação muito bem gerida e compara com empresas trágicas. É preciso ter um DNA associativo, governança. A empresa não é a única solução.

O seu mandato termina no fim do ano. Se imagina em reeleição? Até onde o Bahia pode chegar?

Ainda não decidimos se o caminho é uma reeleição, vamos discutir mais para frente. Mas o que precisamos fazer é ir para o terceiro ciclo. Tivemos o primeiro, da dignidade, tornando o Bahia um time respeitável, mesmo com o orçamento limitado. No segundo, mesmo com a pandemia, estamos aumentando o poder econômico do clube, com protagonismo nacional relevante. O terceiro é tornar o clube mais competitivo para dar voos mais rápidos, com uma base mais forte, ser inovador, apostar em dados para os negócios e dentro de campo, com metodologia, para que sejamos mais competitivos. Já inauguramos um CT moderno. É um ciclo até 2027, 2028, para voltar a disputar com os times grandes.

O Brasileiro vai repetir o modelo de torneios nacionais europeus, com hegemonia de um ou dois clubes?

Ainda é cedo para tirar essas conclusões. Há um ano, o Flamengo investia, mas não tinha um modelo vencedor, tanto que o Palmeiras foi campeão em 2019. Não se falava dessa hegemonia antes do Jorge Jesus. Já tivemos outros momentos parecidos, com o São Paulo muito absoluto, com o Fluminense com o patrocínio da Unimed, o Palmeiras com o apoio da Parmalat... Precisamos ver qual é sustentabilidade dos projetos hegemônicos. Há clubes que vão ser sempre competitivos, como o Grêmio. Se o Corinthians encontrar caminhos, se reestruturar, pode ser mais competitivo, tem tamanho para isso, para rivalizar com o Flamengo. O São Paulo também tem. Há caminhos. O Athletico tem demonstrado isso, chegando perto do topo, tendo ganho Copa do Brasil e Sul-Americana, mesmo tendo uma torcida muito menor do que a média dos clubes do futebol brasileiro. Acho que o Brasil ainda não está se tornando uma Alemanha.

Mas está se tornando uma Espanha?

Não sei, pode ser mais provável do que a Alemanha. Mas o modelo dos clubes espanhóis é muito mais estável do que o nosso. O Flamengo ou o Palmeiras, ou qualquer outro, não tem de provar que são grandes. Precisam provar que são grandes e estáveis. A grandeza sozinha não faz a hegemonia.

O objetivo do Bahia é se consolidar como o maior time do Nordeste?

Isso é uma coisa para a torcida. Quanto mais o Nordeste estiver forte, melhor para nós. Queremos ser mais competitivos nacionalmente. É melhor se o Bahia for o 6º, o Fortaleza ficar em 8º e o Ceará em 9º do que ter o Bahia sozinho e em 5º Eu prefiro assim do que ficar arrotando ser o maior, mas com o futebol do Nordeste fraco.

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Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

'Estamos em um momento de transformação da indústria e de mentalidade', diz Pedro Daniel

Em entrevista ao 'Estadão', presidente Guilherme Bellintani detalha objetivos do clube neste ano

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

A crise do coronavírus e o novo modelo de transmissão advindo de Medida Provisória (MP) 984 impulsionaram os clubes a investir em seus canais no YouTube, seja com transmissão de partidas oficiais, jogos-treino ou lançamento de camisas, em ações para aumentar a audiência e o alcance na plataforma. Mas há uma exceção: o Bahia optou por deixar em segundo plano essa possibilidade apostando no próprio aplicativo.

De acordo com o seu presidente, Guilherme Bellintani, não é possível obter monetização relevante pelo YouTube. Por isso, o clube lançou o Sócio Digital, acreditando que em até dois anos obterá com o aplicativo a mesma receita que consegue pelo acordo de pay-per-view, ainda mais que a partir de 2021 poderá transmitir jogos do Campeonato Baiano pela plataforma.

A postura está na contramão de diversos clubes, mas o Bahia é um dos líderes da união da maioria deles, defendendo o conteúdo da MP 984, por acreditar que ela fará aumentar a arrecadação das equipes, embora destaque que só haverá divisão mais igualitária dos recursos se os times caminharem juntos. Nesta entrevista ao Estadão, o presidente do Bahia defende o fim dos Estaduais, embora não veja movimento para isso, e não crê que o futebol esteja vivendo o início de uma hegemonia dentro dos campos. Além disso, assegura que o clube vai intensificar a implementação de iniciativas de inclusão tão defendidas em campanhas da sua gestão. 

A mudança nos direitos de transmissão veio através de MP. Isso foi surpresa para a maioria dos clubes? Pode trazer insegurança aos investidores?

A forma como aconteceu não foi a planejada, nem do modo que devem acontecer as mudanças no futebol, que devem vir de desdobramentos de discussões e construções coletivas. Mas o mérito da MP atende a maioria dos clubes brasileiros. A MP se perpetua se virar lei, sendo aprovada no Congresso Nacional. Não importa se a origem é por um projeto de lei ou medida provisória. A origem fica apagada

Há muita desigualdade na distribuição das receitas de TV. Como a MP e o seu conteúdo podem ajudar a combater isso?

Não tenho essa ilusão, mas é um caminho para a redução. Eu acredito muito nisso. E que também é um caminho para aumentar o tamanho do bolo. Primeiro, o bolo precisa ser feito. E as fatias não podem ser tão diferentes. O direito do mandante torna o bolo maior por colocar na mesa jogos que estavam fora. Mais da metade das partidas do Brasileirão não são transmitidas em TV fechada porque há uma lei, a única no mundo, que divide o direito de transmissão. A MP resolve isso, com exceção se algum clube não vender para ninguém ou nem fizer a sua transmissão, o que é muito improvável. Com mais jogos, há mais remuneração. O equilíbrio na divisão das receitas dependerá da união dos clubes. Quanto maior for esse bloco, maior será a união. Se isso não acontecer, a disparidade poderá até ser maior.

Recentemente, 16 clubes da Série A se manifestaram a favor do conteúdo da MP. Como se deu essa união e qual é a sua importância?

Essa união vem amadurecendo há algum tempo, embora as pessoas não acreditem, É assim,com a Liga do Nordeste, um campeonato estruturado pela liga. Outro bloco que demonstra isso é o dos 8 clubes que assinaram com a Turner. Tudo é feito coletivamente, como o processo decisório. E a Comissão Nacional de Clubes (CNC), de um ano para cá, tem demonstrado isso. Ter uma manifestação de 16 clubes da Série A, com os 19 da B e os times da Liga do Nordeste é uma demonstração de união.

Há problemas nessa união que redundou no acordo com a Turner?

A crise ou une ou separa. E está unindo. É uma experiência nova, tem muitas discussões, muitas divergências, o que é natural. E buscamos a convergência. Vou te dar um exemplo. Na CNC, tivemos uma reunião emblemática, quando tomamos a decisão sobre a venda dos direitos internacionais. A nossa votação para um determinado modelo comercial teve placar de 10 a 9. Sugeri que não fechássemos questão por isso e voltasse a conversar 48 horas depois, corrigindo as ideias do grupo que perdeu. E aí voltamos a conversar, fizemos correções e saiu 19 a 0.

Para Entender

Entenda como ficam os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro após a MP 984

Com a tabela já confirmada, competição terá alguns jogos nas primeiras rodadas que não vão passar em nenhum canal

O contrato do Brasileirão vai até 2024. Não haverá mudanças significativas até lá, mesmo que a MP se torne lei. O que esse tempo pode ajudar? E como o senhor imagina o novo modelo de transmissões?

Será um novo contexto jurídico e com uma revolução de tecnologia, com estrutura, com internet e plataformas melhores, streaming melhores. Também haverá a redução da força econômica dos players tradicionais. As tevês abertas passam por uma crise e isso vai impactar. Vamos ter uma realidade absolutamente diferente. As pessoas falam equivocadamente em substituição de players. O que haverá é uma mudança de contexto, com a convivência entre diferentes players. Não será um monopólio substituindo outro. Acredito que a Globo possa não ter dinheiro para comprar tudo, talvez a Amazon e o Facebook não queiram comprar tudo, o pay-per-view não se sustente como está, os clubes tenham suas próprias plataformas, que poderão transmitir uma parte de jogos. Ainda vai demorar um tempo para entendermos quais serão os melhores caminhos. Temos de tatear, sentir as circunstâncias.

Qual será o papel ocupado pelo streaming?

Ele não é uma nova plataforma, é um novo meio. Vai brigar com algumas plataformas, mas vai coexistir. Na situação atual, não substitui a TV aberta, que chega em todos os lares. Hoje, tenderia a competir com o pay-per-view. Mas já compete com a TV fechada, como acontece com o DAZN. Um Flamengo x Corinthians no streaming pode pegar parte do público da TV aberta, embora vá ser menos democrático, ter menos alcance. Se nós estivéssemos hoje com todos os direitos liberados, provavelmente as novas plataformas de streaming, de clubes, competiriam com o pay-per-view. Mas em 2025 isso pode ser muito diferente.

O Bahia lançou um aplicativo próprio, o Sócio Digital. Quais são os planos do clube com a iniciativa?

Brinquei que é uma mistura de Netflix, com BBB, Esporte Espetacular e rede social. Estamos criando novos conteúdos, porque o de jogo está vendido. A partir dessa limitação, usamos todo o conteúdo entre os jogos. Estamos na contramão dos outros clubes, que estão apostando em TVs no YouTube, que entendemos não dar perspectivas de monetização. Criamos um aplicativo que oferece tudo do YouTube e muito mais, com pesquisa no celular, tabela de jogos, classificação dos campeonatos, loja virtual, além de tudo que pode ser transmitido. E com usabilidade mais fácil e amigável. Tínhamos 275 mil inscritos em outro aplicativo e queremos converter isso para 50, 60 ml assinaturas em até 12 meses. Temos uma linguagem única, parecida com redes sociais, com filmagens pelo celular, transmissões ao vivo, com informalidade. Conseguimos assim produzir muito mais por um preço baixo. Não me preocupo com transmissão de jogos ou números de seguidores no YouTube.

Em 2021, o Bahia pretende transmitir os jogos do Estadual na plataforma. A receita obtida com o Sócio Digital pode substituir o acordo de TV?

Acredito que já pode acontecer em um ou dois anos em relação ao pay-per-view. O que o Bahia recebe é baixo, eu recebi R$ 9 milhões no ano passado e tudo indica que nesse ano eu vou receber menos. Se eu tiver 70, 80 mil assinantes, sendo que fechamos a primeira semana com 7 mil, a receita será a mesma do pay-per-view. Hoje tenho 7 mil só com treinos e bastidores. O máximo que transmito é o rachão.

Mas o investimento nas transmissões não pode diminuir o lucro com o aplicativo?

O custo é infinitamente menor do que o da transmissão pela TV. Fiz o orçamento para o Campeonato Baiano com gasto de R$ 500 mil, contratando produção e narrador para todos os jogos. Um jogo para a TV custa pelo menos R$ 300 mil.

O calendário pode passar por mudanças profundas em 2021 e que incluiriam o fim dos Estaduais?

Filosoficamente, eu gostaria. Mas não acho que exista um movimento firme de clubes e da CBF para acabar com os estaduais. Eles vão se acabar, infelizmente. Se fossemos estratégicos, acabaríamos com o produto antes. Na prática, eu ainda creio que haverá uma convivência mortal dos estaduais com o Nacional. A minha posição é que os estaduais fossem jogados com times de transição pelos clubes de Série A e B, o que ajudaria a revelar jogadores que ou abandonam a carreira ou são vendidos rapidamente. Paralelo a isso, um Brasileirão com 9 ou 10 meses de duração, conciliando datas com torneios internacionais. Mas não acredito que isso vá acontecer.

As tevês terão participação direta no fim dos estaduais?

A televisão vai ajudar. Na Bahia, não vou jogar e nem o Vitória com o time principal em 2021. Neste ano, joguei no mesmo dia da Copa do Nordeste, fizemos uma rodada dupla na Fonte Nova. É uma escolha ideológica. Alguns estados podem fazer isso, fizemos em decisão conjunta. Outros estados vão ser forçados pela crise dos contratos de TV.

O Bahia tem ficado marcado por posicionamento em questões sociais. Tem puxado esse “movimento” no futebol?

Isso já tem acontecido. Mas estou menos preocupado com posicionamentos, onde avançamos bastante. Agora preciso ir além, na postura e nas crenças, implementando avanços no clube e no futebol. Precisamos dizer menos e fazer mais. O Bahia agora está pensando nessa transformação.

Como a sua gestão tem pensado e agido para isso?

Temos começado a fazer. Tem o processo democrático, de transparência, de abertura do clube para a torcida. De permitir e estimular produtos mais populares, brigar pelo preço da cerveja, ter um local para denúncia de mulheres contra o assédio dentro do estádio, fazer o botão do aplicativo para essa denúncia. Ter uma pessoa transexual como vendedora da loja sem ninguém saber disso. A gente quer que isso vire normalidade. Tem muito mais para fazer. Temos poucos negros na gestão do futebol. O Conselho é muito machista numericamente, com pouca presença feminina. Na próxima eleição, teremos a obrigação de presença de 20% de mulheres em cada chapa.

Esse posicionamento melhora a imagem do Bahia diante de torcedores de outros clubes?

A gente percebe isso, mas também tem uma reação negativa porque o País está mais intolerante, homofóbico. A gente luta porque acredita, não para agradar. Mas a gente vê gente vestindo a camisa do Bahia mesmo não sendo o seu time principal. Isso é ótimo e se dá por um conjunto de circunstâncias. É por outras questões também não só pelo posicionamento. Hoje temos uma gestão mais equilibrada, honramos compromisso, somos abertos, exercitamos a dignidade, a ética e o respeito. Se fosse só o discurso, mesmo corajoso, mas estivéssemos endividando o clube, seria algo superficial e não teria a mesma repercussão.

O Bahia conseguiu se consolidar na Série A. A crise atrapalha o clube a dar saltos maiores?

Atrapalha, ainda que sem uma análise comparativa. O Bahia hoje está muito mais fragilizado do que antes do coronavírus. Antes, tínhamos um plano de faturar R$ 200 milhões neste ano. Agora estamos lutando para chegar em R$ 130 milhões. Vai gerar um déficit depois de seis anos. É prejudicial ao projeto. Mas não consigo responder se ao final do coronavírus vamos subir ou descer no ranking de competitividade. A tendência é que a gente suba, saia mais forte do que a média dos clubes, porque vínhamos mais estruturados do que a média. Mas eu não posso cravar isso porque não sei a realidade dos outros clubes. Trabalho loucamente para manter os salários em dia, algo que não acontecia antes. Tenho despesas contratadas que não consigo pagar. A gente vai se fragilizar. Mas se o adversário saiu pior, você se dá bem. A gente não torce por uma pandemia, mas você pode até sair fortalecido.

Como recuperar o que se perdeu com a crise do coronavírus?

O próprio futebol está dando oportunidades, como a Lei das S/A, que está tramitando no Congresso Nacional, os temas relativos à modernização dos clubes, com Profut e fair-play financeiro. Essa é uma chance que o futebol tem de se reinventar em um momento de crise profunda. Se você enfrentar a crise como você encarava a normalidade, você vai perder. O Bahia está muito mais criativo do que seis meses atrás. O Sócio Digital só seria lançado no fim do ano.

O senhor é a favor do clube-empresa?

Acredito e defendo a aprovação de uma legislação. O Bahia não necessariamente vai se tornar uma empresa e tenho críticas às visões de que essa é a única saída para o futebol. O mundo corporativo mostra que há boas empresas e más. A gente vê o Grêmio como uma associação muito bem gerida e compara com empresas trágicas. É preciso ter um DNA associativo, governança. A empresa não é a única solução.

O seu mandato termina no fim do ano. Se imagina em reeleição? Até onde o Bahia pode chegar?

Ainda não decidimos se o caminho é uma reeleição, vamos discutir mais para frente. Mas o que precisamos fazer é ir para o terceiro ciclo. Tivemos o primeiro, da dignidade, tornando o Bahia um time respeitável, mesmo com o orçamento limitado. No segundo, mesmo com a pandemia, estamos aumentando o poder econômico do clube, com protagonismo nacional relevante. O terceiro é tornar o clube mais competitivo para dar voos mais rápidos, com uma base mais forte, ser inovador, apostar em dados para os negócios e dentro de campo, com metodologia, para que sejamos mais competitivos. Já inauguramos um CT moderno. É um ciclo até 2027, 2028, para voltar a disputar com os times grandes.

O Brasileiro vai repetir o modelo de torneios nacionais europeus, com hegemonia de um ou dois clubes?

Ainda é cedo para tirar essas conclusões. Há um ano, o Flamengo investia, mas não tinha um modelo vencedor, tanto que o Palmeiras foi campeão em 2019. Não se falava dessa hegemonia antes do Jorge Jesus. Já tivemos outros momentos parecidos, com o São Paulo muito absoluto, com o Fluminense com o patrocínio da Unimed, o Palmeiras com o apoio da Parmalat... Precisamos ver qual é sustentabilidade dos projetos hegemônicos. Há clubes que vão ser sempre competitivos, como o Grêmio. Se o Corinthians encontrar caminhos, se reestruturar, pode ser mais competitivo, tem tamanho para isso, para rivalizar com o Flamengo. O São Paulo também tem. Há caminhos. O Athletico tem demonstrado isso, chegando perto do topo, tendo ganho Copa do Brasil e Sul-Americana, mesmo tendo uma torcida muito menor do que a média dos clubes do futebol brasileiro. Acho que o Brasil ainda não está se tornando uma Alemanha.

Mas está se tornando uma Espanha?

Não sei, pode ser mais provável do que a Alemanha. Mas o modelo dos clubes espanhóis é muito mais estável do que o nosso. O Flamengo ou o Palmeiras, ou qualquer outro, não tem de provar que são grandes. Precisam provar que são grandes e estáveis. A grandeza sozinha não faz a hegemonia.

O objetivo do Bahia é se consolidar como o maior time do Nordeste?

Isso é uma coisa para a torcida. Quanto mais o Nordeste estiver forte, melhor para nós. Queremos ser mais competitivos nacionalmente. É melhor se o Bahia for o 6º, o Fortaleza ficar em 8º e o Ceará em 9º do que ter o Bahia sozinho e em 5º Eu prefiro assim do que ficar arrotando ser o maior, mas com o futebol do Nordeste fraco.

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Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

É uma contribuição do Flamengo ao futebol', diz vice rubro-negro sobre MP que muda direitos de TV

Em entrevista ao 'Estadão', presidente Guilherme Bellintani detalha objetivos do clube neste ano

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

A crise do coronavírus e o novo modelo de transmissão advindo de Medida Provisória (MP) 984 impulsionaram os clubes a investir em seus canais no YouTube, seja com transmissão de partidas oficiais, jogos-treino ou lançamento de camisas, em ações para aumentar a audiência e o alcance na plataforma. Mas há uma exceção: o Bahia optou por deixar em segundo plano essa possibilidade apostando no próprio aplicativo.

De acordo com o seu presidente, Guilherme Bellintani, não é possível obter monetização relevante pelo YouTube. Por isso, o clube lançou o Sócio Digital, acreditando que em até dois anos obterá com o aplicativo a mesma receita que consegue pelo acordo de pay-per-view, ainda mais que a partir de 2021 poderá transmitir jogos do Campeonato Baiano pela plataforma.

A postura está na contramão de diversos clubes, mas o Bahia é um dos líderes da união da maioria deles, defendendo o conteúdo da MP 984, por acreditar que ela fará aumentar a arrecadação das equipes, embora destaque que só haverá divisão mais igualitária dos recursos se os times caminharem juntos. Nesta entrevista ao Estadão, o presidente do Bahia defende o fim dos Estaduais, embora não veja movimento para isso, e não crê que o futebol esteja vivendo o início de uma hegemonia dentro dos campos. Além disso, assegura que o clube vai intensificar a implementação de iniciativas de inclusão tão defendidas em campanhas da sua gestão. 

A mudança nos direitos de transmissão veio através de MP. Isso foi surpresa para a maioria dos clubes? Pode trazer insegurança aos investidores?

A forma como aconteceu não foi a planejada, nem do modo que devem acontecer as mudanças no futebol, que devem vir de desdobramentos de discussões e construções coletivas. Mas o mérito da MP atende a maioria dos clubes brasileiros. A MP se perpetua se virar lei, sendo aprovada no Congresso Nacional. Não importa se a origem é por um projeto de lei ou medida provisória. A origem fica apagada

Há muita desigualdade na distribuição das receitas de TV. Como a MP e o seu conteúdo podem ajudar a combater isso?

Não tenho essa ilusão, mas é um caminho para a redução. Eu acredito muito nisso. E que também é um caminho para aumentar o tamanho do bolo. Primeiro, o bolo precisa ser feito. E as fatias não podem ser tão diferentes. O direito do mandante torna o bolo maior por colocar na mesa jogos que estavam fora. Mais da metade das partidas do Brasileirão não são transmitidas em TV fechada porque há uma lei, a única no mundo, que divide o direito de transmissão. A MP resolve isso, com exceção se algum clube não vender para ninguém ou nem fizer a sua transmissão, o que é muito improvável. Com mais jogos, há mais remuneração. O equilíbrio na divisão das receitas dependerá da união dos clubes. Quanto maior for esse bloco, maior será a união. Se isso não acontecer, a disparidade poderá até ser maior.

Recentemente, 16 clubes da Série A se manifestaram a favor do conteúdo da MP. Como se deu essa união e qual é a sua importância?

Essa união vem amadurecendo há algum tempo, embora as pessoas não acreditem, É assim,com a Liga do Nordeste, um campeonato estruturado pela liga. Outro bloco que demonstra isso é o dos 8 clubes que assinaram com a Turner. Tudo é feito coletivamente, como o processo decisório. E a Comissão Nacional de Clubes (CNC), de um ano para cá, tem demonstrado isso. Ter uma manifestação de 16 clubes da Série A, com os 19 da B e os times da Liga do Nordeste é uma demonstração de união.

Há problemas nessa união que redundou no acordo com a Turner?

A crise ou une ou separa. E está unindo. É uma experiência nova, tem muitas discussões, muitas divergências, o que é natural. E buscamos a convergência. Vou te dar um exemplo. Na CNC, tivemos uma reunião emblemática, quando tomamos a decisão sobre a venda dos direitos internacionais. A nossa votação para um determinado modelo comercial teve placar de 10 a 9. Sugeri que não fechássemos questão por isso e voltasse a conversar 48 horas depois, corrigindo as ideias do grupo que perdeu. E aí voltamos a conversar, fizemos correções e saiu 19 a 0.

Para Entender

Entenda como ficam os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro após a MP 984

Com a tabela já confirmada, competição terá alguns jogos nas primeiras rodadas que não vão passar em nenhum canal

O contrato do Brasileirão vai até 2024. Não haverá mudanças significativas até lá, mesmo que a MP se torne lei. O que esse tempo pode ajudar? E como o senhor imagina o novo modelo de transmissões?

Será um novo contexto jurídico e com uma revolução de tecnologia, com estrutura, com internet e plataformas melhores, streaming melhores. Também haverá a redução da força econômica dos players tradicionais. As tevês abertas passam por uma crise e isso vai impactar. Vamos ter uma realidade absolutamente diferente. As pessoas falam equivocadamente em substituição de players. O que haverá é uma mudança de contexto, com a convivência entre diferentes players. Não será um monopólio substituindo outro. Acredito que a Globo possa não ter dinheiro para comprar tudo, talvez a Amazon e o Facebook não queiram comprar tudo, o pay-per-view não se sustente como está, os clubes tenham suas próprias plataformas, que poderão transmitir uma parte de jogos. Ainda vai demorar um tempo para entendermos quais serão os melhores caminhos. Temos de tatear, sentir as circunstâncias.

Qual será o papel ocupado pelo streaming?

Ele não é uma nova plataforma, é um novo meio. Vai brigar com algumas plataformas, mas vai coexistir. Na situação atual, não substitui a TV aberta, que chega em todos os lares. Hoje, tenderia a competir com o pay-per-view. Mas já compete com a TV fechada, como acontece com o DAZN. Um Flamengo x Corinthians no streaming pode pegar parte do público da TV aberta, embora vá ser menos democrático, ter menos alcance. Se nós estivéssemos hoje com todos os direitos liberados, provavelmente as novas plataformas de streaming, de clubes, competiriam com o pay-per-view. Mas em 2025 isso pode ser muito diferente.

O Bahia lançou um aplicativo próprio, o Sócio Digital. Quais são os planos do clube com a iniciativa?

Brinquei que é uma mistura de Netflix, com BBB, Esporte Espetacular e rede social. Estamos criando novos conteúdos, porque o de jogo está vendido. A partir dessa limitação, usamos todo o conteúdo entre os jogos. Estamos na contramão dos outros clubes, que estão apostando em TVs no YouTube, que entendemos não dar perspectivas de monetização. Criamos um aplicativo que oferece tudo do YouTube e muito mais, com pesquisa no celular, tabela de jogos, classificação dos campeonatos, loja virtual, além de tudo que pode ser transmitido. E com usabilidade mais fácil e amigável. Tínhamos 275 mil inscritos em outro aplicativo e queremos converter isso para 50, 60 ml assinaturas em até 12 meses. Temos uma linguagem única, parecida com redes sociais, com filmagens pelo celular, transmissões ao vivo, com informalidade. Conseguimos assim produzir muito mais por um preço baixo. Não me preocupo com transmissão de jogos ou números de seguidores no YouTube.

Em 2021, o Bahia pretende transmitir os jogos do Estadual na plataforma. A receita obtida com o Sócio Digital pode substituir o acordo de TV?

Acredito que já pode acontecer em um ou dois anos em relação ao pay-per-view. O que o Bahia recebe é baixo, eu recebi R$ 9 milhões no ano passado e tudo indica que nesse ano eu vou receber menos. Se eu tiver 70, 80 mil assinantes, sendo que fechamos a primeira semana com 7 mil, a receita será a mesma do pay-per-view. Hoje tenho 7 mil só com treinos e bastidores. O máximo que transmito é o rachão.

Mas o investimento nas transmissões não pode diminuir o lucro com o aplicativo?

O custo é infinitamente menor do que o da transmissão pela TV. Fiz o orçamento para o Campeonato Baiano com gasto de R$ 500 mil, contratando produção e narrador para todos os jogos. Um jogo para a TV custa pelo menos R$ 300 mil.

O calendário pode passar por mudanças profundas em 2021 e que incluiriam o fim dos Estaduais?

Filosoficamente, eu gostaria. Mas não acho que exista um movimento firme de clubes e da CBF para acabar com os estaduais. Eles vão se acabar, infelizmente. Se fossemos estratégicos, acabaríamos com o produto antes. Na prática, eu ainda creio que haverá uma convivência mortal dos estaduais com o Nacional. A minha posição é que os estaduais fossem jogados com times de transição pelos clubes de Série A e B, o que ajudaria a revelar jogadores que ou abandonam a carreira ou são vendidos rapidamente. Paralelo a isso, um Brasileirão com 9 ou 10 meses de duração, conciliando datas com torneios internacionais. Mas não acredito que isso vá acontecer.

As tevês terão participação direta no fim dos estaduais?

A televisão vai ajudar. Na Bahia, não vou jogar e nem o Vitória com o time principal em 2021. Neste ano, joguei no mesmo dia da Copa do Nordeste, fizemos uma rodada dupla na Fonte Nova. É uma escolha ideológica. Alguns estados podem fazer isso, fizemos em decisão conjunta. Outros estados vão ser forçados pela crise dos contratos de TV.

O Bahia tem ficado marcado por posicionamento em questões sociais. Tem puxado esse “movimento” no futebol?

Isso já tem acontecido. Mas estou menos preocupado com posicionamentos, onde avançamos bastante. Agora preciso ir além, na postura e nas crenças, implementando avanços no clube e no futebol. Precisamos dizer menos e fazer mais. O Bahia agora está pensando nessa transformação.

Como a sua gestão tem pensado e agido para isso?

Temos começado a fazer. Tem o processo democrático, de transparência, de abertura do clube para a torcida. De permitir e estimular produtos mais populares, brigar pelo preço da cerveja, ter um local para denúncia de mulheres contra o assédio dentro do estádio, fazer o botão do aplicativo para essa denúncia. Ter uma pessoa transexual como vendedora da loja sem ninguém saber disso. A gente quer que isso vire normalidade. Tem muito mais para fazer. Temos poucos negros na gestão do futebol. O Conselho é muito machista numericamente, com pouca presença feminina. Na próxima eleição, teremos a obrigação de presença de 20% de mulheres em cada chapa.

Esse posicionamento melhora a imagem do Bahia diante de torcedores de outros clubes?

A gente percebe isso, mas também tem uma reação negativa porque o País está mais intolerante, homofóbico. A gente luta porque acredita, não para agradar. Mas a gente vê gente vestindo a camisa do Bahia mesmo não sendo o seu time principal. Isso é ótimo e se dá por um conjunto de circunstâncias. É por outras questões também não só pelo posicionamento. Hoje temos uma gestão mais equilibrada, honramos compromisso, somos abertos, exercitamos a dignidade, a ética e o respeito. Se fosse só o discurso, mesmo corajoso, mas estivéssemos endividando o clube, seria algo superficial e não teria a mesma repercussão.

O Bahia conseguiu se consolidar na Série A. A crise atrapalha o clube a dar saltos maiores?

Atrapalha, ainda que sem uma análise comparativa. O Bahia hoje está muito mais fragilizado do que antes do coronavírus. Antes, tínhamos um plano de faturar R$ 200 milhões neste ano. Agora estamos lutando para chegar em R$ 130 milhões. Vai gerar um déficit depois de seis anos. É prejudicial ao projeto. Mas não consigo responder se ao final do coronavírus vamos subir ou descer no ranking de competitividade. A tendência é que a gente suba, saia mais forte do que a média dos clubes, porque vínhamos mais estruturados do que a média. Mas eu não posso cravar isso porque não sei a realidade dos outros clubes. Trabalho loucamente para manter os salários em dia, algo que não acontecia antes. Tenho despesas contratadas que não consigo pagar. A gente vai se fragilizar. Mas se o adversário saiu pior, você se dá bem. A gente não torce por uma pandemia, mas você pode até sair fortalecido.

Como recuperar o que se perdeu com a crise do coronavírus?

O próprio futebol está dando oportunidades, como a Lei das S/A, que está tramitando no Congresso Nacional, os temas relativos à modernização dos clubes, com Profut e fair-play financeiro. Essa é uma chance que o futebol tem de se reinventar em um momento de crise profunda. Se você enfrentar a crise como você encarava a normalidade, você vai perder. O Bahia está muito mais criativo do que seis meses atrás. O Sócio Digital só seria lançado no fim do ano.

O senhor é a favor do clube-empresa?

Acredito e defendo a aprovação de uma legislação. O Bahia não necessariamente vai se tornar uma empresa e tenho críticas às visões de que essa é a única saída para o futebol. O mundo corporativo mostra que há boas empresas e más. A gente vê o Grêmio como uma associação muito bem gerida e compara com empresas trágicas. É preciso ter um DNA associativo, governança. A empresa não é a única solução.

O seu mandato termina no fim do ano. Se imagina em reeleição? Até onde o Bahia pode chegar?

Ainda não decidimos se o caminho é uma reeleição, vamos discutir mais para frente. Mas o que precisamos fazer é ir para o terceiro ciclo. Tivemos o primeiro, da dignidade, tornando o Bahia um time respeitável, mesmo com o orçamento limitado. No segundo, mesmo com a pandemia, estamos aumentando o poder econômico do clube, com protagonismo nacional relevante. O terceiro é tornar o clube mais competitivo para dar voos mais rápidos, com uma base mais forte, ser inovador, apostar em dados para os negócios e dentro de campo, com metodologia, para que sejamos mais competitivos. Já inauguramos um CT moderno. É um ciclo até 2027, 2028, para voltar a disputar com os times grandes.

O Brasileiro vai repetir o modelo de torneios nacionais europeus, com hegemonia de um ou dois clubes?

Ainda é cedo para tirar essas conclusões. Há um ano, o Flamengo investia, mas não tinha um modelo vencedor, tanto que o Palmeiras foi campeão em 2019. Não se falava dessa hegemonia antes do Jorge Jesus. Já tivemos outros momentos parecidos, com o São Paulo muito absoluto, com o Fluminense com o patrocínio da Unimed, o Palmeiras com o apoio da Parmalat... Precisamos ver qual é sustentabilidade dos projetos hegemônicos. Há clubes que vão ser sempre competitivos, como o Grêmio. Se o Corinthians encontrar caminhos, se reestruturar, pode ser mais competitivo, tem tamanho para isso, para rivalizar com o Flamengo. O São Paulo também tem. Há caminhos. O Athletico tem demonstrado isso, chegando perto do topo, tendo ganho Copa do Brasil e Sul-Americana, mesmo tendo uma torcida muito menor do que a média dos clubes do futebol brasileiro. Acho que o Brasil ainda não está se tornando uma Alemanha.

Mas está se tornando uma Espanha?

Não sei, pode ser mais provável do que a Alemanha. Mas o modelo dos clubes espanhóis é muito mais estável do que o nosso. O Flamengo ou o Palmeiras, ou qualquer outro, não tem de provar que são grandes. Precisam provar que são grandes e estáveis. A grandeza sozinha não faz a hegemonia.

O objetivo do Bahia é se consolidar como o maior time do Nordeste?

Isso é uma coisa para a torcida. Quanto mais o Nordeste estiver forte, melhor para nós. Queremos ser mais competitivos nacionalmente. É melhor se o Bahia for o 6º, o Fortaleza ficar em 8º e o Ceará em 9º do que ter o Bahia sozinho e em 5º Eu prefiro assim do que ficar arrotando ser o maior, mas com o futebol do Nordeste fraco.

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Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

Rui Costa conta como as lições da tragédia da Chapecoense podem servir para os clubes na pandemia

Em entrevista ao 'Estadão', presidente Guilherme Bellintani detalha objetivos do clube neste ano

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

A crise do coronavírus e o novo modelo de transmissão advindo de Medida Provisória (MP) 984 impulsionaram os clubes a investir em seus canais no YouTube, seja com transmissão de partidas oficiais, jogos-treino ou lançamento de camisas, em ações para aumentar a audiência e o alcance na plataforma. Mas há uma exceção: o Bahia optou por deixar em segundo plano essa possibilidade apostando no próprio aplicativo.

De acordo com o seu presidente, Guilherme Bellintani, não é possível obter monetização relevante pelo YouTube. Por isso, o clube lançou o Sócio Digital, acreditando que em até dois anos obterá com o aplicativo a mesma receita que consegue pelo acordo de pay-per-view, ainda mais que a partir de 2021 poderá transmitir jogos do Campeonato Baiano pela plataforma.

A postura está na contramão de diversos clubes, mas o Bahia é um dos líderes da união da maioria deles, defendendo o conteúdo da MP 984, por acreditar que ela fará aumentar a arrecadação das equipes, embora destaque que só haverá divisão mais igualitária dos recursos se os times caminharem juntos. Nesta entrevista ao Estadão, o presidente do Bahia defende o fim dos Estaduais, embora não veja movimento para isso, e não crê que o futebol esteja vivendo o início de uma hegemonia dentro dos campos. Além disso, assegura que o clube vai intensificar a implementação de iniciativas de inclusão tão defendidas em campanhas da sua gestão. 

A mudança nos direitos de transmissão veio através de MP. Isso foi surpresa para a maioria dos clubes? Pode trazer insegurança aos investidores?

A forma como aconteceu não foi a planejada, nem do modo que devem acontecer as mudanças no futebol, que devem vir de desdobramentos de discussões e construções coletivas. Mas o mérito da MP atende a maioria dos clubes brasileiros. A MP se perpetua se virar lei, sendo aprovada no Congresso Nacional. Não importa se a origem é por um projeto de lei ou medida provisória. A origem fica apagada

Há muita desigualdade na distribuição das receitas de TV. Como a MP e o seu conteúdo podem ajudar a combater isso?

Não tenho essa ilusão, mas é um caminho para a redução. Eu acredito muito nisso. E que também é um caminho para aumentar o tamanho do bolo. Primeiro, o bolo precisa ser feito. E as fatias não podem ser tão diferentes. O direito do mandante torna o bolo maior por colocar na mesa jogos que estavam fora. Mais da metade das partidas do Brasileirão não são transmitidas em TV fechada porque há uma lei, a única no mundo, que divide o direito de transmissão. A MP resolve isso, com exceção se algum clube não vender para ninguém ou nem fizer a sua transmissão, o que é muito improvável. Com mais jogos, há mais remuneração. O equilíbrio na divisão das receitas dependerá da união dos clubes. Quanto maior for esse bloco, maior será a união. Se isso não acontecer, a disparidade poderá até ser maior.

Recentemente, 16 clubes da Série A se manifestaram a favor do conteúdo da MP. Como se deu essa união e qual é a sua importância?

Essa união vem amadurecendo há algum tempo, embora as pessoas não acreditem, É assim,com a Liga do Nordeste, um campeonato estruturado pela liga. Outro bloco que demonstra isso é o dos 8 clubes que assinaram com a Turner. Tudo é feito coletivamente, como o processo decisório. E a Comissão Nacional de Clubes (CNC), de um ano para cá, tem demonstrado isso. Ter uma manifestação de 16 clubes da Série A, com os 19 da B e os times da Liga do Nordeste é uma demonstração de união.

Há problemas nessa união que redundou no acordo com a Turner?

A crise ou une ou separa. E está unindo. É uma experiência nova, tem muitas discussões, muitas divergências, o que é natural. E buscamos a convergência. Vou te dar um exemplo. Na CNC, tivemos uma reunião emblemática, quando tomamos a decisão sobre a venda dos direitos internacionais. A nossa votação para um determinado modelo comercial teve placar de 10 a 9. Sugeri que não fechássemos questão por isso e voltasse a conversar 48 horas depois, corrigindo as ideias do grupo que perdeu. E aí voltamos a conversar, fizemos correções e saiu 19 a 0.

Para Entender

Entenda como ficam os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro após a MP 984

Com a tabela já confirmada, competição terá alguns jogos nas primeiras rodadas que não vão passar em nenhum canal

O contrato do Brasileirão vai até 2024. Não haverá mudanças significativas até lá, mesmo que a MP se torne lei. O que esse tempo pode ajudar? E como o senhor imagina o novo modelo de transmissões?

Será um novo contexto jurídico e com uma revolução de tecnologia, com estrutura, com internet e plataformas melhores, streaming melhores. Também haverá a redução da força econômica dos players tradicionais. As tevês abertas passam por uma crise e isso vai impactar. Vamos ter uma realidade absolutamente diferente. As pessoas falam equivocadamente em substituição de players. O que haverá é uma mudança de contexto, com a convivência entre diferentes players. Não será um monopólio substituindo outro. Acredito que a Globo possa não ter dinheiro para comprar tudo, talvez a Amazon e o Facebook não queiram comprar tudo, o pay-per-view não se sustente como está, os clubes tenham suas próprias plataformas, que poderão transmitir uma parte de jogos. Ainda vai demorar um tempo para entendermos quais serão os melhores caminhos. Temos de tatear, sentir as circunstâncias.

Qual será o papel ocupado pelo streaming?

Ele não é uma nova plataforma, é um novo meio. Vai brigar com algumas plataformas, mas vai coexistir. Na situação atual, não substitui a TV aberta, que chega em todos os lares. Hoje, tenderia a competir com o pay-per-view. Mas já compete com a TV fechada, como acontece com o DAZN. Um Flamengo x Corinthians no streaming pode pegar parte do público da TV aberta, embora vá ser menos democrático, ter menos alcance. Se nós estivéssemos hoje com todos os direitos liberados, provavelmente as novas plataformas de streaming, de clubes, competiriam com o pay-per-view. Mas em 2025 isso pode ser muito diferente.

O Bahia lançou um aplicativo próprio, o Sócio Digital. Quais são os planos do clube com a iniciativa?

Brinquei que é uma mistura de Netflix, com BBB, Esporte Espetacular e rede social. Estamos criando novos conteúdos, porque o de jogo está vendido. A partir dessa limitação, usamos todo o conteúdo entre os jogos. Estamos na contramão dos outros clubes, que estão apostando em TVs no YouTube, que entendemos não dar perspectivas de monetização. Criamos um aplicativo que oferece tudo do YouTube e muito mais, com pesquisa no celular, tabela de jogos, classificação dos campeonatos, loja virtual, além de tudo que pode ser transmitido. E com usabilidade mais fácil e amigável. Tínhamos 275 mil inscritos em outro aplicativo e queremos converter isso para 50, 60 ml assinaturas em até 12 meses. Temos uma linguagem única, parecida com redes sociais, com filmagens pelo celular, transmissões ao vivo, com informalidade. Conseguimos assim produzir muito mais por um preço baixo. Não me preocupo com transmissão de jogos ou números de seguidores no YouTube.

Em 2021, o Bahia pretende transmitir os jogos do Estadual na plataforma. A receita obtida com o Sócio Digital pode substituir o acordo de TV?

Acredito que já pode acontecer em um ou dois anos em relação ao pay-per-view. O que o Bahia recebe é baixo, eu recebi R$ 9 milhões no ano passado e tudo indica que nesse ano eu vou receber menos. Se eu tiver 70, 80 mil assinantes, sendo que fechamos a primeira semana com 7 mil, a receita será a mesma do pay-per-view. Hoje tenho 7 mil só com treinos e bastidores. O máximo que transmito é o rachão.

Mas o investimento nas transmissões não pode diminuir o lucro com o aplicativo?

O custo é infinitamente menor do que o da transmissão pela TV. Fiz o orçamento para o Campeonato Baiano com gasto de R$ 500 mil, contratando produção e narrador para todos os jogos. Um jogo para a TV custa pelo menos R$ 300 mil.

O calendário pode passar por mudanças profundas em 2021 e que incluiriam o fim dos Estaduais?

Filosoficamente, eu gostaria. Mas não acho que exista um movimento firme de clubes e da CBF para acabar com os estaduais. Eles vão se acabar, infelizmente. Se fossemos estratégicos, acabaríamos com o produto antes. Na prática, eu ainda creio que haverá uma convivência mortal dos estaduais com o Nacional. A minha posição é que os estaduais fossem jogados com times de transição pelos clubes de Série A e B, o que ajudaria a revelar jogadores que ou abandonam a carreira ou são vendidos rapidamente. Paralelo a isso, um Brasileirão com 9 ou 10 meses de duração, conciliando datas com torneios internacionais. Mas não acredito que isso vá acontecer.

As tevês terão participação direta no fim dos estaduais?

A televisão vai ajudar. Na Bahia, não vou jogar e nem o Vitória com o time principal em 2021. Neste ano, joguei no mesmo dia da Copa do Nordeste, fizemos uma rodada dupla na Fonte Nova. É uma escolha ideológica. Alguns estados podem fazer isso, fizemos em decisão conjunta. Outros estados vão ser forçados pela crise dos contratos de TV.

O Bahia tem ficado marcado por posicionamento em questões sociais. Tem puxado esse “movimento” no futebol?

Isso já tem acontecido. Mas estou menos preocupado com posicionamentos, onde avançamos bastante. Agora preciso ir além, na postura e nas crenças, implementando avanços no clube e no futebol. Precisamos dizer menos e fazer mais. O Bahia agora está pensando nessa transformação.

Como a sua gestão tem pensado e agido para isso?

Temos começado a fazer. Tem o processo democrático, de transparência, de abertura do clube para a torcida. De permitir e estimular produtos mais populares, brigar pelo preço da cerveja, ter um local para denúncia de mulheres contra o assédio dentro do estádio, fazer o botão do aplicativo para essa denúncia. Ter uma pessoa transexual como vendedora da loja sem ninguém saber disso. A gente quer que isso vire normalidade. Tem muito mais para fazer. Temos poucos negros na gestão do futebol. O Conselho é muito machista numericamente, com pouca presença feminina. Na próxima eleição, teremos a obrigação de presença de 20% de mulheres em cada chapa.

Esse posicionamento melhora a imagem do Bahia diante de torcedores de outros clubes?

A gente percebe isso, mas também tem uma reação negativa porque o País está mais intolerante, homofóbico. A gente luta porque acredita, não para agradar. Mas a gente vê gente vestindo a camisa do Bahia mesmo não sendo o seu time principal. Isso é ótimo e se dá por um conjunto de circunstâncias. É por outras questões também não só pelo posicionamento. Hoje temos uma gestão mais equilibrada, honramos compromisso, somos abertos, exercitamos a dignidade, a ética e o respeito. Se fosse só o discurso, mesmo corajoso, mas estivéssemos endividando o clube, seria algo superficial e não teria a mesma repercussão.

O Bahia conseguiu se consolidar na Série A. A crise atrapalha o clube a dar saltos maiores?

Atrapalha, ainda que sem uma análise comparativa. O Bahia hoje está muito mais fragilizado do que antes do coronavírus. Antes, tínhamos um plano de faturar R$ 200 milhões neste ano. Agora estamos lutando para chegar em R$ 130 milhões. Vai gerar um déficit depois de seis anos. É prejudicial ao projeto. Mas não consigo responder se ao final do coronavírus vamos subir ou descer no ranking de competitividade. A tendência é que a gente suba, saia mais forte do que a média dos clubes, porque vínhamos mais estruturados do que a média. Mas eu não posso cravar isso porque não sei a realidade dos outros clubes. Trabalho loucamente para manter os salários em dia, algo que não acontecia antes. Tenho despesas contratadas que não consigo pagar. A gente vai se fragilizar. Mas se o adversário saiu pior, você se dá bem. A gente não torce por uma pandemia, mas você pode até sair fortalecido.

Como recuperar o que se perdeu com a crise do coronavírus?

O próprio futebol está dando oportunidades, como a Lei das S/A, que está tramitando no Congresso Nacional, os temas relativos à modernização dos clubes, com Profut e fair-play financeiro. Essa é uma chance que o futebol tem de se reinventar em um momento de crise profunda. Se você enfrentar a crise como você encarava a normalidade, você vai perder. O Bahia está muito mais criativo do que seis meses atrás. O Sócio Digital só seria lançado no fim do ano.

O senhor é a favor do clube-empresa?

Acredito e defendo a aprovação de uma legislação. O Bahia não necessariamente vai se tornar uma empresa e tenho críticas às visões de que essa é a única saída para o futebol. O mundo corporativo mostra que há boas empresas e más. A gente vê o Grêmio como uma associação muito bem gerida e compara com empresas trágicas. É preciso ter um DNA associativo, governança. A empresa não é a única solução.

O seu mandato termina no fim do ano. Se imagina em reeleição? Até onde o Bahia pode chegar?

Ainda não decidimos se o caminho é uma reeleição, vamos discutir mais para frente. Mas o que precisamos fazer é ir para o terceiro ciclo. Tivemos o primeiro, da dignidade, tornando o Bahia um time respeitável, mesmo com o orçamento limitado. No segundo, mesmo com a pandemia, estamos aumentando o poder econômico do clube, com protagonismo nacional relevante. O terceiro é tornar o clube mais competitivo para dar voos mais rápidos, com uma base mais forte, ser inovador, apostar em dados para os negócios e dentro de campo, com metodologia, para que sejamos mais competitivos. Já inauguramos um CT moderno. É um ciclo até 2027, 2028, para voltar a disputar com os times grandes.

O Brasileiro vai repetir o modelo de torneios nacionais europeus, com hegemonia de um ou dois clubes?

Ainda é cedo para tirar essas conclusões. Há um ano, o Flamengo investia, mas não tinha um modelo vencedor, tanto que o Palmeiras foi campeão em 2019. Não se falava dessa hegemonia antes do Jorge Jesus. Já tivemos outros momentos parecidos, com o São Paulo muito absoluto, com o Fluminense com o patrocínio da Unimed, o Palmeiras com o apoio da Parmalat... Precisamos ver qual é sustentabilidade dos projetos hegemônicos. Há clubes que vão ser sempre competitivos, como o Grêmio. Se o Corinthians encontrar caminhos, se reestruturar, pode ser mais competitivo, tem tamanho para isso, para rivalizar com o Flamengo. O São Paulo também tem. Há caminhos. O Athletico tem demonstrado isso, chegando perto do topo, tendo ganho Copa do Brasil e Sul-Americana, mesmo tendo uma torcida muito menor do que a média dos clubes do futebol brasileiro. Acho que o Brasil ainda não está se tornando uma Alemanha.

Mas está se tornando uma Espanha?

Não sei, pode ser mais provável do que a Alemanha. Mas o modelo dos clubes espanhóis é muito mais estável do que o nosso. O Flamengo ou o Palmeiras, ou qualquer outro, não tem de provar que são grandes. Precisam provar que são grandes e estáveis. A grandeza sozinha não faz a hegemonia.

O objetivo do Bahia é se consolidar como o maior time do Nordeste?

Isso é uma coisa para a torcida. Quanto mais o Nordeste estiver forte, melhor para nós. Queremos ser mais competitivos nacionalmente. É melhor se o Bahia for o 6º, o Fortaleza ficar em 8º e o Ceará em 9º do que ter o Bahia sozinho e em 5º Eu prefiro assim do que ficar arrotando ser o maior, mas com o futebol do Nordeste fraco.

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Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

'Flamengo esquece que precisa de todos funcionando bem', diz Amir Somoggi

Em entrevista ao 'Estadão', presidente Guilherme Bellintani detalha objetivos do clube neste ano

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

A crise do coronavírus e o novo modelo de transmissão advindo de Medida Provisória (MP) 984 impulsionaram os clubes a investir em seus canais no YouTube, seja com transmissão de partidas oficiais, jogos-treino ou lançamento de camisas, em ações para aumentar a audiência e o alcance na plataforma. Mas há uma exceção: o Bahia optou por deixar em segundo plano essa possibilidade apostando no próprio aplicativo.

De acordo com o seu presidente, Guilherme Bellintani, não é possível obter monetização relevante pelo YouTube. Por isso, o clube lançou o Sócio Digital, acreditando que em até dois anos obterá com o aplicativo a mesma receita que consegue pelo acordo de pay-per-view, ainda mais que a partir de 2021 poderá transmitir jogos do Campeonato Baiano pela plataforma.

A postura está na contramão de diversos clubes, mas o Bahia é um dos líderes da união da maioria deles, defendendo o conteúdo da MP 984, por acreditar que ela fará aumentar a arrecadação das equipes, embora destaque que só haverá divisão mais igualitária dos recursos se os times caminharem juntos. Nesta entrevista ao Estadão, o presidente do Bahia defende o fim dos Estaduais, embora não veja movimento para isso, e não crê que o futebol esteja vivendo o início de uma hegemonia dentro dos campos. Além disso, assegura que o clube vai intensificar a implementação de iniciativas de inclusão tão defendidas em campanhas da sua gestão. 

A mudança nos direitos de transmissão veio através de MP. Isso foi surpresa para a maioria dos clubes? Pode trazer insegurança aos investidores?

A forma como aconteceu não foi a planejada, nem do modo que devem acontecer as mudanças no futebol, que devem vir de desdobramentos de discussões e construções coletivas. Mas o mérito da MP atende a maioria dos clubes brasileiros. A MP se perpetua se virar lei, sendo aprovada no Congresso Nacional. Não importa se a origem é por um projeto de lei ou medida provisória. A origem fica apagada

Há muita desigualdade na distribuição das receitas de TV. Como a MP e o seu conteúdo podem ajudar a combater isso?

Não tenho essa ilusão, mas é um caminho para a redução. Eu acredito muito nisso. E que também é um caminho para aumentar o tamanho do bolo. Primeiro, o bolo precisa ser feito. E as fatias não podem ser tão diferentes. O direito do mandante torna o bolo maior por colocar na mesa jogos que estavam fora. Mais da metade das partidas do Brasileirão não são transmitidas em TV fechada porque há uma lei, a única no mundo, que divide o direito de transmissão. A MP resolve isso, com exceção se algum clube não vender para ninguém ou nem fizer a sua transmissão, o que é muito improvável. Com mais jogos, há mais remuneração. O equilíbrio na divisão das receitas dependerá da união dos clubes. Quanto maior for esse bloco, maior será a união. Se isso não acontecer, a disparidade poderá até ser maior.

Recentemente, 16 clubes da Série A se manifestaram a favor do conteúdo da MP. Como se deu essa união e qual é a sua importância?

Essa união vem amadurecendo há algum tempo, embora as pessoas não acreditem, É assim,com a Liga do Nordeste, um campeonato estruturado pela liga. Outro bloco que demonstra isso é o dos 8 clubes que assinaram com a Turner. Tudo é feito coletivamente, como o processo decisório. E a Comissão Nacional de Clubes (CNC), de um ano para cá, tem demonstrado isso. Ter uma manifestação de 16 clubes da Série A, com os 19 da B e os times da Liga do Nordeste é uma demonstração de união.

Há problemas nessa união que redundou no acordo com a Turner?

A crise ou une ou separa. E está unindo. É uma experiência nova, tem muitas discussões, muitas divergências, o que é natural. E buscamos a convergência. Vou te dar um exemplo. Na CNC, tivemos uma reunião emblemática, quando tomamos a decisão sobre a venda dos direitos internacionais. A nossa votação para um determinado modelo comercial teve placar de 10 a 9. Sugeri que não fechássemos questão por isso e voltasse a conversar 48 horas depois, corrigindo as ideias do grupo que perdeu. E aí voltamos a conversar, fizemos correções e saiu 19 a 0.

Para Entender

Entenda como ficam os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro após a MP 984

Com a tabela já confirmada, competição terá alguns jogos nas primeiras rodadas que não vão passar em nenhum canal

O contrato do Brasileirão vai até 2024. Não haverá mudanças significativas até lá, mesmo que a MP se torne lei. O que esse tempo pode ajudar? E como o senhor imagina o novo modelo de transmissões?

Será um novo contexto jurídico e com uma revolução de tecnologia, com estrutura, com internet e plataformas melhores, streaming melhores. Também haverá a redução da força econômica dos players tradicionais. As tevês abertas passam por uma crise e isso vai impactar. Vamos ter uma realidade absolutamente diferente. As pessoas falam equivocadamente em substituição de players. O que haverá é uma mudança de contexto, com a convivência entre diferentes players. Não será um monopólio substituindo outro. Acredito que a Globo possa não ter dinheiro para comprar tudo, talvez a Amazon e o Facebook não queiram comprar tudo, o pay-per-view não se sustente como está, os clubes tenham suas próprias plataformas, que poderão transmitir uma parte de jogos. Ainda vai demorar um tempo para entendermos quais serão os melhores caminhos. Temos de tatear, sentir as circunstâncias.

Qual será o papel ocupado pelo streaming?

Ele não é uma nova plataforma, é um novo meio. Vai brigar com algumas plataformas, mas vai coexistir. Na situação atual, não substitui a TV aberta, que chega em todos os lares. Hoje, tenderia a competir com o pay-per-view. Mas já compete com a TV fechada, como acontece com o DAZN. Um Flamengo x Corinthians no streaming pode pegar parte do público da TV aberta, embora vá ser menos democrático, ter menos alcance. Se nós estivéssemos hoje com todos os direitos liberados, provavelmente as novas plataformas de streaming, de clubes, competiriam com o pay-per-view. Mas em 2025 isso pode ser muito diferente.

O Bahia lançou um aplicativo próprio, o Sócio Digital. Quais são os planos do clube com a iniciativa?

Brinquei que é uma mistura de Netflix, com BBB, Esporte Espetacular e rede social. Estamos criando novos conteúdos, porque o de jogo está vendido. A partir dessa limitação, usamos todo o conteúdo entre os jogos. Estamos na contramão dos outros clubes, que estão apostando em TVs no YouTube, que entendemos não dar perspectivas de monetização. Criamos um aplicativo que oferece tudo do YouTube e muito mais, com pesquisa no celular, tabela de jogos, classificação dos campeonatos, loja virtual, além de tudo que pode ser transmitido. E com usabilidade mais fácil e amigável. Tínhamos 275 mil inscritos em outro aplicativo e queremos converter isso para 50, 60 ml assinaturas em até 12 meses. Temos uma linguagem única, parecida com redes sociais, com filmagens pelo celular, transmissões ao vivo, com informalidade. Conseguimos assim produzir muito mais por um preço baixo. Não me preocupo com transmissão de jogos ou números de seguidores no YouTube.

Em 2021, o Bahia pretende transmitir os jogos do Estadual na plataforma. A receita obtida com o Sócio Digital pode substituir o acordo de TV?

Acredito que já pode acontecer em um ou dois anos em relação ao pay-per-view. O que o Bahia recebe é baixo, eu recebi R$ 9 milhões no ano passado e tudo indica que nesse ano eu vou receber menos. Se eu tiver 70, 80 mil assinantes, sendo que fechamos a primeira semana com 7 mil, a receita será a mesma do pay-per-view. Hoje tenho 7 mil só com treinos e bastidores. O máximo que transmito é o rachão.

Mas o investimento nas transmissões não pode diminuir o lucro com o aplicativo?

O custo é infinitamente menor do que o da transmissão pela TV. Fiz o orçamento para o Campeonato Baiano com gasto de R$ 500 mil, contratando produção e narrador para todos os jogos. Um jogo para a TV custa pelo menos R$ 300 mil.

O calendário pode passar por mudanças profundas em 2021 e que incluiriam o fim dos Estaduais?

Filosoficamente, eu gostaria. Mas não acho que exista um movimento firme de clubes e da CBF para acabar com os estaduais. Eles vão se acabar, infelizmente. Se fossemos estratégicos, acabaríamos com o produto antes. Na prática, eu ainda creio que haverá uma convivência mortal dos estaduais com o Nacional. A minha posição é que os estaduais fossem jogados com times de transição pelos clubes de Série A e B, o que ajudaria a revelar jogadores que ou abandonam a carreira ou são vendidos rapidamente. Paralelo a isso, um Brasileirão com 9 ou 10 meses de duração, conciliando datas com torneios internacionais. Mas não acredito que isso vá acontecer.

As tevês terão participação direta no fim dos estaduais?

A televisão vai ajudar. Na Bahia, não vou jogar e nem o Vitória com o time principal em 2021. Neste ano, joguei no mesmo dia da Copa do Nordeste, fizemos uma rodada dupla na Fonte Nova. É uma escolha ideológica. Alguns estados podem fazer isso, fizemos em decisão conjunta. Outros estados vão ser forçados pela crise dos contratos de TV.

O Bahia tem ficado marcado por posicionamento em questões sociais. Tem puxado esse “movimento” no futebol?

Isso já tem acontecido. Mas estou menos preocupado com posicionamentos, onde avançamos bastante. Agora preciso ir além, na postura e nas crenças, implementando avanços no clube e no futebol. Precisamos dizer menos e fazer mais. O Bahia agora está pensando nessa transformação.

Como a sua gestão tem pensado e agido para isso?

Temos começado a fazer. Tem o processo democrático, de transparência, de abertura do clube para a torcida. De permitir e estimular produtos mais populares, brigar pelo preço da cerveja, ter um local para denúncia de mulheres contra o assédio dentro do estádio, fazer o botão do aplicativo para essa denúncia. Ter uma pessoa transexual como vendedora da loja sem ninguém saber disso. A gente quer que isso vire normalidade. Tem muito mais para fazer. Temos poucos negros na gestão do futebol. O Conselho é muito machista numericamente, com pouca presença feminina. Na próxima eleição, teremos a obrigação de presença de 20% de mulheres em cada chapa.

Esse posicionamento melhora a imagem do Bahia diante de torcedores de outros clubes?

A gente percebe isso, mas também tem uma reação negativa porque o País está mais intolerante, homofóbico. A gente luta porque acredita, não para agradar. Mas a gente vê gente vestindo a camisa do Bahia mesmo não sendo o seu time principal. Isso é ótimo e se dá por um conjunto de circunstâncias. É por outras questões também não só pelo posicionamento. Hoje temos uma gestão mais equilibrada, honramos compromisso, somos abertos, exercitamos a dignidade, a ética e o respeito. Se fosse só o discurso, mesmo corajoso, mas estivéssemos endividando o clube, seria algo superficial e não teria a mesma repercussão.

O Bahia conseguiu se consolidar na Série A. A crise atrapalha o clube a dar saltos maiores?

Atrapalha, ainda que sem uma análise comparativa. O Bahia hoje está muito mais fragilizado do que antes do coronavírus. Antes, tínhamos um plano de faturar R$ 200 milhões neste ano. Agora estamos lutando para chegar em R$ 130 milhões. Vai gerar um déficit depois de seis anos. É prejudicial ao projeto. Mas não consigo responder se ao final do coronavírus vamos subir ou descer no ranking de competitividade. A tendência é que a gente suba, saia mais forte do que a média dos clubes, porque vínhamos mais estruturados do que a média. Mas eu não posso cravar isso porque não sei a realidade dos outros clubes. Trabalho loucamente para manter os salários em dia, algo que não acontecia antes. Tenho despesas contratadas que não consigo pagar. A gente vai se fragilizar. Mas se o adversário saiu pior, você se dá bem. A gente não torce por uma pandemia, mas você pode até sair fortalecido.

Como recuperar o que se perdeu com a crise do coronavírus?

O próprio futebol está dando oportunidades, como a Lei das S/A, que está tramitando no Congresso Nacional, os temas relativos à modernização dos clubes, com Profut e fair-play financeiro. Essa é uma chance que o futebol tem de se reinventar em um momento de crise profunda. Se você enfrentar a crise como você encarava a normalidade, você vai perder. O Bahia está muito mais criativo do que seis meses atrás. O Sócio Digital só seria lançado no fim do ano.

O senhor é a favor do clube-empresa?

Acredito e defendo a aprovação de uma legislação. O Bahia não necessariamente vai se tornar uma empresa e tenho críticas às visões de que essa é a única saída para o futebol. O mundo corporativo mostra que há boas empresas e más. A gente vê o Grêmio como uma associação muito bem gerida e compara com empresas trágicas. É preciso ter um DNA associativo, governança. A empresa não é a única solução.

O seu mandato termina no fim do ano. Se imagina em reeleição? Até onde o Bahia pode chegar?

Ainda não decidimos se o caminho é uma reeleição, vamos discutir mais para frente. Mas o que precisamos fazer é ir para o terceiro ciclo. Tivemos o primeiro, da dignidade, tornando o Bahia um time respeitável, mesmo com o orçamento limitado. No segundo, mesmo com a pandemia, estamos aumentando o poder econômico do clube, com protagonismo nacional relevante. O terceiro é tornar o clube mais competitivo para dar voos mais rápidos, com uma base mais forte, ser inovador, apostar em dados para os negócios e dentro de campo, com metodologia, para que sejamos mais competitivos. Já inauguramos um CT moderno. É um ciclo até 2027, 2028, para voltar a disputar com os times grandes.

O Brasileiro vai repetir o modelo de torneios nacionais europeus, com hegemonia de um ou dois clubes?

Ainda é cedo para tirar essas conclusões. Há um ano, o Flamengo investia, mas não tinha um modelo vencedor, tanto que o Palmeiras foi campeão em 2019. Não se falava dessa hegemonia antes do Jorge Jesus. Já tivemos outros momentos parecidos, com o São Paulo muito absoluto, com o Fluminense com o patrocínio da Unimed, o Palmeiras com o apoio da Parmalat... Precisamos ver qual é sustentabilidade dos projetos hegemônicos. Há clubes que vão ser sempre competitivos, como o Grêmio. Se o Corinthians encontrar caminhos, se reestruturar, pode ser mais competitivo, tem tamanho para isso, para rivalizar com o Flamengo. O São Paulo também tem. Há caminhos. O Athletico tem demonstrado isso, chegando perto do topo, tendo ganho Copa do Brasil e Sul-Americana, mesmo tendo uma torcida muito menor do que a média dos clubes do futebol brasileiro. Acho que o Brasil ainda não está se tornando uma Alemanha.

Mas está se tornando uma Espanha?

Não sei, pode ser mais provável do que a Alemanha. Mas o modelo dos clubes espanhóis é muito mais estável do que o nosso. O Flamengo ou o Palmeiras, ou qualquer outro, não tem de provar que são grandes. Precisam provar que são grandes e estáveis. A grandeza sozinha não faz a hegemonia.

O objetivo do Bahia é se consolidar como o maior time do Nordeste?

Isso é uma coisa para a torcida. Quanto mais o Nordeste estiver forte, melhor para nós. Queremos ser mais competitivos nacionalmente. É melhor se o Bahia for o 6º, o Fortaleza ficar em 8º e o Ceará em 9º do que ter o Bahia sozinho e em 5º Eu prefiro assim do que ficar arrotando ser o maior, mas com o futebol do Nordeste fraco.

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Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

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Em entrevista ao 'Estadão', presidente Guilherme Bellintani detalha objetivos do clube neste ano

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia Felipe Oliveira

A crise do coronavírus e o novo modelo de transmissão advindo de Medida Provisória (MP) 984 impulsionaram os clubes a investir em seus canais no YouTube, seja com transmissão de partidas oficiais, jogos-treino ou lançamento de camisas, em ações para aumentar a audiência e o alcance na plataforma. Mas há uma exceção: o Bahia optou por deixar em segundo plano essa possibilidade apostando no próprio aplicativo.

De acordo com o seu presidente, Guilherme Bellintani, não é possível obter monetização relevante pelo YouTube. Por isso, o clube lançou o Sócio Digital, acreditando que em até dois anos obterá com o aplicativo a mesma receita que consegue pelo acordo de pay-per-view, ainda mais que a partir de 2021 poderá transmitir jogos do Campeonato Baiano pela plataforma.

A postura está na contramão de diversos clubes, mas o Bahia é um dos líderes da união da maioria deles, defendendo o conteúdo da MP 984, por acreditar que ela fará aumentar a arrecadação das equipes, embora destaque que só haverá divisão mais igualitária dos recursos se os times caminharem juntos. Nesta entrevista ao Estadão, o presidente do Bahia defende o fim dos Estaduais, embora não veja movimento para isso, e não crê que o futebol esteja vivendo o início de uma hegemonia dentro dos campos. Além disso, assegura que o clube vai intensificar a implementação de iniciativas de inclusão tão defendidas em campanhas da sua gestão. 

A mudança nos direitos de transmissão veio através de MP. Isso foi surpresa para a maioria dos clubes? Pode trazer insegurança aos investidores?

A forma como aconteceu não foi a planejada, nem do modo que devem acontecer as mudanças no futebol, que devem vir de desdobramentos de discussões e construções coletivas. Mas o mérito da MP atende a maioria dos clubes brasileiros. A MP se perpetua se virar lei, sendo aprovada no Congresso Nacional. Não importa se a origem é por um projeto de lei ou medida provisória. A origem fica apagada

Há muita desigualdade na distribuição das receitas de TV. Como a MP e o seu conteúdo podem ajudar a combater isso?

Não tenho essa ilusão, mas é um caminho para a redução. Eu acredito muito nisso. E que também é um caminho para aumentar o tamanho do bolo. Primeiro, o bolo precisa ser feito. E as fatias não podem ser tão diferentes. O direito do mandante torna o bolo maior por colocar na mesa jogos que estavam fora. Mais da metade das partidas do Brasileirão não são transmitidas em TV fechada porque há uma lei, a única no mundo, que divide o direito de transmissão. A MP resolve isso, com exceção se algum clube não vender para ninguém ou nem fizer a sua transmissão, o que é muito improvável. Com mais jogos, há mais remuneração. O equilíbrio na divisão das receitas dependerá da união dos clubes. Quanto maior for esse bloco, maior será a união. Se isso não acontecer, a disparidade poderá até ser maior.

Recentemente, 16 clubes da Série A se manifestaram a favor do conteúdo da MP. Como se deu essa união e qual é a sua importância?

Essa união vem amadurecendo há algum tempo, embora as pessoas não acreditem, É assim,com a Liga do Nordeste, um campeonato estruturado pela liga. Outro bloco que demonstra isso é o dos 8 clubes que assinaram com a Turner. Tudo é feito coletivamente, como o processo decisório. E a Comissão Nacional de Clubes (CNC), de um ano para cá, tem demonstrado isso. Ter uma manifestação de 16 clubes da Série A, com os 19 da B e os times da Liga do Nordeste é uma demonstração de união.

Há problemas nessa união que redundou no acordo com a Turner?

A crise ou une ou separa. E está unindo. É uma experiência nova, tem muitas discussões, muitas divergências, o que é natural. E buscamos a convergência. Vou te dar um exemplo. Na CNC, tivemos uma reunião emblemática, quando tomamos a decisão sobre a venda dos direitos internacionais. A nossa votação para um determinado modelo comercial teve placar de 10 a 9. Sugeri que não fechássemos questão por isso e voltasse a conversar 48 horas depois, corrigindo as ideias do grupo que perdeu. E aí voltamos a conversar, fizemos correções e saiu 19 a 0.

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O contrato do Brasileirão vai até 2024. Não haverá mudanças significativas até lá, mesmo que a MP se torne lei. O que esse tempo pode ajudar? E como o senhor imagina o novo modelo de transmissões?

Será um novo contexto jurídico e com uma revolução de tecnologia, com estrutura, com internet e plataformas melhores, streaming melhores. Também haverá a redução da força econômica dos players tradicionais. As tevês abertas passam por uma crise e isso vai impactar. Vamos ter uma realidade absolutamente diferente. As pessoas falam equivocadamente em substituição de players. O que haverá é uma mudança de contexto, com a convivência entre diferentes players. Não será um monopólio substituindo outro. Acredito que a Globo possa não ter dinheiro para comprar tudo, talvez a Amazon e o Facebook não queiram comprar tudo, o pay-per-view não se sustente como está, os clubes tenham suas próprias plataformas, que poderão transmitir uma parte de jogos. Ainda vai demorar um tempo para entendermos quais serão os melhores caminhos. Temos de tatear, sentir as circunstâncias.

Qual será o papel ocupado pelo streaming?

Ele não é uma nova plataforma, é um novo meio. Vai brigar com algumas plataformas, mas vai coexistir. Na situação atual, não substitui a TV aberta, que chega em todos os lares. Hoje, tenderia a competir com o pay-per-view. Mas já compete com a TV fechada, como acontece com o DAZN. Um Flamengo x Corinthians no streaming pode pegar parte do público da TV aberta, embora vá ser menos democrático, ter menos alcance. Se nós estivéssemos hoje com todos os direitos liberados, provavelmente as novas plataformas de streaming, de clubes, competiriam com o pay-per-view. Mas em 2025 isso pode ser muito diferente.

O Bahia lançou um aplicativo próprio, o Sócio Digital. Quais são os planos do clube com a iniciativa?

Brinquei que é uma mistura de Netflix, com BBB, Esporte Espetacular e rede social. Estamos criando novos conteúdos, porque o de jogo está vendido. A partir dessa limitação, usamos todo o conteúdo entre os jogos. Estamos na contramão dos outros clubes, que estão apostando em TVs no YouTube, que entendemos não dar perspectivas de monetização. Criamos um aplicativo que oferece tudo do YouTube e muito mais, com pesquisa no celular, tabela de jogos, classificação dos campeonatos, loja virtual, além de tudo que pode ser transmitido. E com usabilidade mais fácil e amigável. Tínhamos 275 mil inscritos em outro aplicativo e queremos converter isso para 50, 60 ml assinaturas em até 12 meses. Temos uma linguagem única, parecida com redes sociais, com filmagens pelo celular, transmissões ao vivo, com informalidade. Conseguimos assim produzir muito mais por um preço baixo. Não me preocupo com transmissão de jogos ou números de seguidores no YouTube.

Em 2021, o Bahia pretende transmitir os jogos do Estadual na plataforma. A receita obtida com o Sócio Digital pode substituir o acordo de TV?

Acredito que já pode acontecer em um ou dois anos em relação ao pay-per-view. O que o Bahia recebe é baixo, eu recebi R$ 9 milhões no ano passado e tudo indica que nesse ano eu vou receber menos. Se eu tiver 70, 80 mil assinantes, sendo que fechamos a primeira semana com 7 mil, a receita será a mesma do pay-per-view. Hoje tenho 7 mil só com treinos e bastidores. O máximo que transmito é o rachão.

Mas o investimento nas transmissões não pode diminuir o lucro com o aplicativo?

O custo é infinitamente menor do que o da transmissão pela TV. Fiz o orçamento para o Campeonato Baiano com gasto de R$ 500 mil, contratando produção e narrador para todos os jogos. Um jogo para a TV custa pelo menos R$ 300 mil.

O calendário pode passar por mudanças profundas em 2021 e que incluiriam o fim dos Estaduais?

Filosoficamente, eu gostaria. Mas não acho que exista um movimento firme de clubes e da CBF para acabar com os estaduais. Eles vão se acabar, infelizmente. Se fossemos estratégicos, acabaríamos com o produto antes. Na prática, eu ainda creio que haverá uma convivência mortal dos estaduais com o Nacional. A minha posição é que os estaduais fossem jogados com times de transição pelos clubes de Série A e B, o que ajudaria a revelar jogadores que ou abandonam a carreira ou são vendidos rapidamente. Paralelo a isso, um Brasileirão com 9 ou 10 meses de duração, conciliando datas com torneios internacionais. Mas não acredito que isso vá acontecer.

As tevês terão participação direta no fim dos estaduais?

A televisão vai ajudar. Na Bahia, não vou jogar e nem o Vitória com o time principal em 2021. Neste ano, joguei no mesmo dia da Copa do Nordeste, fizemos uma rodada dupla na Fonte Nova. É uma escolha ideológica. Alguns estados podem fazer isso, fizemos em decisão conjunta. Outros estados vão ser forçados pela crise dos contratos de TV.

O Bahia tem ficado marcado por posicionamento em questões sociais. Tem puxado esse “movimento” no futebol?

Isso já tem acontecido. Mas estou menos preocupado com posicionamentos, onde avançamos bastante. Agora preciso ir além, na postura e nas crenças, implementando avanços no clube e no futebol. Precisamos dizer menos e fazer mais. O Bahia agora está pensando nessa transformação.

Como a sua gestão tem pensado e agido para isso?

Temos começado a fazer. Tem o processo democrático, de transparência, de abertura do clube para a torcida. De permitir e estimular produtos mais populares, brigar pelo preço da cerveja, ter um local para denúncia de mulheres contra o assédio dentro do estádio, fazer o botão do aplicativo para essa denúncia. Ter uma pessoa transexual como vendedora da loja sem ninguém saber disso. A gente quer que isso vire normalidade. Tem muito mais para fazer. Temos poucos negros na gestão do futebol. O Conselho é muito machista numericamente, com pouca presença feminina. Na próxima eleição, teremos a obrigação de presença de 20% de mulheres em cada chapa.

Esse posicionamento melhora a imagem do Bahia diante de torcedores de outros clubes?

A gente percebe isso, mas também tem uma reação negativa porque o País está mais intolerante, homofóbico. A gente luta porque acredita, não para agradar. Mas a gente vê gente vestindo a camisa do Bahia mesmo não sendo o seu time principal. Isso é ótimo e se dá por um conjunto de circunstâncias. É por outras questões também não só pelo posicionamento. Hoje temos uma gestão mais equilibrada, honramos compromisso, somos abertos, exercitamos a dignidade, a ética e o respeito. Se fosse só o discurso, mesmo corajoso, mas estivéssemos endividando o clube, seria algo superficial e não teria a mesma repercussão.

O Bahia conseguiu se consolidar na Série A. A crise atrapalha o clube a dar saltos maiores?

Atrapalha, ainda que sem uma análise comparativa. O Bahia hoje está muito mais fragilizado do que antes do coronavírus. Antes, tínhamos um plano de faturar R$ 200 milhões neste ano. Agora estamos lutando para chegar em R$ 130 milhões. Vai gerar um déficit depois de seis anos. É prejudicial ao projeto. Mas não consigo responder se ao final do coronavírus vamos subir ou descer no ranking de competitividade. A tendência é que a gente suba, saia mais forte do que a média dos clubes, porque vínhamos mais estruturados do que a média. Mas eu não posso cravar isso porque não sei a realidade dos outros clubes. Trabalho loucamente para manter os salários em dia, algo que não acontecia antes. Tenho despesas contratadas que não consigo pagar. A gente vai se fragilizar. Mas se o adversário saiu pior, você se dá bem. A gente não torce por uma pandemia, mas você pode até sair fortalecido.

Como recuperar o que se perdeu com a crise do coronavírus?

O próprio futebol está dando oportunidades, como a Lei das S/A, que está tramitando no Congresso Nacional, os temas relativos à modernização dos clubes, com Profut e fair-play financeiro. Essa é uma chance que o futebol tem de se reinventar em um momento de crise profunda. Se você enfrentar a crise como você encarava a normalidade, você vai perder. O Bahia está muito mais criativo do que seis meses atrás. O Sócio Digital só seria lançado no fim do ano.

O senhor é a favor do clube-empresa?

Acredito e defendo a aprovação de uma legislação. O Bahia não necessariamente vai se tornar uma empresa e tenho críticas às visões de que essa é a única saída para o futebol. O mundo corporativo mostra que há boas empresas e más. A gente vê o Grêmio como uma associação muito bem gerida e compara com empresas trágicas. É preciso ter um DNA associativo, governança. A empresa não é a única solução.

O seu mandato termina no fim do ano. Se imagina em reeleição? Até onde o Bahia pode chegar?

Ainda não decidimos se o caminho é uma reeleição, vamos discutir mais para frente. Mas o que precisamos fazer é ir para o terceiro ciclo. Tivemos o primeiro, da dignidade, tornando o Bahia um time respeitável, mesmo com o orçamento limitado. No segundo, mesmo com a pandemia, estamos aumentando o poder econômico do clube, com protagonismo nacional relevante. O terceiro é tornar o clube mais competitivo para dar voos mais rápidos, com uma base mais forte, ser inovador, apostar em dados para os negócios e dentro de campo, com metodologia, para que sejamos mais competitivos. Já inauguramos um CT moderno. É um ciclo até 2027, 2028, para voltar a disputar com os times grandes.

O Brasileiro vai repetir o modelo de torneios nacionais europeus, com hegemonia de um ou dois clubes?

Ainda é cedo para tirar essas conclusões. Há um ano, o Flamengo investia, mas não tinha um modelo vencedor, tanto que o Palmeiras foi campeão em 2019. Não se falava dessa hegemonia antes do Jorge Jesus. Já tivemos outros momentos parecidos, com o São Paulo muito absoluto, com o Fluminense com o patrocínio da Unimed, o Palmeiras com o apoio da Parmalat... Precisamos ver qual é sustentabilidade dos projetos hegemônicos. Há clubes que vão ser sempre competitivos, como o Grêmio. Se o Corinthians encontrar caminhos, se reestruturar, pode ser mais competitivo, tem tamanho para isso, para rivalizar com o Flamengo. O São Paulo também tem. Há caminhos. O Athletico tem demonstrado isso, chegando perto do topo, tendo ganho Copa do Brasil e Sul-Americana, mesmo tendo uma torcida muito menor do que a média dos clubes do futebol brasileiro. Acho que o Brasil ainda não está se tornando uma Alemanha.

Mas está se tornando uma Espanha?

Não sei, pode ser mais provável do que a Alemanha. Mas o modelo dos clubes espanhóis é muito mais estável do que o nosso. O Flamengo ou o Palmeiras, ou qualquer outro, não tem de provar que são grandes. Precisam provar que são grandes e estáveis. A grandeza sozinha não faz a hegemonia.

O objetivo do Bahia é se consolidar como o maior time do Nordeste?

Isso é uma coisa para a torcida. Quanto mais o Nordeste estiver forte, melhor para nós. Queremos ser mais competitivos nacionalmente. É melhor se o Bahia for o 6º, o Fortaleza ficar em 8º e o Ceará em 9º do que ter o Bahia sozinho e em 5º Eu prefiro assim do que ficar arrotando ser o maior, mas com o futebol do Nordeste fraco.

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Produção de conteúdo é a solução inicial para recuperação financeira dos clubes, diz especialista

Fábio Wolff, especialista em marketing, diz que período é um 'acelerador de tendências' que obrigou equipes a investirem na interação com torcedor. 'Estadão' começa série de reportagens, toda quinta, sobre a retomada financeira dos clubes

João Prata, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2020 | 14h00

Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports & Marketing, talvez seja o profissional que mais fecha patrocínios no País, sejam eles pontuais ou de longo prazo. Atualmente, tem parcerias no futebol com Corinthians, Palmeiras, Santos, Botafogo e Fluminense, e mantém contato com praticamente todos os clubes da Série A. O especialista em marketing esportivo faz o meio de campo entra a empresa que quer investir e a equipe. Também ajuda entidades como a Federação Paulista de Futebol (FPF), por exemplo, a buscar patrociníos e está presente em outras modalidades como no basquete.

Wolff vê a pandemia como um "acelerador de tendências", como o momento em que os clubes precisaram olhar, de uma vez por todas, para a produção de conteúdo online.  Ele citou como case de sucesso o documentário "Last Dance", do Michael Jordan, disponível no Netflix. A partir dele, o eBay, empresa de comércio eletrônico, informou que as vendas de produtos licenciados do Chicago Bulls subiram 5.156%.

A pandemia vai mudar a maneira de fazer negócios no futebol?

A pandemia vejo como um acelerador de tendências. A questão digital, as redes sociais, ela vem sendo trabalhada mais por alguns clubes do que por outros. Alguns clubes estavam mais preparados para se dedicar totalmente às redes sociais e estão nadando de braçada. Isso não quer dizer que conseguem substituir uma entrega de backdrop, placa de publicidade no CT, do faturamento com jogos ao vivo, com o digital. Não consegue. Mas a interação pelas mídias digitais dos clubes com os torcedores é fundamental para criar novas receitas.

Seu negócio foi muito impactado nesse momento?

Estamos há três meses em gestão de crise. Temos diversos contratos com clubes de futebol, federações, temos por exemplo a Ypióca no naming Rights do Campeonato Cearense e estamos em outras modalidades como o basquete. 

Os contratos foram suspensos?

Há contratos suspensos, claro, a medida que os campeonatos pararam, as entregas pararam. Alguns clientes, para preservar o caixa, suspenderam pagamentos. Mas assim que as atividades forem retomadas, voltam o pagamento e estendem automaticamente os contratos. Mas há também a situação de clientes que não estão sofrendo com a pandemia, alguns até que estão performando melhor, então mantiveram o pagamento, com compensações adiante. É uma forma de estreitar relação com o cliente. 

Pode dar um exemplo?

Teve caso de cliente que conseguimos uma propriedade extra, por exemplo, um novo espaço para exposição da marca. A Baterax, que patrocina o Botafogo, manteve o pagamento e então bonificamos com uma propriedade a mais.  

E como ficam os casos de suspensão? 

Não posso citar exemplos. Não existe uma receita de bolo. Há muitas maneiras de compensação. A maioria das parcerias são relações longas. Precisa de jogo de cintura. Um exemplo foi uma empresa que suspendeu pagamento agora e se comprometeu a pagar dobrado nos meses de janeiro a agosto, com contrato estendido pelo período que ficou parado. O que tenho visto no momento é o bom senso prevalecer.  

A sua projeção de faturamento vai ser impactada?

Difícil ainda saber porque tem uma série de variáveis. Não sabemos se todos os campeonatos serão realizados neste ano. Isso pode impactar. O senhor Walter Feldman (secretário-geral da CBF) disse que o Campeonato Brasileiro deverá ser realizado. Da nossa parte tivemos só uma rescisão até aqui, de uma empresa que saiu do País. Nossos contratos foram bem feitos e para haver rescisão tem de existir um motivo, um problema na entrega, a quebra da empresa. 

Tem ocorrido muitas rescisões?

Não tenho visto. No início da pandemia o Azeite Royal rescindiu com os quatro grandes do Rio e com o Maracanã. Depois não vi mais até a Marjosports rescindir com o Corinthians na semana passada. O que está havendo são suspensões e renegociações. 

Você que intermediou a Marjosports com o Corinthians?

Não, ela é nossa cliente, mas não fomos nós que fechamos. O momento era difícil para eles porque com a parada dos eventos a receita deles caiu muito. A questão do futebol afetou demais o negócio deles. Era sabido que essas empresas de apostas teriam problemas.

Quais ações te chamaram a atenção nesse período?

Criamos junto com a diretoria do Botafogo um torneio de E-Sports com o naming Rights da Baterax. É uma forma de ativar a empresa ao clube neste momento de ociosidade. No domingo, o Fluminense apresentou o Fred em uma Live e o nosso cliente Sika estava participando. As lives de lançamento de uniformes também ajudam a divulgar as marcas. O Sport do Recife, o Fortaleza fizeram isso. 

Algum caso no exterior?

Talvez o melhor exemplo dessa interação foi o que aconteceu com os produtos licenciados do Chicago Bulls. Desde que a Netflix lançou o documentário do Michael Jordan, a venda de produtos do Chicago cresceram mais de 5.000%. É um grande exemplo de como trabalhar conteúdo via streaming e estimular o e-comerce. 

A saída para evitar a crise está no online então?

Exatamente. É uma saída que se você for ver está sendo feita nas mais diversas áreas. As lives de artistas é uma saída online. A Wtorre teve a ideia de fazer agora o Drive-in, que não é online. Foi uma ideia segura para gerar receita. O mais importante é fazer algo segmentado e de qualidade. Os clubes têm essa ferramenta na mão. Isso é uma tendência. Produzir conteúdo, vender individualmente para os torcedores. Não necessariamente precisa revender para uma empresa de streaming. Mas precisa investir nesse setor. 

Acha que esse período pode também estourar essa bolha do futebol com salários multimilionários pagos a técnicos e jogadores?

Isso vai depender muito do que acontecer da Europa para cá. Porque boa parte das receitas dos clubes vêm da venda dos jogadores para clubes europeus. Se o mercado lá sentir o baque, eles virão com menos força para cá. Se vier com menos força sobra menos dinheiro para pagar. É um auto ajustamento do mercado na questão de padrões de circulação do dinheiro. Mas não dá para saber.

Como vê a administração do futebol no Brasil?

Se os clubes fossem mais profissionais, preocupados com o orçamento, muitos não deveriam continuar carregando os atuais números. Tem clube que gasta mais de 80% das receitas com jogadores. A conta não vai fechar nunca. 

O Cruzeiro é o principal exemplo do que não fazer?

O formato da gestão tem de ser repensado. Não dá para gastar mais do que entra, contratar 40 jogadores, aí empresta jogador pagando 50% dos salários. São coisas que chega a dar nervoso. Não tem como continuar assim. Tem clube que deve mais de R$ 600 milhões. O Cruzeiro caiu agora para a segunda divisão. Ele tem de subir no próximo ano porque a receita de televisão mudou. Se não voltar, terá problema e vai se afundando cada vez mais.

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