Paulo Liebert/Estadão
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Do que se queixam?

Brigar por títulos em 2019 não foi suficiente para a decepcionada torcida do Palmeiras em 2019

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2019 | 04h00

É comum tratar o Palmeiras como a grande decepção do ano. Essas coisas se espalham e depois de um tempo são repetidas quase automaticamente. Muito bem, o que seria uma grande decepção? Para um time com a posição do Palmeiras no cenário do futebol brasileiro seria não disputar títulos, isto é, não ambicionar nada que não fosse disputar o primeiro lugar, só ele, e ser campeão. 

Estamos vendo times até recentemente com a mesma ambição que, hoje, não mais a pode sustentar. E reconhecem isso. Preferem se colocar em modestos quarto, quinto ou sexto lugares no Campeonato Brasileiro, o que lhes dá o direito de humildemente disputar a próxima Libertadores. Proclamam isso abertamente para quem quiser ouvir. Não se consideram protagonistas nem lhes passa pela cabeça disputar o título. 

Ninguém é obrigado a ganhar títulos, mas a disputar títulos, e isso não se pode negar ao Palmeiras. Perdeu todas as competições que jogou neste ano, mas em todas queria ser o primeiro. Perdeu duas delas na disputa de pênaltis. No Campeonato Paulista foi eliminado pelo São Paulo na semifinal. Na Copa do Brasil a mesma coisa, também nos pênaltis, pelo Internacional. É alguma decepção, algum vexame inominável, ser eliminado nos pênaltis por São Paulo ou Inter?

Na época, aliás, poucos deram importância ao assunto porque as cabeças estavam voltadas para a Libertadores. E nessa competição aconteceu o desastre. O jogo que sepultou a temporada 2019 inteira, que atirou a moral do time ao chão ocorreu contra o Grêmio, não no Allianz Parque, aliás, mas no Pacaembu, quando o empate seria suficiente para garantir a classificação já que tinha ganho em Porto Alegre. 

O Grêmio, que vinha de sucessivos maus resultados contra o Palmeiras, viveu sua grande noite e seguiu em frente na competição. Era tanta a obsessão pela Libertadores como único resultado redentor do ano que a equipe naufragou.

Não sei se a torcida leva em conta que todas as eliminações foram em mata-matas, competições que são mais roleta-russa do que jogo de futebol. E a noção de decepção se espalhou como nunca. Houve erros na condução do time? Sem dúvida. Mas o Palmeiras, ao longo dos anos, perdeu várias vezes em mata-matas e as reclamações eram apenas de praxe. 

Por que desta vez tanto barulho? Simples, porque uma coisa é perder com Muller, Luizão, Rivaldo, Djalminha, jogando bola e dando espetáculo. Dar espetáculo foi exigência da torcida por muitos anos. Perdeu posição exatamente quando o Palmeiras ganhou a Libertadores com Felipão e isso começou a mudar tudo. Até que funcionava jogar com o regulamento embaixo do braço, não se arriscar, jogar feio se necessário! Aos poucos, essa maneira de encarar o jogo se inoculou na torcida, cada vez mais paciente, cada vez mais fiel, confiante na garra e nos resultados magros.

Deu no que deu. O Palmeiras este ano não ganhou títulos nem deu espetáculo. Claro que há outros fatores, sobretudo a sorte. Digo sorte, principalmente nas contratações. Não basta ter dinheiro, é preciso visão, habilidade e muita sorte. No Palmeiras, habilidade não houve de modo algum, ao vender ou ao contratar. Sorte, muito menos. No fim de tudo ficou a consolação, e não é pouco, de ter disputado títulos e não lugares médios na classificação.

 

Tanto é verdade que a torcida do Flamengo reconhece quem é o rival. Numa musiquinha deliciosa, carioquíssima, que a torcida cantava antes do embarque para Lima, dedicava ironicamente o título da Libertadores, se houvesse, ao Palmeiras. Sob a ironia essa dedicatória revelava muita coisa, principalmente que não consideravam o Grêmio, adversário do qual se livraram facilmente, como rival, mas o Palmeiras. Às vezes inadvertidamente, sem querer, numa simples brincadeira, o adversário mostra quem realmente via como obstáculo. 

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