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Antero Greco
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Doce vingança lusitana

Napoleão Bonaparte tinha mania de grandeza e certa fixação por Portugal. A ponto de, no começo do século 19, invadir algumas vezes o pequeno vizinho. Não foi por acaso que d. João VI e a corte picaram a mula e se transferiram de baús e cuidas para o Brasil. A ousadia do corso ficou atravessada na garganta dos lusos, ora pois.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2016 | 05h00

Muito bem, duzentos anos e alguns quebrados mais tarde, a tropa portuguesa acabou com a pose dos franceses, e na melhor forma de batalha: a lúdica, a do esporte. No caso, na bola. Os bravos descendentes dos marujos de antanho foram a Saint-Denis, nos arredores de Paris, e de lá saíram com o maior e mais singelo butim: a taça continental. Portugal faturou a Euro, na casa dos anfitriões, e coloca o nome na lista de campeões.

O primeiro grande título veio 12 anos depois da frustração em casa, então na derrota por 1 a 0 para a Grécia, a zebra da ocasião. Portugal foi a Grécia da vez. A proeza valeu pelo ineditismo, pela condição de visitante, por vir na forma de 1 a 0 no 2.º tempo da prorrogação, com gol do africano Éder; pela baixa dolorosa de Cristiano Ronaldo.

Portugal mostrou time revolucionário; antes, valeu-se de regulamento esdrúxulo, passou como um dos terceiros colocados da primeira fase, teve uma vitória apenas no tempo normal. Mas isso é futebol, venceu sem poréns ou polêmicas. Como disse um amigo: "Nada de Maria Antonieta. Agora, o que conta é Maria, a Louca". História.

Alvi de Parque S. Jorge. O telefone toca, no domingo logo cedo. É Roberto Salim, repórter de primeira grandeza, observador arguto. Feliz como iniciante por ter sido capa do Aliás. "Você reparou uma coisa no Corinthians?", pergunta. "Sim, está numa campanha forte. Com jeito de que vai brigar pelo título", respondo. "Não é só isso", emenda. "O quê?", fico curioso. "Só tem branco na escalação. Negro, só o técnico."

E não é que, para variar, ele tem razão? Coincidência, bobagem, constatação com significado ou sem sentido nenhum. O fato é que o time que pisou o gramado da Arena Condá, no sábado, era só "alvi", sem "negro". Havia sido assim nas três rodadas anteriores.

O episódio chama a atenção, por se tratar do time do povão, o Timão, da Gaviões da Fiel, do samba. O Corinthians que já teve defesa formada por Jairo, Zé Maria, Mauro, Amaral e Vladimir, e logo à frente da zaga o Caçapava, "clareou" de uma hora pra outra. Para aumentar o inusitado, brancos também eram os que entraram durante a vitória por 2 a 0 sobre a Chapecoense: Yago, Danilo e Guilherme. Que coisa.

Sem insinuação de racismo. Nem intenção de relacionar a situação na tabela com a cor da pele de atletas escalados. Longe disso, vade retro polêmica tola e inútil. Clube com raízes operárias não é movido por atitudes rasteiras.

Já vai longe o tempo em que as agremiações daqui eram regidas por idiotices do gênero. Se bem que fui testemunha de comentário sórdido feito por cartola, décadas atrás. Andava insatisfeito com o time e se saiu com esta. "Tem 'moreno' demais no elenco." Semanas depois saiu um listão de dispensa, do qual constavam muitos "morenos". Acaso? Duvido.

O Brasil se fez como nação – e se firmou como potência no futebol – pela miscigenação. Que bom, e é tendência que se alastra pelo mundo. Basta ver o perfil, por exemplo, das seleções de Portugal e França, que decidiram ontem a Euro.

O mote da crônica leva a reflexão e a outra constatação. A reflexão: as arquibancadas embranqueceram, com os programas de sócio torcedor e com o encarecimento dos ingressos. Há elitização em curso, por mais que se tente negar a realidade.

A comprovação: antes, havia preconceito com treinadores negros. Cisma bem racista indicava que se tratava de professores indolentes. Portanto, nada mais natural do que grupos de atletas negros comandados por brancos. Agora, se vê o inverso, e Cristóvão Borges é a prova bem-sucedida. Coincidência? Sim, mas que é curioso, isso é...

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