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Documentário revela que FBI investiga Havelange e Blatter

Carta de brasileiro indicaria que suíço sabia de corrupção

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

06 de dezembro de 2015 | 20h37

O FBI investiga João Havelange e Joseph Blatter. A enquete envolve os pagamentos de propinas da ISL para o brasileiro nos anos 90 que somaram cerca de US$ 100 milhões. Agora, porém, uma carta escrita por Havelange indicaria que Blatter sabia de tudo, desmentindo sua versão mantida por anos de que não tinha conhecimento do esquema corrupto que o brasileiro havia estabelecido. 

As revelações fazem parte de um documentário que vai ao ar nesta segunda-feira produzido pela BBC One, em seu programa Panorama. Nos últimos sete meses, as operações do FBI contra a corrupção no futebol sacodiram o esporte, levando à renúncia de vários cartolas, a prisão de mais de uma dezena e mais de 40 pessoas já indiciadas. José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira - os últimos três dirigentes da CBF - são suspeitos de receber propinas de "pelo menos" R$ 120 milhões.

Os americanos, porém, indicaram que ainda não terminaram a investigação e, segundo a BBC, ela inclui outro brasileiro: Havelange, presidente da Fifa por 24 anos. 

Em 2013, ele foi obrigado a renunciar de seu cargo de presidência de honra da Fifa e do COI diante das revelações de que, nos anos 90, recebeu milhões de dólares em propinas da ISL em troca de contratos de transmissão para a Copa do Mundo. Ricardo Teixeira, seu ex-genro, também ficou com parte do dinheiro e, no total, a ISL teria distribuído mais de US$ 100 milhões em propinas. 

Um acordo foi fechado na Justiça suíça em que, sem admitir culpa, Havelange e Teixeira, pagaram uma multa e o caso foi encerrado. Blatter passou anos insistindo que desconhecia o esquema montado para fraudar a Fifa, ainda que fosse o braço direito do brasileiro na entidade desde os anos 80. 

Agora, o FBI decidiu mergulhar uma vez mais no assunto. No pedido de cooperação enviado pelos americanos à Justiça da Suíça, os EUA indicam claramente que Havelange e Blatter estão no centro do processo. 

O motivo seria uma carta supostamente assinada por Havelange implicando o suíço. Durante o tempo em que foi presidente da Fifa, Joseph Blatter era o secretario-geral. "Eu mantive relações comerciais com empresas de marketing esportivo que estavam sob meu controle e, como resultado dessa relação, eu recebi uma remuneração de acordo com a regra da Fifa, e isso foi alvo de um processo judicial na Suíça sem o reconhecimento de qualquer culpa", escreveu Havelange. 

O brasileiro também indica que, apesar de já não ser presidente da entidade, quem pagou por seus advogados foi a própria Fifa. "Esclareço que todos os gastos para os processos mencionados, inclusive advogados, foram pagos pela Fifa", apontou Havelange.

Mas a principal revelação é sobre o envolvimento de Blatter. "Enfatizo que Joseph Blatter tinha pleno conhecimento de todas essas atividades e sempre aconselhou sobre elas", indicou Havelange. 

O brasileiro também tentaria, na documentação, inocentar Teixeira. "Tal remuneração ocorreu há mais de 15 anos e foi de responsabilidade exclusiva, sem qualquer participação de membros da minha família", indicou. 

A carta levou o FBI a agir sobre o brasileiro. Ao solicitar a cooperação da Suíça na investigação sobre a Fifa, os americanos indicaram que, "entre outras coisas, o procurador está investigando a declaração de Havelange implicando a Blatter e aparentemente inocentando seu  genro, Teixeira, no caso ISL".

Blatter indicou em 2013 ao Comitê de Ética da Fifa que desconhecia a propina e foi inocentado por organismo. Naquele mesmo ano, ele visitou Havelange no Rio de Janeiro durante a Copa das Confederações. Em 2010, Teixeira ainda votou na escolha do Catar para a Copa de 2022. 

Para a BBC, o deputado inglês, Damian Collins, denunciou o comportamento do suíço. "Precisamos perguntar por que ele protegeu essas pessoas", disse. 

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