Reprodução Todos Querem Colo-Colo
Reprodução Todos Querem Colo-Colo

Documentário sobre o Colo-Colo aborda intervenção da ditadura Pinochet

Feita por brasileiros, produção conta a história do adversário do Palmeiras pela Libertadores

Carlos Henrique Costa / Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2018 | 17h33

Pelo segundo jogo das quartas de final da Copa Libertadores, Palmeiras e Colo-Colo (CHI) se enfrentam nesta quarta-feira, às 21h45, no Allianz Parque. Na noite de terça-feira, um documentário produzido por brasileiros sobre o clube chileno foi lançado em outro templo do esporte de São Paulo. “Todos Querem Colo-Colo” estreou na versão paulista do CineFoot, realizado no Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu.

O filme é um dos sete curta-metragens concorrentes nesta nona edição do festival de cinema de futebol, que compõe a programação comemorativa dos 10 anos do Museu do Futebol. O principal tema é a intervenção sofrida pelo “Cacique” durante a ditadura Pinochet, que fez cerca de 40 mil vítimas entre 1973 e 1990.

Apesar de torcer para o Santiago Wanderers, Augusto Pinochet se aproveitou politicamente do Colo-Colo, time mais popular do Chile. O ditador chegou, inclusive, a impor sua nomeação a presidente honorário do clube em 1984. Isso perdurou até 2015, quando uma assembleia de associados desfez a indicação. Foi mais uma das tentativas dos torcedores de afastar a imagem de Pinochet do Colo-Colo. A equipe, entretanto, foi favorecida financeiramente pelo governo central, o que incitou o ódio por parte dos rivais, principalmente a Universidad de Chile.

Mas o regime ditatorial impôs ao clube e seus apoiadores muitos danos psicológicos. Alguns deles extremos. É o caso do atacante Carlos Caszely, ídolo colocolino e um dos principais jogadores do país. Caszely se opunha publicamente à ditadura de Pinochet e se recusou a cumprimentá-lo na despedida da seleção chilena para a disputa da Copa do Mundo de 1974. Resultado: a mãe do camisa 9 foi torturada pelos militares. Anos mais tarde, o jogador seria importante nos movimentos de reabertura do país.

Essa é uma das muitas histórias abordadas pela produção, realizada pelo Canal Peleja em parceria com a Rede Snack. Em conversa com o Estado, o diretor do curta, Murilo Megale, destacou outras passagens do documentário, que não se limita ao Colo-Colo para trazer uma ideia da intervenção ditatorial sobre o futebol chileno.

“A gente mostra também como os torcedores do Cacique e da Universidad de Chile tratam esse assunto delicado para o esporte do Chile”, explica Megale. “O Estádio Nacional de Santiago é um símbolo da ditadura. Hoje é a casa da “La U” [apelido da Universidad de Chile], mas já recebeu grandes jogos do Colo-Colo e da seleção. Logo depois do golpe militar, o estádio começou a receber apoiadores do governo deposto. Eles foram encarcerados, torturados e, em muitos casos, executados. Há relatos de que o local chegou a receber 7 mil pessoas de uma só vez, e isso traz uma sensação estranha pros torcedores até hoje.”

Mais de 40 mil presos passaram por lá. De acordo com estimativas publicadas pelo jornalista e historiador Mauricio Brum no livro “La Cancha Infame”, cerca de 400 pessoas foram executadas no estádio. A “cancha” só parou de receber prisioneiros pois a seleção nacional precisava utilizá-la em jogo válido pela repescagem das eliminatórias da Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.

O dia era 21 de novembro de 1973. O oponente, a União Soviética, que se recusou a disputar a peleja por questões políticas, no que até hoje é o único boicote a uma partida relacionada ao Mundial de seleções. Mas engana-se quem pensa que o jogo foi cancelado antecipadamente. Mais de 20 mil espectadores foram ao local para assistir ao “gol da classificação”, marcado pelo capitão Valdés após o apito inicial. Do time adversário, ninguém estava em campo.

O governo deposto mencionado por Megale é o de Salvador Allende, que presidiu o país de 1970 até o golpe -- Allende resistiu até o último momento e cometeu suicídio pouco antes de ser pego pelos golpistas. O socialista adotou políticas de estatização e reforma agrária que desagradaram os setores conservadores da sociedade chilena, culminando no movimento que levou Pinochet ao poder.

Há quem acredite que o Colo-Colo teve influência até no dia do levante militar. Segundo Mauricio Brum, o golpe teria acontecido em abril de 1973, mas, como o Cacique conseguiu uma heroica classificação sobre o Botafogo nas semifinais da Libertadores, chegando à final (seria vice), o povo estava em festa e a intervenção foi adiada.

As consequências do regime ditatorial são relevantes no cenário político do Chile até hoje. E o Colo-Colo, é claro, não poderia ficar de fora. Inclusive, tem jogador conhecido do público brasileiro envolvido em uma polêmica recente. Trata-se de Jorge Valdivia, meia-atacante famoso por sua passagem pelo Brasil, justamente no Palmeiras.

O “Mago” apoiou a eleição do atual presidente Sebastián Piñera, que tem políticas associadas a Pinochet. Em abril deste ano, Piñera retirou do parlamento um projeto de lei que propunha reparações econômicas aos presos políticos da ditadura. Isso levou a reações de torcidas do Colo-Colo autodenominadas antifascistas, reacendendo a faceta politizada dos colocolinos. Por conta do apoio ao atual governante, uma “hincha” do Cacique taxou: “Valdivia jamais será nosso ídolo”.

Uma boa oportunidade para o jogador reconquistar de vez os fanáticos é hoje à noite, no segundo jogo das quartas-de-final, contra o ex-clube. A missão, no entanto, é indigesta: o Colo-Colo precisa reverter o revés de 2 a 0 imposto pelo Palmeiras na partida de ida.

 

 

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