Iván Franco/EFE
Iván Franco/EFE

Documentário uruguaio 'Maracaná' expõe as feridas da final da Copa de 1950

Filme conta a história de 11 operários que venceram e de 11 brasileiros que foram crucificados

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

13 Março 2014 | 05h04

MONTEVIDÉU - Três anos e meio de uma pesquisa complexa resultaram no filme uruguaio Maracaná, dos diretores Sebastián Bednarik e Andrés Varela. A película foi exibida pela primeira vez na última quarta-feira, diante de 10 mil pessoas no estádio Centenário, em Montevidéu, e tem previsão para chegar ao Brasil no mês de maio. A produção de 75 minutos é baseada no livro Maracaná, la historia secreta, de Atilio Garrido, e traz imagens inéditas que quase se perderam com o tempo, mas foram recuperados por meio de um intenso processo de garimpagem de material em vídeo.

"É uma viagem até 1950, onde podemos conhecer não somente o que aconteceu na Copa, mas também as duas sociedades que estavam surgindo. O documentário apresenta a façanha de 11 homens da classe operária, que tiveram êxito, e outros 11 que estavam lutando contra a pressão política em seu país para que vencessem. No final, tiveram de pagar com suas vidas pelo fracasso. É uma história muito humana, não só dos uruguaios, mas também dos brasileiros. A película percorre os dois pontos de vista", explica Varela em entrevista exclusiva ao Estado.

A investigação de imagens foi muito grande e levou os diretores até a Europa e ao Brasil, além da Cinemateca do Uruguai. No total, foram usadas 27 fontes diferentes de material e as partes de filme em 35 mm ajudaram a dar mais qualidade ao trabalho. "Fomos até o Arquivo Nacional, no Rio, visitamos colecionadores privados na Itália, Alemanha e Espanha e conseguimos, inclusive, o vídeo raro que tem 70 minutos da grande final. São muitas imagens inéditas, sobretudo das concentrações de Brasil e Uruguai, com interações entre os jogadores, os almoços, os bate-papos... São momentos únicos", conta Varela.

O diretor aponta um momento que ele chama de "assombroso": o discurso do então prefeito do Rio, Mendes de Morais, para os jogadores. Ele conseguiu as imagens que mostram o político falando aos atletas brasileiros: "Eu cumpri minha palavra construindo esse estádio, cumpram agora seu dever vencendo a Copa do Mundo".

A expectativa é de que o filme seja bem recebido também no Brasil, até porque não trata do tema apenas pelo olhar do vitorioso. "Como a história é narrada pelos dois pontos de vista, é muito interessante para ambos os países. É maravilhoso ver a seleção brasileira de 1950, é incrível ver o que pegava o Barbosa no gol... Acho que a recepção será muito boa."

No fundo, a produção da Coral Cine é uma metáfora da manipulação dos povos por meio do esporte, como o próprio Varela diz. Ele lembra, inclusive, que o capitão uruguaio Obdulio Varela tinha liderado uma greve de operários pouco tempo antes da Copa e isso ajudou a inspirar seus companheiros.

O diretor vê uma diferença muito grande em relação ao torneio que será disputado este ano novamente no Brasil e não crê numa repetição da história nos mesmos termos. "O que aconteceu no Maracanã naquele dia foi único. Agora são outros jogadores, outra sociedade e aquilo não se pode repetir. O Uruguai não tem obrigação de ser campeão e quando falam do fantasma de 1950, vejo como algo humorístico, um disparate. Acho que o Brasil não deve ter temor pelo que ocorreu em 1950, mas pela qualidade dos jogadores uruguaios", conclui.

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