Pedro Souza/ Atlético
Pedro Souza/ Atlético

Dois anos após início da covid-19, retomada da economia movimenta o futebol

Receitas com operação de estádios crescem e fazem com que clubes e empresas recuperem o fôlego

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2022 | 20h00

Dois anos após o início da pandemia da covid-19, a retomada da economia no futebol brasileiro e mundial volta a recuperar fôlego. Mesmo com algumas restrições, clubes e empresas têm conseguido se movimentar com operação nos jogos, aumento do quadro de sócio-torcedor e ações que tem trazido alento aos cofres, tão castigados com o fechamento dos estádios e de público em boa parte de 2020.

Clube com quadro de sócios-torcedores grande no País, o Internacional está perto de chegar a marca de 100 mil inscritos graças à retomada da torcida. Em setembro de 2020, por exemplo, o time gaúcho estava com 90 mil associados - hoje esse número já chegou a quase 97 mil. "Isso está atrelado aos novos projetos e às campanhas realizadas. A ideia é que esse número aumente de forma relevante nos próximos meses", revela Victor Grunberg, vice-presidente de administração e patrimônio do clube, apesar da fase ruim na temporada, como eliminação na Copa do Brasil.

Campeão brasileiro, o Atlético-MG aproveitou a liberação da capacidade do Mineirão e arrecadou quase R$ 35 milhões de forma líquida no ano passado. O orçamento previa um valor bruto de R$ 19,2 milhões em bilheteria, que claramente foi superado após a boa campanha da equipe mineira, coroada com títulos nos dois principais torneios nacionais. O departamento comercial do clube também superou a previsão realizada no início da temporada e atingiu mais de R$ 60 milhões com patrocínios. Além disso, o programa de sócio-torcedor "Galos na Veia", que antes não chegava a 60 mil adeptos, hoje conta com quase 125 mil sócios adimplentes.

Fernando Lamounier, diretor executivo da Multimarcas Consórcios, parceira do Atlético-MG, destaca que o controle da pandemia foi produtivo aos patrocinadores. "Nós aproveitamos o bom momento do Atlético-MG e colocamos em prática diversas ativações com torcedores. Na final da Supercopa do Brasil, levamos torcedores, que também são clientes da empresa, para um bar em Belo Horizonte e geramos experiências relacionadas ao clube. No Vasco, selecionamos consorciados para viver os bastidores do clássico com o Botafogo, em São Luis (Maranhão). São atividades que podem ser feitas com a retomada da torcida nos estádios, que movimentam a economia e trazem benefícios a clubes e patrocinadores", explica.

Em São Paulo, a Gourmet Sports Hospitality (GSH), empresa de catering com foco na gestão e operação de alimentos e bebidas para arenas, estádios de futebol e casas de espetáculo, e que atua no Allianz Parque, do Palmeiras, aponta que teve um aumento de 20% no ticket médio em 2022 comparado com o mesmo período de 2020. Vale destacar que o setor de eventos registrou prejuízo de R$ 270 bilhões com a pandemia do novo coronavírus entre março e dezembro de 2020. As perdas levaram ao desemprego de 3 milhões de pessoas. 

"Estamos falando do valor do faturamento bruto que temos no estádio, dividido pelo número de torcedores presentes. É até curioso por se tratar de um período pós-pandemia em que, em tese, o poder de compra das pessoas em geral diminuiu, mas elas estão gastando mais dinheiro em média neste ano em comparação com o mesmo período de 2020", explica Mark Zammite, CEO da GSH.

Atual bicampeão da América, o Palmeiras faturou cerca de R$ 950 milhões em 2021 e fechou a temporada com um superávit de R$ 123 milhões. Só no futebol, as receitas quase dobraram em comparação com a temporada anterior, em que o Alviverde arrecadou R$ 568,8 milhões.

De acordo com estudo realizado pela Uefa no último mês, o futebol europeu perdeu 7 bilhões de euros (R$ 38 bilhões) por causa da pandemia. Já as equipes tiveram um prejuízo de 3 bilhões de euros (R$ 16 bilhões) ao final da temporada 2020/2021. Antes da pandemia, as perdas foram de 'apenas' 144 milhões de euros (R$ 797 milhões). Em termos comparativos, o prejuízo passou a casa dos 2.000%.

Patrocinadora de Vasco, Bahia, Corinthians, São Paulo, Sport, Atlético-MG, Paysandu e Remo, a Cartão de TODOS entende que a retomada da economia também passa pela visibilidade com ativações em estádios. "Alguns dos nossos clubes possuem parceria na venda de ingressos, tendo o filiado desconto na hora de adquirir as entradas. Esse valor varia de acordo com o clube, mas pode ter 30% de desconto geralmente. Existe também os comerciais passando nos telões do estádio e a exposição com placas, que também ajudam o reforço de marca", explica Victor Oliveira, gerente de comunicação e projetos do Cartão de TODOS.

O controle da pandemia, aliás, tão citado pelas marcas como fator importante para esta retomada, passou e muito pelo trabalho feito com o passaporte da vacinação em alguns estádios do país. Parceira da CBF, a empresa franco-brasileira Mooh!Tech criou o aplicativo Chronus i-Passport com esse objetivo, e avalia que o esporte em geral contribuiu fortemente para um mundo menos traumático neste período de retomada.

"Uma vez que além de todo o retorno financeiro que o mercado esportivo vai gerar, os eventos também são fundamentais para a recuperação mental e social de todos que passaram ou não pela doença. O novo ciclo de acontecimentos presenciais é promissor no Brasil, e os exemplos gerados no país como o GP São Paulo de F1 2021, Stock Car, jogos da seleção brasileira, entre outros, podem ser o novo modelo de referência para o segmento, demonstrando que as soluções que atestam ambientes seguros e responsáveis são o início de uma fagulha no que se refere ao uso de tecnologia para melhorar a experiência do usuário", destaca Everton Cruz, CEO da empresa.

"Além do caráter sanitário, os eventos presenciais também têm surgido com novos formatos graças às tecnologias, e essas permitem a ampliação comercial com possibilidade de ações híbridas e engajamento online. A tecnologia vai continuar sendo a maior aliada nas organizações. Tenho certeza que tudo isso somado vai levar clubes, entidades e empresas para um outro patamar no que diz respeito aos seus faturamentos", aponta.

Após manter-se na Série A em 2022, o Juventude mudou a linha de pensamento que vinha adotando em anos anteriores e aposta em projeção maior para este ano. Isso inclui, também, as ativações envolvendo o público em Caxias do Sul e a renovação de patrocínio com parceiros importantes, caso da multinacional New Holland. "O orçamento para a construção do CT já foi concluído. O investimento seria a construção de um prédio de 1,5 mil metros quadrados que permitiria aos jogadores se apresentarem diretamente lá. Esse é um projeto que vamos tentar executar através de recursos obtidos via leis de incentivo”, afirma o presidente Walter Dal Zotto.

Outro bom exemplo vem de Belém, do Pará. A loja oficial do Remo, por exemplo, localizada nos arredores do Baenão, registrou uma arrecadação 30% maior quando o Leão joga em casa. Inaugurada em julho, a boutique é administrada pela Volt Sport, fornecedora de material esportivo do clube. “Com a estrutura que montamos, conseguimos receber os torcedores com toda a segurança necessária e sendo uma fonte de receita importante para a agremiação”, disse Fernando Kleimmann, sócio-diretor da Volt.

Levantamento da consultoria Sports Value em meados de 2021 apontou que a perda somada de receita em 2020, na comparação com 2019, dos 20 maiores clubes do país chegou a 1 bilhão de reais -- o faturamento caiu de 6,1 bilhão para 5,1 bilhão.

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