J. F. Diorio/Estadão
J. F. Diorio/Estadão

Dois em cada dez torcedores se endividam por gastos com futebol, aponta pesquisa

Estudo do SPC aponta para comportamento de consumo dos fãs de futebol

Rafael Pezzo, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2016 | 07h00

Ainda que os cartolas estejam envolvidos em escândalos de corrupção e que os campeonatos nacionais sofram com certa desorganização, o futebol segue como uma das grandes paixões do brasileiro. Tão forte que é capaz de endividar os mais aficionados. 

Uma pesquisa divulgada no mês de agosto pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) revelou que cerca de dois em cada dez torcedores (21,3%) já comprometeram o orçamento mensal devido a gastos relacionados ao futebol. Além disso, 21,8% dos entrevistados já ficaram com o nome sujo porque gastaram demais com produtos relacionados ao time do coração.

Josmar Andrade, professor do curso de Marketing da Universidade de São Paulo, acredita que paixão e a presença do futebol na sociedade impulsionam esse tipo de gasto. “Do ponto de vista psicológico, os clubes trazem uma forma de felicidade às pessoas, e parte dessa realização está na aquisição de itens relacionados às agremiações. E tudo conspira para que as pessoas torçam, façam piadas e se manifestem sobre o assunto. Sendo assim, possuir a camisa ou qualquer outro produto do time é uma forma de se inserir no mundo.”

O professor ainda acrescenta que essa significação pode ser maior entre as pessoas com menor renda, apesar de não ser exclusiva desse recorte da sociedade. “Porque são poucas as coisas que podem dar mais prazer a elas do que ver o time ganhar ou ser campeão. E o custo da camisa ou de uma viagem para o Mundial em Tóquio compromete muito mais a renda dessa fatia.” Entre as pessoas das classes C, D e E, 23,1% já ficaram com orçamento descontrolado por conta do futebol, contra 14,8% entre os das faixas A e B, mostrou a pesquisa.

A paixão citada por Josmar é testemunhada por Yan Lopes, diretor da rede de franquias Torcedor Esporte Clube, com oito lojas espalhadas pelo Brasil. “O torcedor é muito fiel. Por exemplo, agora em que alguns times estão disputando a liderança do Brasileirão, camisas do Palmeiras e do Flamengo são as que mais saem”, afirmou Lopes. E isso não se limita aos clubes do Brasil: “Quando chegam as fases finais da Liga dos Campeões, vendemos muitas camisas do Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique”.  

Ainda de acordo com a pesquisa, o gasto médio do torcedor no mês de agosto foi de R$ 255,72. Na lista dos itens mais comprados pelos fãs estão as bebidas (33,8%), seguidas pelas camisas dos times (31,9%) e ingressos para as partidas (29,5%). Aperitivos, contas de bares e restaurantes, TV por assinatura e pay per view também estão entre os principais destinos do dinheiro dos aficionados.

Fernando Fleury, doutor em Marketing Esportivo, não vê este fenômeno como exclusivo ao futebol, “mas como esse esporte está mais presente no nosso cotidiano, esse comportamento é visto com maior facilidade". Ele lembra também que "isso se trata apenas de uma parcela dos torcedores mais disposta a fazer alguma coisa maluca pelo time do que a maioria.”

Um dos consultores do movimento Bom Senso F.C., Fleury afirma que os times de futebol podem usar pesquisas como esta para mapearem melhor o mercado e melhorarem suas estratégias de vendas. "(Os clubes) acreditam no marketing da vitória, ‘se meu time está bem, o torcedor compra e vai ao estádio’. Na verdade, deveriam fazer ações mais amplas, desenvolvendo a marca do clube e atraindo cada vez mais fãs.” 

 

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