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Ugo Giorgetti
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Dois nomes

Béla Guttmann era um técnico húngaro, nos tempos em que a Hungria tinha Puskas, Kocsis e outros astros. Treinou o Milan, onde foi campeão, o Peñarol, onde também foi campeão, e chegou ao São Paulo em 1957.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2015 | 07h47

Em tempos em que o futebol ocupava outro espaço na vida das pessoas e a imprensa especializada era precária, isso era mais ou menos tudo o que se sabia desse treinador. Certamente não falava português, me disseram depois que falava um espanhol enigmático, misturado com palavras italianas. Não pediu reforços ao clube, nem apresentou métodos que deixaram todos de boca aberta. Vinha, entretanto, com grande reputação e, como habitualmente acontece, foi recebido com a reverência com que sempre, em qualquer época, acolhemos qualquer estrangeiro.

Não havia nada de notável no homem, que eu possa me lembrar. Não fazia muitas declarações, não criou nenhuma polêmica. Mas tinha personalidade fortíssima e sabia tudo de futebol. O São Paulo contratou apenas um jogador, ao que eu me lembre, para aquele campeonato. O grande Zizinho, que, aos 35 anos, estava esquecido no Bangu. Correu o boato de que a contratação foi a pedido de Guttmann. Não sei. O que sei é que observou dois ou três treinos sem dizer palavra e no treino seguinte entrou em ação. Chamou o meia-esquerda, na época chamado de meia-armador, Dino Sani, e deu-lhe a camisa 5, de médio-volante, mais atrasado. Dino ficou indignado, não disse nada e foi treinar na nova posição. Achou que era uma maneira de queimá-lo e tirá-lo do time. Mas treinou. Depois de dois treinos encontrou-se na nova posição, percebeu que Guttmann tinha descoberto sua vocação natural, nunca mais a largou e nela foi campeão mundial em 1958.

Essa história me foi contada pelo próprio Dino Sani. Guttmann ,discretamente como chegara. se foi. Ficou um ano no São Paulo, o suficiente para dar ao tricolor o campeonato de 1957 e criar um meio-campo que ficou na história do clube: Dino Sani e Zizinho.

Juan Carlos Osorio chegou ao São Paulo em junho de 2015, e, antes de chegar já se podia saber tudo sobre ele. Consultando o Wikipedia sabe-se que Osorio é “licenciado como treinador de futebol nos Países Baixos”, e é “pós- graduado em ciência do futebol (sic!) pela Universidade de Liverpool”. Foi assistente técnico do Manchester City. Na Colômbia teve sucesso em competições como a Libertadores da América, embora nunca a tenha vencido. Esse cartel pareceu impressionar profundamente a crítica daqui. 

Nunca vi um treinador ter tanto espaço na mídia, ser tão solicitado, ser tão estudado em todos os seus movimentos, e, naturalmente, tão reverenciado em seus métodos. Não sei julgar da excelência de suas descobertas futebolísticas, me parece, entretanto, que não falta talento a esse treinador na área da comunicação. Seus resultados em campo não são grande coisa. A meu ver o São Paulo tem time para estar muito melhor do que está. Nem serve de desculpa a perda de alguns jogadores, nenhum deles grande craque. 

Tite, com muito maiores perdas, está para ser campeão. Mas o Brasil é assim. Há três meses só se fala em Osorio e, principalmente, só ele fala. Pouco do que está fazendo do São Paulo em campo, muito de episódios laterais. Já se envolveu em várias polêmicas, e todas serviram para colocá-lo no centro do palco. Agora temos o suspense de sua iminente saída. É ridículo, e diz muito de nossa própria mediocridade. 

Espero sinceramente que um dia, antes de sua partida, ainda tenhamos tempo de ver um pouco do que aprendeu na cadeira de “ciência do futebol” da Universidade de Liverpool. Muitos torcedores, acho, têm a mesma curiosidade. No mais, só lamento que o velho Guttmann tenha vivido na época errada. 

Em tempo: quando saiu do São Paulo foi treinar o Benfica. Lá revelou Eusébio, o maior jogador português de todos os tempos.

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