Dom Paulo rezou para Corinthians não cair

Se o Corinthians escapou do rebaixamento no domingo, não foi só por obra e arte do São Paulo, seu rival. Foi também por força e proteção de São Jorge, seu padroeiro, a quem outro Paulo, o cardeal Evaristo Arns, torcedor piedoso, implorou a graça de um milagre na batalha contra a Portuguesa Santista. O cardeal passou o segundo tempo do jogo do time corintiano rezando e sofrendo diante da televisão."Rezei para o Corinthians ao menos empatar, mas o bobo foi perder", disse nesta terça-feira o arcebispo emérito (aposentado) de São Paulo, autor do livro ?Corinthiano, graças a Deus?, que a Editora Planeta vai lançar no próximo dia 30, com prefácio do jornalista Juca Kfouri.Aos 82 anos de idade - e pelo menos 38 de torcida, desde que chegou à cidade em 1966 -, dom Paulo não esconde a paixão que tem pelo time. Se houve mesmo alguma ajuda do céu, o cardeal acredita que ela chegou ao gramado do Pacaembu por intercessão do padroeiro. Do contrário, quem poderia explicar esse milagre de o Corinthians, apesar da derrota, não ter caído para a segunda divisão, castigo que o Palmeiras, que não tinha santo tão forte, teve de amargar no ano passado? Dom Paulo adverte aos incautos, especialmente aos adversários de seu clube do coração, que São Jorge - o lendário mártir do século 3 que venceu, com sua espada, um temível dragão na Capadócia, a oeste da Armênia - continua poderoso e atento às preces dos que recorrem à sua proteção. Mas, se o santo goza de tanto prestígio entre os devotos, deve isso, em parte, à interferência do cardeal."Quando eu soube, depois do Concílio Vaticano II, que Roma estava limpando o calendário católico, banindo santos de cuja origem não se sabia toda a verdade, pedi a Paulo VI que salvasse São Jorge, protetor do Corinthians e padroeiro de tantas cidades pelo mundo afora", disse dom Paulo, adiantando uma história que vai contar em seu livro.Sabendo que Paulo VI gostava de futebol - ele torcia provavelmente pelo Milan, paixão dos seus tempos de arcebispo de Milão -, o cardeal sugeriu que São Jorge pudesse continuar sendo honrado em âmbito regional, ainda que fosse cassado do culto universal da Igreja. Conseguiu. "O papa escreveu um bilhete ao responsável pelo setor, atendendo a meu pedido", contou.Herói intrépido que salvou a vida de uma princesa quando ia ser devorada pelo dragão, depois de o pai dela, o rei da Capadócia, ter sacrificado ao monstro milhares de ovelhas e de vidas humanas - conforme narra uma piedosa, ainda que discutível lenda -, o santo continua nos altares de igrejas e catedrais. Padroeiro de dioceses importantes, como Gênova, na Itália, e Ilhéus, na Bahia, São Jorge mantém a sua festa no calendário litúrgico no dia 23 de abril. Comemoração facultativa, mas de grande devoção.

Agencia Estado,

16 de março de 2004 | 14h50

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