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Domingão

Barbárie e truculência não são coisas de hoje

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2019 | 04h00

Jogavam Palmeiras x Novorizontino, numa noite fria de muitos anos atrás. Eu e um filho, palmeirense de nascença, estávamos nas antigas numeradas descobertas do Pacaembu. Bem longe da Mancha e das outras organizadas alviverdes. E, subitamente, o Palmeiras fez um gol. Por índole, por preguiça, indolência, ou o que quiserem, sou incapaz, sob qualquer circunstância, de pular e gritar gol desesperadamente. Não sou expansivo, principalmente quando se trata de alegria massificada.

Aparentemente leguei essa herança a esse filho que estava comigo. Nos limitamos a comemorar sentados. Imediatamente comecei a sentir algo estranho ao redor e, pouco depois, estávamos cercados por muitos palmeirenses nos acusando de torcedores do Novorizontino. Quando, finalmente, no meio dos insultos voou uma latinha de cerveja, eu me levantei. Não sou exatamente uma pessoa de baixa estatura e, na época, tinha muitos anos a menos. 

Meu filho igualmente não é pequeno e era, ainda é, muito forte. A agressão acabou dando em nada e pudemos ver o jogo sentados, inclusive durante os dois outros gols que se seguiram.

Por que falo desse acontecimento tão distante? Porque ele se repetiu domingo, quando dois torcedores foram expulsos de seus lugares, talvez do estádio, acusados de flamenguistas disfarçados, quando os dois são palmeirenses, apenas vestiam roupas civis, sem o uniforme com a publicidade do patrocinador do momento.

O que quero dizer é que barbárie e truculência não são coisas de hoje. São, aliás, coisas antiquíssimas, sempre acumuladas, às vezes, mais ou menos contidas. Elas emergem completamente, porém, quando o governo do dia as apoia e incentiva. 

Os agressivos precisam de apoio, nunca agem sós. Quando esse apoio é oficial acham que tudo é permitido. Os dois torcedores não foram vítimas da Mancha. Estavam, como eu estava há tantos anos, no meio da elite dos torcedores, brancos, gorduchos e felizes.

Um outro episódio igualmente vergonhoso se seguiu no mesmo Allianz Parque. É vergonhoso, mas tem seu lado humorístico. Um torcedor, já idoso, com uma aparência curiosa de oficial da Marinha, resolveu fazer um protesto nas dependências do belo e moderno estádio. Seu protesto foi abrir um livro e se pôr a ler enquanto corria o jogo Palmeiras x Flamengo. Não era um protesto contra o Flamengo, evidentemente. A atitude do provocador se tornou insuportável para muitos torcedores, a meu ver, não por estar protestando contra Mano Menezes e o ridículo futebol praticado pelo time, mas sim por estar lendo um livro.

Nada parece ser mais detestável, nocivo, perigoso, espantoso e ameaçador no Brasil hoje do que simplesmente ler. Essa atitude francamente suspeita se torna ainda mais intrigante quando acrescida do assunto da leitura. Parece que o homem lia algo ligado, de alguma forma, a Karl Marx! Não sei como descobriram isso, ou quando. O fato é que imediatamente deve ter soado o alarme e o pavor.

Talvez houvesse ali não apenas um torcedor do Flamengo fingindo de inocente leitor, mas um marxista!!! Não sabendo bem o que fazer com Marx ou com situação tão desconhecida, tomaram, por via das dúvidas, a única providência que conhecem: expulsaram sumariamente o homem.

Na minha opinião trata-se de um gozador, e dos bons. Escolheu cuidadosamente não só o local mais adequado, mas o nome de um autor mais citado no Brasil hoje do que no tempo da União Soviética. Como Marx serve para tudo, antes que o homem do livro se torne conhecido como o introdutor do marxismo esportivo no Brasil, prefiro a hipótese de ele ser apenas um exigente palmeirense das antigas. Certo de que ia ver o hoje ex-time de Mano Menezes se arrastar em campo resolveu agir. Foi expulso, e, como de outras vezes, nem a Mancha nem qualquer outra torcida organizada, teve nada a ver com isso.

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