Dor e espetáculo

A contusão de Neymar no pé serve para aumentar a dramaticidade da Copa

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 04h00

O futebol precisa de heróis, mitos e lendas, sobretudo em momentos especiais. E não há nada mais marcante e fora do comum do que Mundiais. Eles são o auge da emoção, do desafio para jogadores e seleções. Mexem com sentimentos nacionalistas, no que têm de bom e ruim, atraem atenção de bilhões de pessoas, se tornam tema dominante durante mês e meio a cada quatro anos. Prato cheio para histórias memoráveis – e para faturar.

Copa, não custa lembrar, há muito virou negócio rentável, para organizadores, patrocinadores, atletas, técnicos... meios de comunicação. Cada qual tira sua lasquinha – ou pedação, dependendo da oportunidade.

Nesse contexto, a contusão de Neymar veio a calhar para estimular a expectativa brasileira em torno da Copa da Rússia. Se havia ainda certo distanciamento com o evento na Europa, o infortúnio do rapaz – a lamentar-se em qualquer circunstância – agora é muito mais sentido. Afinal, ocorre poucos meses antes da estreia da trupe de Tite e atinge o astro da companhia.

Perceba o potencial de comoção do episódio, e digo isso apenas como observador. (Para quem tem alguma dúvida: interessa-me antes o ser humano, não o astro.) Há a fratura, surgida em lance fortuito, sem interferência de um vilão do outro lado. Atinge um moço que, recentemente, foi centro da maior transferência da história. Esse rapaz é o camisa 10 do Brasil, aquele em torno do qual gravita a esperança de redenção após o fiasco em 2014. Fora isso, é personagem midiático, controvertido, rico, com namorada global.

Está tudo à mão para alimentar o imaginário popular e abastecer debates por semanas seguidas. Basta saber cavoucar o terreno fértil. Claro, para aumentar a dose de dramaticidade, faça-se ilação com outro caso famoso, o de Ronaldo Fenômeno. Há vários pontos em comum: craque, esperança nacional, o risco de ficar fora de Copa (a de 2002), a recuperação em cima da hora, o desempenho surpreendente, a artilharia e o título no gran finale.

Não importa que sejam situações diferentes: Ronaldo teve o joelho destroçado duas vezes, Neymar tem uma fratura num dedo do pé. Incomoda, preocupa, dói. Mas não comporta o risco que rondou o ex-jogador. A carreira de Ronaldo esteve por um fio.

Isso é detalhe menor; o que conta é criar clima de angústia, ansiedade. De novela. Com o cuidado de deixar bem aberta a perspectiva de que o roteiro se repita, com o mesmo desenlace feliz da seleção do penta. É preciso vender ilusão e mostrar para o público o quanto é imprescindível para a autoestima da nação ter uma seleção inteira na Rússia. E Neymar é ponto-chave.

Não se trata de brigar com a notícia; tolice que jamais cometeria, com tantas décadas de jornal. A situação de Neymar é um fato grave de alguém notável na profissão apaixonante que exerce.

A reflexão se refere ao exagero, à espetacularidade na exploração da cirurgia à qual Neymar se submete. Com plantões extraordinários, com cobertura de internação de chefe de Estado, com trilha sonora de suspense. Com foco na luta por audiência, cliques, acessos. Pois, como diria aquele âncora, a Rússia é logo ali.

Fica o pensamento positivo para a recuperação de Neymar, e que conte com tempo suficiente para estar inteiro para a disputa do Mundial. Além disso, Tite tem o desafio de montar alternativas eficientes para amistosos contra Rússia e Alemanha. Imprevisto “educativo”.

ALVINEGROS CANSADOS

Santos e Corinthians enfrentam-se neste domingo à tarde, no Pacaembu, poucas horas depois de terem voltado de jogos pela Libertadores no Peru e na Colômbia, respectivamente. Um desgaste que dirigentes não notaram na época da divulgação das tabelas. De novo, jogadores e técnicos pagarão o pato.

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