Dossiê de tragédia em Hillsborough incrimina a polícia

A polícia britânica tentou culpar os torcedores para encobrir os erros que contribuíram para a morte de 96 torcedores esmagados em um estádio em 1989, de acordo com documentos secretos divulgados nesta quarta-feira após uma longa campanha das famílias das vítimas para a revelação dos detalhes da tragédia.

AE-AP, Agência Estado

12 de setembro de 2012 | 12h06

O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, pediu desculpas pelo pior desastre esportivo da história do país e disse que a nação se sente envergonhada por seu fracasso e pela demora de mais de 20 anos para divulgar os erros que contribuíram para a morte de torcedores do Liverpool no Estádio de Hillsborough, a maioria deles esmagados e asfixiados.

Uma comissão nomeada pelo governo analisou os papéis e confirmou que falhas da polícia levaram diretamente ao desastre e que alguns torcedores feridos tiveram negados tratamento médico que poderia ter salvo suas vidas.

Cerca de 2 mil torcedores do Liverpool foram esmagados em um dos setores do estádio em Sheffield, que recebia a semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest no dia 15 de abril de 1989. Nenhum indivíduo ou organização foi condenado em razão do desastre.

Cameron disse que as provas contidas em uma documentação de 400 mil páginas, que estavam secretas e foram entregues às famílias dos mortos nesta quarta-feira detalham tentativas sofisticadas por parte da polícia para transformar as vítimas em culpadas e manchar suas reputações, insinuando que muitos estavam embriagados e tinham históricos de violência ou crimes.

"Novas evidências a que somos apresentados hoje deixam claro que estas famílias sofreram uma dupla injustiça", disse Cameron à Câmara dos Comuns. "A injustiça dos terríveis acontecimentos, a falha do Estado em proteger seus entes queridos e a espera indefensável para chegar à verdade, e a injustiça da difamação dos falecidos, que foram de alguma forma culpados por suas próprias mortes".

"Em nome do governo, e realmente do nosso país, estou profundamente arrependido por esta dupla injustiça, que foi deixada sem correção por tanto tempo", disse Cameron aos legisladores, muitos dos quais choraram enquanto o primeiro-ministro apresentava os detalhes das falhas cometidas pelas autoridades britânicas.

Apesar de um relatório avaliar que não era possível dizer conclusivamente se uma melhor ação dos serviços de emergência poderia ter salvo vidas, Bill Kirkup, membro da comissão, disse aos jornalistas que 41 torcedores tinham "potencial para sobreviver".

Cameron disse que o procurador-geral Dominic Grieve iria rever as evidências e provavelmente pedir para o Superior Tribunal da Grã-Bretanha derrubar o veredicto do inquérito original e reabrir o caso. Um júri decidiu em 1991 que as mortes foram acidentais, mas criticou as ações da polícia. "Com todos os documentos revelados, com nada retido, as famílias finalmente têm acesso à verdade", disse Cameron. Parentes das vítimas disseram que planejam se reunir nos próximos dias para discutir se qualquer nova ação judicial será aberta.

A reação ao desastre de Hillsborough transformou o esportes britânico, incluindo a adoção de cadeiras em todos os estádios dos clubes da elite. Isto também ajudou os times a acabarem com os recorrentes casos de vandalismo, o que mudou a situação como os torcedores se relacionam com o esporte, com um aumento significativo da segurança nos estádios.

Depois de um período em que a violência dos torcedores ingleses atrapalhou os clubes, que chegaram a ficar proibidos de participar de competições europeias, as mudanças alteraram a imagem do esporte da Grã-Bretanha, que passou a sediar importantes eventos esportivos, incluindo a Olimpíada e a Paralimpíada em Londres neste ano.

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