Paulo Liebert/Estadão
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Duas partidas

Enquanto Jorge Jesus sai do Brasil radiante, Dudu deixa o País por problemas fora de campo

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2020 | 05h00

Nos últimos dias, duas pessoas partiram do Brasil, cada uma a seu modo. O ex-treinador do Flamengo saltitante e contente, mais feliz por dentro do que por fora. A outra partida, enquanto isso, foi de alguém amargurado por dentro e por fora. Refiro-me ao Dudu, do Palmeiras. Um fez o possível para ir; o outro fez a mesma coisa para ficar.

O caso do português é mais banal. Nada tenho contra a pessoa, tenho contra quem o tira das suas proporções para elevá-lo a gênio da raça. Exatamente como é odioso discriminar alguém porque vem de fora, é igualmente odioso não poder sequer analisar suas possíveis qualidades sem incorrer num julgamento de nacionalismo rasteiro e caipira.

Durante todo o tempo em que esteve aqui, me parece que mal ocultou o desejo de voltar para a Europa. Quando um país entra na moda, entra de modo amplo, todos se beneficiam disso e hoje há na Europa quem se abrigue à sombra de um Portugal bem conceituado e admirado. Os treinadores de futebol por exemplo. Não estava entre eles o sr. Jesus. Sei, por amigos que têm informação bastante confiável, que ele não é querido em Portugal. Nunca teve sucesso por lá, era considerado um treinador longe do topo.

O Flamengo com sua mística, sua enorme torcida, sua fascinação por ídolos, era o campo ideal para fazê-lo crescer. De quebra recebeu um time com valores individuais especiais e situação econômica confortável, o que não é dado a qualquer treinador por aqui.

É verdade que muitos dos nossos treinadores são acomodados e monótonos. Irritam bastante com sua falta de imaginação e antiguidade de métodos. Que lugar teria sido, nessas condições, mais conveniente para um grande aventureiro do futebol, com a audácia dos portugueses, o destemor dessa pequena nação ao se lançar ao mar e conquistar um império?

Descendente dessa estirpe, Jesus chegou com sua empáfia, fingindo confiança inabalável nas suas qualidades e contando, é claro, com a mediocridade dos treinadores nacionais. Deu certo. Através das conquistas que legitimamente ajudou a construir, se tornou nome viável na Europa, para onde leva sua momentânea glória. Saiu radiante do Brasil.

A outra partida é diferente. Dudu fez sua carreira aqui, teve breve passagem pelo exterior, da qual voltou chamuscado. Foi a grande contratação do Palmeiras quando o time se reerguia, e compensou tudo o que se gastou nela. Recusou uma ida para a China, consolidou-se como líder e ídolo que faltava ao Palmeiras desde muito tempo atrás.

Foi impelido a sair não pelo futebol, mas por problemas fora de campo, problemas hoje em dia fatais, como são os problemas domésticos. Não vou analisar o fato com profundidade porque é íntimo e conheço mal. O certo é que Dudu vai embora do país por uma quantia ridícula, para um pais que não representa nada no futebol e que pode enterrá-lo para sempre.

A partida de Dudu dá impressão de ser uma punição que várias forças sociais reunidas aplicaram ao jogador. Ir nas condições em que está indo corresponde à antiga pena do degredo. Merece? Não sei, o que sei é que esperava que o clube pudesse dar uma solução para o caso. Dirigentes aparecem de fato nessas ocasiões inesperadas, que não são as do dia a dia do futebol. Tudo tem solução em casos como esse. Qualquer advogado sabe disso. Psicólogos também. 

Publicamente, não vi tentativa de modificar até mesmo a suposta vontade do jogador de deixar o clube, desmentida pela sua atitude e gestos na despedida. O que sobra é que o Palmeiras perde a melhor contratação que fez em muitos anos. Teria sido sua conduta tão irreparável assim? É só uma pergunta que, creio, os torcedores já começaram a se fazer a partir da última quarta-feira.

Peço desculpas não por tocar no assunto do jogo de quarta entre Palmeiras e Corinthians, que ocorreu mesmo no meio de mortos empilhados neste Estado de São Paulo.

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