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Dupla sul-africana reforça protestos contra o Mundial no Brasil

Ativistas do país-sede de 2010 estão no Brasil para passar experiência

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

22 de março de 2014 | 05h00

SÃO PAULO - "Apenas a Fifa lucrou com a Copa, o povo ficou no prejuízo." O discurso é de um sul-africano, mas está na boca de qualquer manifestante brasileiro que desde junho passado vai às ruas contra os gastos da Copa de 2014. Os movimentos contra o Mundial no Brasil ganharam a adesão de cidadãos da África do Sul, que desde 2007 participaram de diversas mobilizações no país que sediou o torneio em 2010.

Dois deles participam neste fim de semana de um encontro organizado por movimentos sindicais, estudantil e popular do Brasil. Além da reunião, que ocorre em São Paulo, eles estarão presentes em atividades no Rio e no Maranhão até o próximo dia 28. Hlokoza Motau, que começou a participar de movimentos sociais em 1988, quando a África do Sul vivia sob o regime do Apartheid, é dirigente do Departamento Internacional do NUMSA, Sindicato Nacional dos Metalúrgicos. "Os gastos com os estádios, em detrimento da saúde e da educação, são absurdos. Isto foi algo que também ocorreu na África do Sul", disse o ativista de 54 anos.

Já Thando Manzié, de 21 anos, é estudante da Universidade KuaZulu Natal, em Durban, uma das nove cidades-sede da Copa 2010. Em todo o período da preparação do país para o Mundial, ele participou dos protestos contra a Fifa e o torneio. "Sugiro aos brasileiros que se esforcem ao máximo, que se mobilizem nacionalmente", afirmou o ativista, que está no último semestre de geografia e gestão ambiental.

Segundo Manzié, após as manifestações a luta por direitos sociais avançou um pouco no seu país. Parte das desapropriações, por exemplo, fato comum na preparação brasileira, foi contida devido às mobilizações. "Sempre que elas (as manifestações) ocorreram, foram vitoriosas", lembra.

Outro ponto em comum com o Brasil foi a construção de estádios que após a Copa se tornaram elefantes brancos. Para eles, o número de sedes em 2014 poderia ser menor – a África contou com dez arenas. "Vejo que, assim como em meu país, a Copa aqui esta sendo feita com dinheiro publico, além dos elefantes brancos. Ela deixará enorme conta econômica para a população", afirmou Motau.

Ele lembra que um dos protestos foi motivado por uma das ações do governo sul-africano, que importou aço para as construções ligadas à Copa. Com isso, de acordo com o sindicalista, a dívida externa do país aumentou. Para Manzié, o endividamento que aconteceu na África certamente ocorrerá aqui.

O estudante de geografia sul-africano aponta outra semelhança entre os protestos brasileiro e sul-africano. Nos dois casos, a repressão foi instrumento da polícia. Manzié lembra de um amigo que acabou preso apenas por distribuir panfletos contra a Copa.

Os protestos contra a Copa 2010 tiveram início três anos antes do jogo de abertura. Em 2009, a apenas um ano do Mundial, uma greve na construção civil marcou a preparação sul-africana.

Motau e Manzié não participaram juntos das manifestações realizadas em seu país. O sindicalista é de Pretória, palco de seis partidas da competição. O estudante, por sua vez, ficou em Durban, cidade que recebeu sete jogos. Eles também não estarão em futuros protestos que ocorram no Brasil. E lamentam por isso. "Estaremos na África, mas nossos amigos contarão com todo nosso apoio de longe", finaliza Manzié.

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