Estadão
Estadão
Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Dúvidas

Terão os clubes do interior descido a níveis alarmantes ou seria a força dos grandes que aumentou numa proporção surpreendente?

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2020 | 04h30

Começou o Campeonato Paulista, e esse começo já me causou dúvidas consideráveis. Sou dos que acompanham o Paulista há longos anos, desde o tempo em que ele valia realmente alguma coisa, em que era disputado para valer e considerado uma competição maior. Gente como eu se acostumou a ver poderosas equipes do interior do Estado que metiam medo nos grandes. Jogar com a Ponte ou o Guarani em Campinas não era uma tarefa fácil.

Tomei esses dois times ao acaso, só para argumentar. Sempre houve outros que se destacaram. Não sempre, havia anos melhores e piores, mas o interior em seu conjunto era uma força. Ultimamente isso tem acontecido cada vez menos e quando um time inesperadamente se destaca, é sempre mais em virtude da pouca importância que os grandes atribuem ao Paulista do que por suas próprias qualidades.

O campeonato que começa, no entanto, até agora me surpreendeu pelo enorme desnível entre grandes e pequenos, o levanta uma dúvida: terão os clubes do interior descido a níveis alarmantes ou seria a força dos grandes que aumentou numa proporção surpreendente? Será que Corinthians, Palmeiras e São Paulo da noite para o dia mudaram completamente? Acho um pouco difícil, mas tudo é possível no mundo.

Essa hipótese é pouco crível mas pelo menos trás algum alento às torcidas. A hipótese da queda ainda maior dos clubes do interior é, ao contrário, desastrosa para clubes que já estiveram à beira da grandeza. Quem viu, como eu, Palmeiras x Ituano, Corinthians x Botafogo e São Paulo x Água Santa assistiu praticamente o mesmo espetáculo de só um time jogando, ganhando quando queria ganhar, sem fazer muito esforço para isso. Nunca tinha visto, e pode ser que o resto do campeonato acabe por me enganar. Um Botafogo tão frágil, tão pobre do que nesse jogo com o Corinthians. O Ituano a mesma coisa. Do Água Santa não é justo falar porque começou só recentemente a disputar campeonatos desse tipo.

No fundo o que me assusta são os times do interior. Acredito que as goleadas vieram mais por deficiência deles do que por milagres de Vanderlei Luxemburgo e Tiago Nunes. Uma das causas vem da tradicional desigualdade que existe no Brasil em qualquer compartimento da sociedade. Mas isso parece difícil de se aplicar tratando-se de cidades como Campinas, Ribeirão Preto, Piracicaba, ou mesmo Itu. São cidades pujantes, ricas, mas que ainda assim os clubes que as representam às vezes se comportam como se tivessem a dimensão de um Juventus, isto é, um clube de bairro de São Paulo.

Talvez um outro fenômeno explique isso e é o mesmo que acomete as classes médias e muitas vezes as baixas deste país que se pretendem cidadãos espirituais de Miami, Nova York e até do Maine. Digo cidadãos espirituais porque a realidade é um pouco áspera nesses casos. Quem realmente se aventura nesses lugares acaba muitas vezes por limpar privadas ou servir em restaurantes latinos. É mais fácil torcer para times daqui mesmo, mas das grandes metrópoles, fazer parte de torcidas gigantescas.

Fiquei um pouco chocado ao ver que, nas arquibancadas do Ituano, os torcedores de Itu eram uma minoria esmagada, espremida num cantinho, enquanto o resto do estádio torcia abertamente pelo Palmeiras como se estivessem no Allianz Parque. Nessas condições como fazer um grande time e, principalmente para que fazer um grande time? Para quem? Se os próprios cidadãos locais se sentem mais representados por um Barcelona, que conhecem apenas pela televisão, do que pelo time se suas cidades.

Esses times do interior têm apenas duas saídas. Ou de alguma maneira se fortalecem e adquirem outra estatura ou vão acabar. Não é possível que clubes outrora gloriosos se contentem na humilde condição de sparring para os grandes clubes terminarem de afiar suas garras visando outras competições.

Tudo o que sabemos sobre:
Campeonato Paulista

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.