E daí?

Nas bandas de cá, o que chamou a atenção na festa dos melhores mundo, anteontem, foi a vitória de Wendell Lira no quesito “gol mais bonito do ano”. Houve interesse porque se trata de brasileiro e, mais do que isso, de desconhecido, um simplório a intrometer-se em cerimônia de tubarões da bola. À parte o fato de que a jogada que o consagrou é linda, o prêmio soou como tremenda ironia e gozação. Onde já se viu um boleiro do Goianésia desbancar astros como Florenzi (Roma) e Messi?!

O Estado de S. Paulo

13 de janeiro de 2016 | 03h00

A agradável travessura provocada por eleição na internet foi o que de singelo e sincero se viu na cerimônia de gala em Zurique. A Bola de Ouro para Messi? Barbada, faz tempo que o argentino sobressai. Apostar nele é obviedade e nem rende boa grana aos que arriscam a fezinha. A seleção da temporada composta por atletas que atuam na Europa não surpreenderia sequer marciano que viesse de repente à Terra. Enfim, o ritual não passou de mais do mesmo, como em anos anteriores. 

Dois aspectos, no entanto, merecem reflexão. O primeiro: repararam como tudo transcorreu dentro da normalidade? Jogadores concorrentes, ex-atletas, técnicos, alguns cartolas, um monte de convidados - todos agiram como se nada de estranho está a ocorrer na Fifa, a principal gestora da noite. Todo mundo aplaudiu, os vencedores agradeceram o empenho da entidade no desenvolvimento do esporte, etc. e tal, e não se fez referência ao mar de lama em que ela se vê soterrada. Nada!

Ou, para ser justo: apenas um jornalista suíço perguntou para Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo o que achavam da corrupção, e obteve o silêncio como resposta. E pano rápido na coletiva, para não criar saia-justa. A família Fifa mostrou força, com a conivência generalizada - a imprensa incluída.

Como levar a sério uma iniciativa de instituição cujo presidente foi afastado e suspenso por corrupção? Que demitiu o secretário-geral também por suspeita de atos ilícitos? Que tem diversos figurões presos ou a responder processos por sonegação, associação criminosa e outros delitos? A Europa, centro do mundo da bola, também ficou sem o representante maior - Michel Platini, presidente da Uefa, tomou gancho de oito anos por deslizes. 

Há a justificativa de que se devem separar as coisas: a festa era reconhecimento aos que constroem a grandeza do futebol. Meia-verdade. Se jogadores e técnicos levaram os troféus, é imprescindível frisar que os receberam da Fifa. Ora, se a tendência é relevar, então se pode lembrar que bicheiros bancavam escolas de samba, que a máfia mantém obras de caridade, que traficantes são beneméritos em comunidades carentes. Estranha noção de ética. 

Segundo ponto: o Brasil, de novo, não levou o prêmio maior. Neymar, o astro solitário da atual geração, terminou em terceiro lugar, e a maior parte dos votos dele veio da periferia do mundo. Ah, mas resta a esperança de que, “a continuar a evoluir no Barcelona, um dia chegará ao topo”. Não chegou - e daí? E daí, se tivesse chegado? 

Não muda nada. Essa eleição serve para o ego do ganhador (nada contra ilusões pessoais), para os patrocinadores dele, para o time ao qual está ligado, para a família e amigos. E só. Não significa que o país de origem seja mais, ou menos, forte na bola. 

Melhor do mundo pode encher de orgulho os portugueses - e com razão, porque na história deles se contam em parte dos dedos de uma mão os astros que alcançaram fama mundial. Serve para alemães, italianos, franceses, espanhóis, em situação idêntica. Indiferente para brasileiros e argentinos, comprovadamente os povos que mais generosamente produzem craques no futebol.

Para preocupar, de verdade, uma constatação: o Brasil vive uma das piores entressafras de jogadores. Se até algum tempo atrás os fora de série escorriam pelo ladrão, hoje mínguam. Só há Neymar mesmo. Fase, apenas? Pode ser. Mas há algo de muito errado quando “o país do futebol” deixa de ver os craques brotarem como mato e em cada esquina.


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Antero Greco

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