Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

É hora de assumir o favoritismo

A seleção precisa ser aquele time que encantou nas Eliminatórias e nos amistosos

Robson Morelli*, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 04h00

Já ficou claro na Rússia que os grandes não terão vida fácil. Ninguém duvida mais disso. A distância das seleções apontadas como favoritas que desembarcaram no país de Putin e das outras ficou menor. A Fifa, com sua ideia estapafúrdia de aumentar para 48 o número de equipes na edição de 2026, a ser jogada nos Estados Unidos, México e Canadá, revelou ao Estado, para o repórter Jamil Chade, que vai distribuir US$ 4 bilhões para o desenvolvimento do futebol e de suas estruturas pelo mundo.

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A intenção é deixar os fracos mais fortes. E os fortes sem tanta facilidade. Na Rússia, já tem sido assim. Ocorre que alguns dos gigantes do futebol mundial se acomodaram em suas condições sem fazer jus à fama que levaram para o país-sede. A Alemanha foi um deles, o primeiro favorito a cair fora ainda na fase de classificação de grupos. Valeu-se da fama da conquista da última Copa, no Brasil, e de tudo mais o que fez até chegar à Rússia, e foi enganada pela própria imagem que construiu. A Argentina foi a segunda, com apresentações pífias e rasas, uma defesa sem confiança e, como sempre, apostando alto no talento de Lionel Messi. Isso sem pontuar a tomada de comando dos jogadores em desrespeito às ordens de Sampaoli. Foi eliminada pela França.

Outra seleção importante a deixar a competição sem se impor foi a Espanha, mas essa tinha um álibi que nenhuma outra tinha: a demissão do técnico Lopetegui às vésperas de a disputa começar. Hierro assumiu a bronca e tentou deixar a Fúria viva. Contra a Rússia, neste domingo, pelas oitavas, o que se viu foi uma campeã mundial (2010) sem alternativas para furar as barreiras russas no confronto em Moscou. Se valeu de um irritante toque de bola sem profundidade, sem dribles, sem conclusão a gol, sem qualidade. Foi cozinhada pela vontade e determinação dos jogadores russos, inferiores tecnicamente, mas dedicados ao esquema desenhado pelo técnico até a última gota de sangue e suor. Nos pênaltis, os espanhóis foram surpreendidos.

Então, me parece claro que nesta segunda-feira a seleção brasileira precisa assumir o seu papel de protagonista desta Copa do Mundo. As grandes seleções que vinham se arrastando – o Brasil também teve dificuldades nesse começo de competição, embora concordo com Tite quando ele diz que o time evoluiu da primeira para a terceira partida – não assumiram esse papel de protagonista na Rússia e deram adeus precocemente. O Brasil não pode se inferiorizar. E isso nada tem a ver com nariz empinado ou elenco mascarado. Isso tem a ver com o DNA de cada equipe no torneio.

O Brasil nunca será coitadinho numa Copa. Não existe mais a condição de vira-lata a um país pentacampeão, por mais que sejamos exigentes.

 

Neymar, Philippe Coutinho, Gabriel Jesus e todos os outros jamais vão admitir isso em público ou nas redes sociais, embora todos eles saibam exatamente o tamanho que a seleção brasileira tem nesta e em outras Copas do Mundo, sobretudo depois de ver a lista dos rivais que já pegaram o avião de volta para casa, como Alemanha, Argentina, Espanha e Portugal. O caminho está livre, ou mais livre do que antes. O Brasil só precisa jogar e assumir sua condição.

Ou seja, a seleção precisa ser aquele time que encantou nas Eliminatórias e nos amistosos, com volume de jogo, com vontade de jogar e de ser protagonista. Individualmente, os jogadores brasileiros brigaram tanto para compor a lista dos 23 de Tite e agora devem à nação um pouco mais de futebol bem jogado, de alegria dentro de campo, de confiança e gols, muitos gols.

O México não dará essa chance ao Brasil, assim como nenhum outro rival – se passar, a seleção encara o vencedor de Bélgica e Japão. Como disse, essa distância do bom para o ruim é menor. Cabe então ao Brasil aumentá-la já nas oitavas. O torcedor brasileiro estava ressabiado com a seleção, chegou a duvidar dela em alguns jogos, senão nos três feitos na primeira fase da competição, mas minha percepção agora é de mais confiança no time nacional. Já que chegou, agora ganha. Isso tem muito a ver com a apresentação diante da Sérvia, com a fase de Philippe Coutinho e com a atuação sóbria de Neymar. Que repitam. Também há uma ponta de fé e segurança porque o jogo é contra o México, um bom rival, mas que já fez seu milagre na Rússia, ganhar da Alemanha de 1 a 0 na estreia.

  

*EDITOR DE ESPORTES DO ‘ESTADÃO’

 

 

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