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É justo falar de futebol?

Esporte deve seguir por conta dos profissionais que trabalham com ele e famílias que ajuda a sustentar

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2020 | 04h00

A pergunta do título é relevante na medida em que se agravam os problemas que assolam o país. Quem vai se ocupar de futebol, quando o coronavírus é uma fonte de angústia permanente, na medida em que não se sabe bem o que está acontecendo? O que se sabe é que entrou um novo ministro, que “precisa de tempo” para poder agir. E a mortalidade parece aumentar. Ou não? Também ninguém consegue informar precisamente.

A política vive assombrada pelos porões do Planalto, que viveu na sexta-feira seu lance mais dramático com o desabafo público, de 40 minutos, no qual o ministro que supostamente dava o aval moral a este governo se retira exatamente denunciando problemas morais. São essas bombas explodindo sucessivamente que dão razão à pergunta: vale a pena falar de futebol hoje?

Sim vale, por um motivo não tão difícil de compreender. Há muita gente que depende do futebol para viver e não pode parar. Não tem o direito de parar se quiser levar pra casa o que resta dos salários. Me refiro a uma verdadeira legião de cronistas, repórteres, jornalistas especializados, que compõem um vasto campo dedicado a divulgar o futebol. Apesar de estar escrevendo sobre futebol há muitos anos, ainda não me considero um deles. Não tenho esse direito, porque minha profissão é outra, mas todo esse tempo fez com que eu, de alguma forma me aproximasse deles, fizesse amigos, mesmo distantes. Amizade forjada mais pelo gosto em comum do futebol do que pela frequência constante.

Aprendi e admirar essa grande quantidade de profissionais que surgiram nas últimas décadas, gente que faz do futebol realmente sua profissão. Havia isso no passado. Cronistas, críticos, narradores sempre existiram e eram bons. Só que não eram muitos e sempre me pareceu que uma boa parte exercia concomitantemente outras profissões que completavam seus orçamentos. Gente que se dedica em tempo integral, que estuda, pesquisa, viaja, acorda pensando futebol e vai dormir pensando futebol é coisa bem mais recente. Às vezes, como sou de uma geração muito anterior, me irritam e discordo. Mas respeito, talvez pelo velho hábito de admirar o esforço de estudar e de saber.

É a eles que dedico esta coluna. A esses profissionais que pela primeira vez em suas vidas viram o chão lhes faltar porque lhes falta o futebol. E nem assim se rendem. Falando e debatendo de suas casas, com som precário, imagem sem qualquer confiabilidade, falam de futebol. Ou de esportes. Dá para ler em seus rostos a preocupação e a dificuldade de superar esse momento, mas não pararam. Faço questão de ouvi-los e vê-los, essa é minha forma de solidariedade.

Vejo naquelas falas interrompidas e entrecortadas, cuja imagem é tão precária que quase não os reconheço, uma forma de resistência notável e do amor ao que fazem. Há uma aflitiva espera na expressão de cada um. Uma espera do dia em que as coisas vão voltar ao normal. Será que voltarão? Qual será o normal da volta, tão ansiada? Criar notícia da não notícia, debater num deserto de silêncio, opinar quando mal se compreende o que falam.

A atitude dessa geração de comentaristas de futebol, acrescida de alguns craques do passado, é uma forma de resistência clara a um desmando, tanto da natureza, como da vileza dos homens, uma forma de permanecer em pé. Não importa se o equipamento não é o mais adequado, importa que esteja funcionando. É um momento em que o conforto pessoal e o esmero técnico passa a não ter nenhuma importância.

O que vale é o gesto. E é importante para todos os espectadores verem que seus comentaristas estão lá como uma resposta adequada a tempos tão terríveis. Se o futebol, graças a essa turma de jornalistas, está vivo apesar de sequer existir, se continua, mesmo sem ninguém em campo, por que não o País? Por isso vale a pena falar de futebol.

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