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Fim da temporada do futebol brasileiro começa a gerar 'crises de abstinência' nos torcedores

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2017 | 03h00

Na televisão da padaria jogavam Independiente e Flamengo pela final da Sul-Americana. Eu, quase completamente alheio ao jogo, tentava tomar uma oportuna cervejinha. Ao meu lado, em outra mesa, se sentava um velho conhecido, também com uma cerveja diante de si. Só que, notei, ele olhava o jogo atentamente. Conheço-o há muitos anos, sei qual é o time pelo qual torce e sei muito bem que não é o Flamengo, muito menos o Independiente. No entanto, ele mal notou minha presença, ligado totalmente na TV. Fiz uma ou duas vagas observações, respondidas por monossílabos.

Ele mal entendera o que eu tinha falado, olhos grudados no vídeo. De propósito, só para provocar, comecei a lançar vários assuntos. Dos monossílabos ele passou a olhares cada vez mais ameaçadores e no fim vi que, com a brincadeira, corria o perigo de terminar uma velha amizade. No entanto, é uma pessoa racional, de bom trato e boa índole. Devo dizer que havia mais pessoas na tal padaria, a maioria, como meu amigo, fixada no jogo. Sei que o Flamengo tem muita torcida em São Paulo, mas não àquele ponto. Tentei decifrar o mistério de tanta atenção e me dei conta da transmissão. Percebi que o narrador falava como se cada um de nós fosse um torcedor do Flamengo. Não era uma transmissão isenta, como de hábito. Era uma transmissão que dava como certo que todo mundo que a assistia deveria estar torcendo para o Flamengo, talvez porque o adversário fosse um clube argentino.

O narrador assegurava a todo momento que o Flamengo jogava bem, que o empate era um ótimo resultado e, enfim, quando nem isso era possível, vaticinava que, no Maracanã lotado, no próximo jogo, tudo seria diferente. Seria essa convocação ao patriotismo que fazia com que meu amigo ao lado não desgrudasse os olhos? Um detalhe, porém, me chamou a atenção: no momento em que o Flamengo abriu a contagem o narrador exultou, mas, para meu estupor, meu amigo, e também outras pessoas na padaria, ficaram indiferentes ao lance. Continuaram olhando fixo, porém sem emoção maior.

Fiquei intrigado com a diferença entre a atenção extrema dada ao jogo e a indiferença quanto a um momento crucial do próprio jogo. E teve mais: nos dois momentos em que o Independiente, primeiro empatou, depois virou a partida, os frequentadores da padaria igualmente não esboçaram qualquer desgosto, ao contrário do narrador da TV que não cessou mais de lembrar do próximo jogo no Maracanã. Em suma, a coisa era bem esquisita. Que tanto interesse podia haver naquela partida a ponto da cerveja do meu amigo ficar no copo sem ser tocada?

O fato é que, quando o jogo terminou, ele se virou como se me visse pela primeira vez na noite, bebeu um pouco de sua esquecida cerveja e iniciou um papo amigável, sem ligação com o jogo. Nesse ponto me lembrei de um capítulo de “Dando tratos à bola” o livro do professor Hilário Franco Jr., chamado “Meu vício é você”, que talvez ajude na solução do enigma. Estávamos numa quarta-feira, noite sagrada do futebol na telinha. E meu amigo apenas cumpria um ritual no qual estava viciado. Como um dependente químico qualquer, tinha que suprir sua dose das quartas, não importando o jogo. Não podia passar sem a dose, isto é, o futebol da TV.

Abastecida sua necessidade, tinha voltado a ser a agradável pessoa que era. Sua crise era às quartas, mas outras pessoas podiam ter outro dia marcado com o vício. Quantos de nós podem passar muito tempo sem uma TV onde transcorre um jogo, qualquer jogo? Desconfio que poucos. Por isso, espero que tudo recomece logo no futebol. Esse negócio de férias e pré-temporada deve ser abreviado. Já deve ter gente com crise de abstinência por aí e, nessas circunstâncias, tudo pode acontecer.

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