FABIO MOTTA/ESTADÃO
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'É possível superar qualquer acidente', diz Ricardo Gomes

Técnico comemora retorno ao futebol quatro anos após sofrer AVC

Entrevista com

Ricardo Gomes

Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2015 | 17h00

Era 28 de agosto de 2011 e Vasco e Flamengo realizavam mais um clássico carioca. À beira do gramado, Ricardo Gomes dirigia o cruzmaltino quando começou a se sentir mal. Precisou ser carregado até uma ambulância e teve constatado um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Passou por cirurgia e ficou 21 dias internado, 15 dos quais no CTI. Ficou um bom tempo sem falar e com parte do lado direito paralisado. Quatro anos depois, Gomes voltou a ser técnico. Em agosto, foi convidado para dirigir o Botafogo com a missão de devolver o time à Série A. Cumpriu o desafio há três semanas, com três rodadas de antecipação. De quebra, levou o título.

Na quarta-feira, após comandar um dos últimos treinos antes do fim da temporada, o técnico recebeu o Estado para uma conversa no Engenhão. Falou de sua recuperação e de futebol. Apesar do retorno à elite, reconheceu que o Botafogo “não foi espetacular”. E se disse feliz. “Graças a profissionais capacitados, eu voltei.”

Por que a escolheu retornar aos campos pelo Botafogo?

Eu não escolhi, não. Recebi o convite e não podia negar. Foi a primeira vez que recebi um time na liderança. Tivemos uns problemas no início por causa da troca de jogadores, mas conseguimos encontrar soluções. O Jair Ventura (interino) continuou como meu auxiliar e ajudou bastante. Todo o trabalho desde o início do ano, com o Renê (Simões, ex-treinador), com o (Antônio) Lopes, e lá no início com o Carlos Alberto Torres, enfim, todos os departamentos do Botafogo foram extremamente profissionais.

A sensação é de dever cumprido?

Sim, com certeza. Não fomos espetaculares, sabemos disso, mas fizemos bons jogos e classificamos com folga.

E pessoalmente, como avalia?

Não poderia ser melhor. Ainda tenho algumas deficiências, não estou totalmente recuperado e não sei se vou conseguir. Tenho uma pequena afasia (perda da capacidade de linguagem) e a mobilidade ainda é um pouco complicada - não pelo acidente (AVC), mas por um joelho antigo, que dá muito trabalho. Estou fazendo de tudo para me recuperar, mas não vai ser fácil.

Como você fez para ficar por dentro do futebol no tempo em que ficou afastado?

Na primeira parte eu foquei na minha recuperação total, não pensava em futebol, eu via só pela televisão. Televisão você não vê o jogo (com olhar analítico), é mais para um torcedor do que para um profissional. Foram assim nos dois primeiros anos, depois eu voltei a trabalhar como diretor no Vasco. Aí eu conversei com a diretoria porque eu achei que poderia voltar a ser treinador, que é o que eu gosto, que eu sei fazer melhor. Voltei pra fisioterapia, natação, musculação, muita fono, e melhorei bastante. 

Como você avalia o futebol brasileiro na atualidade?

Nosso futebol continua com bons jogadores, mas há uma perda (para o exterior) de jogadores muito novos. Você pega 2014 e fala em mudança drástica porque teve uma Copa do Mundo que deu no que deu. Eu acho que com clubes fortes temos seleções fortes, e com clubes fracos temos seleções fracas. A solução seria os jogadores ficarem nos clubes, mas qual a situação econômica deles com raríssimas exceções? A formação poderia melhorar, mas os jogadores saem muito cedo e há uma perda de identidade do nosso futebol. Estamos copiando o futebol europeu.

E isso é ruim?

Não, não é. Temos de estar sempre muito bem informados. É pesquisa. Esquece o futebol, pesquisa em qualquer setor é na Europa ou no Brasil? No Brasil estamos começando, a Europa está muito à frente. Com o futebol não é diferente, em método de treinamento eles investiram muito mais do que nós. Temos de recuperar a maneira de jogar, com os nossos grandes jogadores do passado, é isso que nós perdemos. E não é de agora.

Está gostando da seleção?

No último jogo fomos muito bem. A seleção brasileira depende dos clubes brasileiros - clubes fortes, seleção forte. Aí você coloca os melhores do Barcelona, do Bayern, do PSG, do Liverpool, mas não depende só deles. Olha o caso do Corinthians do Tite, que forneceu quatro jogadores à seleção. Há muito tempo que isso não acontecia. Isso é representativo. Tem como fazer, não esquecemos como fazer.

Qual é a sua expectativa em iniciar a temporada na Série A?

Não vejo nada diferente. É a primeira vez que trabalho na Série B, que também é um bom campeonato, mas acho que o Botafogo não deveria estar. Assisti ao filme do Nilton Santos e é um espetáculo. A história do nosso futebol está ali.

O que pretende fazer nas férias?

Não sei se vou tentar melhorar minha mobilidade, tenho de operar de novo o joelho. Não sei se vou curtir ou vou continuar nessa luta.

Termina o ano feliz?

Sim, e independente do futebol. Só tenho a agradecer porque conheci pessoas competentes e pessoas boas na minha recuperação, médicos, terapeutas, tive duas fonoaudiólogas de grande categoria. Eu não falava nada, e quando voltei pra vida depois do coma era só em francês ou em português de Portugal. Eu vim de longe, e graças a profissionais capacitados eu voltei. Não sou exemplo para ninguém no esporte, mas acho que para pessoas que estavam pensando em voltar a trabalhar foi legal. É possível superar qualquer tipo de acidente, vascular ou não. É possível, sim.


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