Arte/Estadão
Arte/Estadão

Roger Machado: 'É preciso abrir espaço para os ex-atletas'

Técnico analisa a situação do futebol brasileiro, em mais um capítulo do FUTEBOL EM DEBATE criado pelo Estado

Leandro Silveira, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2019 | 04h30

Unir teoria futebolística com a experiência dos ex-jogadores é a aposta de Roger Machado para o Brasil retomar a supremacia em campo. Destacando que o jogador brasileiro ainda é o mais cobiçado no mundo, o treinador do Bahia, em entrevista ao Estado para a série Futebol em Debate, aponta a necessidade de se aliar a tática ao talento em uma fase vista por ele como de transformação - e não de crise. Confira os outros capítulos com: Paulo Roberto FalcãoRivellino, Emerson LeãoMuricy RamalhoDorival JuniorCarlos Alberto ParreiraAlex e César Sampaio.

Você acha que o futebol brasileiro está em crise?

A palavra crise não me soa bem. Se pensarmos que de todas as Copas ganhamos cinco, nesses momentos de hiato sempre se fala em crise. Vejo como um período cíclico e de reflexão para essa brecha sem títulos. Mas não vejo crise na formação ou no futebol brasileiro interno. Vejo um período de transformação. 

O que seria essa transformação?

O futebol veio ao Brasil pela mão da elite e se popularizou. Pela nossa miscigenação, criamos jogadores que têm uma virtude artística peculiar, que é a de passar com a bola pelo oponente, sendo que jogamos o futebol com quatro elementos: o jogador, a bola, o espaço e o tempo. O nosso futebol tem a bola e o jogador como primordiais. A Europa percebeu que para competir com a gente, precisava mudar a ordem dos fatores, colocando o espaço à frente do homem. Alterando essa ordem, impediu o avanço dos jogadores mais habilidosos. Quando falo em transformação, é por precisarmos compreender que você não deve ter vergonha do futebol pragmático, mas compreender que é uma forma de superar a nossa capacidade.  A preocupação que tenho é a nossa formação. Na medida em que você altera a ordem dos fatores, você vai deixar de ter o jogador que passa pelo adversário com a bola. E aí podemos entrar em uma crise maior e deixar de ter o jogador que o mundo inteiro quer. Também está mudando a característica física e fisiológica do jogador, que se tornou mais potente, mais resistente. 

O que é preciso adaptar na formação dos jogadores?

Nós ex-atletas entendíamos que a pratica já seria suficiente para ensinar um menino a jogar a bola. Mas há algumas capacidades que deixamos de procurar. Em um intervalo de 20 anos, entraram profissionais sem vivência no campo e que leram muito, se abasteceram de literatura sobre tática de fora do País, da bola/zona. Gradativamente se reduziu a exposição ao bola/homem, que é o que gera o jogador diferenciado.  Não podemos perder a essência, que é o que o clube europeu tem buscado cada vez mais aqui, tirando o jogador daqui cada vez mais cedo para tê-lo sem os vícios. 

A saída precoce de jogadores atrapalha a manifestação da essência do futebol brasileiro?

É um processo mundial, mas não atrapalha porque os clubes europeus desejam esse jogador exatamente pelo drible. Temos que nos adaptar a esse cenário, o processo econômico é esse e só poderia ser impedido através de um decreto. Tem centenas de brasileiros jogando a Liga dos Campeões. O que aconteceu foi que nossos principais competidores beberam da nossa essência. Somos uma indústria que exportou a matéria-prima, que é o jogador, mas também os nossos técnicos, que foram ensinar a esses mercados. Eles absorveram os conhecimentos, formaram seus próprios conceitos, desenvolveram metodologias para sobrepor às nossas, e nós não investimos e fomos ultrapassados.  

Como reverter a perda de jogadores para economias mais frágeis?

São ligas organizadas. Ouço jogadores que vislumbram ouvir até a música de entrada em campo Liga dos Campeões. A liga inglesa não era atraente 20 anos atrás, mas se organizou e tem jogadores de várias origens. Hoje, todo mundo para e quer ver. 

Eu achava o campeonato de pontos corridos o mais justo, mas hoje tenho dúvidas. É justo para quem se organizou ter o melhor time e os melhores profissionais, mas a diferença financeira gera desequilíbrios que tornam a liga pouca atrativa, com só dois ou três times competindo pelo título.

É preciso organizar o calendário para você ter o jogador descansado, você ter espetáculo melhor, times mais bem treinados, para vender melhor o campeonato. Como vender lá fora um campeonato que se muda o horário e a data do jogo a cada momento?

Temos potencial, com organização, de ter a melhor liga, com os jogadores que estão na idade produtiva voltando ao Brasil, elevando o nível do futebol, com nossa liga sendo referência, com todos olhando para cá. 

O 7 a 1 foi um marco da defasagem do futebol brasileiro. Mas o que foi feito a partir dele?

A humanidade evolui aos soluços, com alguns eventos marcantes e que tornam os processos mais abruptos, algo que nem considero ideal. O 7 a 1 foi um desses eventos. A partir dali, se enxergaram que, alguns profissionais com grande contribuição ao futebol brasileiro, não serviam mais. E passou a se enxergar que tudo de novo era moderno. Esse foi o grande problema do 7 a 1: exigiu uma ruptura que deveria ser gradual. O que de bom se fez foi o surgimento de cursos. Começamos a falar mais de futebol, os profissionais passaram a compartilhar mais informações, para pensarmos o futebol como um todo. 

 

Até que ponto o calendário problemático do futebol brasileiro afeta a qualidade do jogo e atrapalha o trabalho dos técnicos?

De um lado você precisa ser muito criativo no desenvolvimento de metodologias para trabalhar tudo o que você precisa. Por outro, surge a urgência dos resultados de curto prazo que faz os gestores interromperem trabalhos de treinadores por projetos de poder nos clubes. Não adianta culpar a detentora dos direitos de transmissão se ninguém regulamenta isso, pensando no bem do futebol. 

Nos últimos dez anos no mundo, tem 30 clubes brasileiros entre os 50 que mais jogaram. Isso é impactado pelos estaduais. Deveriam haver mais divisões nacionais, permitindo que o clube tenha um calendário completo. Quando fui trabalhar no Novo Hamburgo, fui contratado em novembro e só tínhamos cinco jogadores. Fui olhar jogadores em DVDs e currículos e iam dispensando todos porque estavam há oito meses sem jogar. Mas era o que tinha, porque eles estavam fora do mercado desde março, iam trabalhar outras funções. É um hiato de oito meses na formação futebolística. E fica impossível cobrar bom nível técnico e tático.

Como seria o calendário ideal do futebol brasileiro?

O que impacta são os jogos dos estaduais. São três dias para cada jogo e se o estadual tem 15 datas, são 45 dias. Isso poderia permitir uma pré-temporada maior e ainda espaçar os jogos. Para isso acontecer, você precisa de divisões nacionais maiores, com conferências, por exemplo. Temos quatro divisões e vemos países bem menores com dez. Os estaduais estão na nossa cultura e poderiam virar supercampeonatos, com os times da primeira divisão entrando apenas na fase final. E com os outros disputando vagas em uma divisão nacional, lhe dando um calendário maior. Você respeitaria as Datas Fifa, ainda mais que hoje o Brasil também é comprador na América do Sul e esse jogador ou é selecionável ou se torna assim que chega aqui. Não é difícil pensar isso, talvez seja para executar. Precisamos de alternativas para os times jogarem o ano inteiro.   

O técnico se sente pressionado no cargo e isso afeta o futebol apresentado em campo pelos clubes?

Precisamos fazer um exercício quase diário para que essa pressão não mude o que você busca executar. Pressionado pela busca do resultado imediato, em muitos momentos você pode sucumbir a essa pressão e mudar. Não acredito no futebol só como resultado. É preciso trabalhar também o aspecto plástico, que é o que leva o torcedor ao estádio. Mas futebol bonito não é só gol. É preciso observar o ponto de vista estratégico, começar a ter gosto por outros valores dentro do jogo que vão além do drible e do gol.

A união entre os técnicos é a ideal? E qual é a força de vocês?

Antes entendíamos que o segredo do sucesso era esconder. Hoje sentamos nos cursos da CBF, há eventos que nos aproximam... Penso que a gente fala muito e discute o futebol brasileiro. Mas precisamos de mais eventos e ações concretas. E que os profissionais que viveram o campo e se preparam sejam mais absorvidos nos clubes e na CBF. Precisamos abrir esses espaços. 

Como a desorganização do futebol brasileiro impacta na seleção?

Para mim, o que impacta é o ponto de vista político da gestora do futebol brasileiro, com os escândalos de são de conhecimento público. Isso joga no comandante da seleção e da própria seleção uma desconfiança. O torcedor usa o futebol como rota de fuga para os seus problemas. E aí vê com desconfiança um profissional que era uma unanimidade quando foi escolhido. E hoje já se tem dúvidas sobre ele (Tite). A instabilidade é gerada no processo.  O que observo nos clubes que me sondam é como funciona a estrutura política do clube. Na minha opinião, a estrutura administrativa e a política do clube estão alinhadas, o campo é uma consequência. Não é diferente com a seleção, onde tudo é amplificado. É preciso ter estabilidade para geri-la.   

A obrigação de ganhar a Copa América em casa atrapalha a renovação e preparação do Brasil para o Mundial de 2022?

Atrapalha tanto quanto a gente não ter desejado viver um segundo Maracanazo na Copa de 2014. O orgulho de jogar em casa misturado com medo de repetição de 1950 gerou uma pressão muito grande. A Copa América está se transformando nisso por outros elementos, pela continuidade do trabalho do Tite, que antes era unanimidade e hoje enfrenta questionamentos que não procedem por estarmos no meio de um ciclo e de uma renovação, que precisa ser gradativa e com a passagem do bastão, como guarda-chuva e suporte, pelos mais calejados. A pressão vai entrar em campo, gerar constrangimentos, mas pode também gerar benefícios.  

Como você enxerga o "pacote" Neymar e como lidar com ele?

Não concordei com a atitude dele, mas também não podemos só apontar o dedo de cobrança de mudança de postura. A maturidade vem com a idade e com o aprendizado dos erros. Não tenho dúvida de que o Neymar vai ser o melhor do mundo e é uma grande figura do futebol mundial. Muitas vezes, a idealização do outro e a expectativa é o que nos frustra. Alguém já se perguntou se o Neymar quer ser o que a gente quer que ele seja? Ou se ele está satisfeito com o momento dele, sem tanta expectativa? 

Por que o ex-jogador não está tão presente no ambiente do futebol, especialmente na gestão?

É uma briga de classes. Enquanto atleta você desfila o talento artístico e é muito bem-vindo nessa estrutura. Depois, quando você deseja subir nessa hierarquia chamada futebol, essa porta é fechada, como se você só tivesse um lugar na estrutura hierárquica, a mais baixa, perto do campo. E não em áreas administrativas e de intelecto. É como se o ex-atleta só tivesse inteligência para o jogo, não para a gestão. O futebol reflete a vida e a nossa sociedade. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.