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Política aprende o lado podre do futebol: da intolerância, ameaças e mortes

Clubes ainda conseguem segurar seus torcedores pela paixão das partidas e vitórias, mas clima das eleições no Brasil pode rachar torcidas

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2022 | 05h00

Não é de hoje que candidato ou candidato eleito se vale do futebol para aferir sua popularidade. Alguns dos últimos presidentes do Brasil usaram desse expediente como um termômetro de suas ações. Lula sempre teve sua imagem associada ao Corinthians, que ontem segurou a arrancada do Flamengo na Neo Química Arena, estádio erguido para a Copa do Mundo de 2014, cujo ex-presidente abraçou lá atrás e teria trabalhado por ele dentro do governo. Dilma Rousseff foi a cara da Copa, mas sua imagem não podia aparecer nos telões dos estádios. Era vaia na certa. Jair Bolsonaro já vestiu a camisa de muitos times em suas aparições no futebol. 

Todos esses presidentes dividiram o gosto popular nas arenas, entre vaias e aplausos, incentivos e críticas. O Fla-Flu do futebol, no entanto, ainda se mantém longe das eleições que se avizinham. Mas não se sabe até quando. Refiro-me ao Fla-Flu das arquibancadas.

A política aprendeu e leva para a eleição presidencial de outubro o que há de pior no futebol nacional, que é a não aceitação de bandeiras e cores diferentes.

Nos estádios paulistas, por exemplo, não há torcedores das equipes rivais juntos, como Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos. Os clássicos têm torcida única. Não há duas torcidas porque não existe respeito, tampouco tolerância para andar na mesma calçada, para ficar na mesma fila, para beber da mesma água. Nem para ouvir opiniões diferentes. 

Muitas famílias “deram um tempo” no almoço de domingo porque quando o futebol invadia a mesa, era briga na certa. Não há nenhuma aceitação.

Nas ruas, trens e ônibus, locais públicos sem mando, a pancadaria come solto. O futebol continua contando seus mortos. Por vezes, matando inocentes. Sempre ouvi dizer que as torcidas foram tomadas por criminosos e traficantes, que o PCC passou a dar as cartas nas uniformizadas. O comando é que controla tudo.

O fato é que as brigas absurdas e sem inteligência do futebol, condenadas há anos por todos, estão dando lugar para as discussões acirradas, ameaçadoras e armadas da política, como ocorre em todos os cantos do planeta. Quem não se lembra da invasão ao Congresso dos EUA? Na semana passada, o ex-primeiro ministro do Japão, Shinzo Abe, foi baleado e morto quando discursava para as próximas eleições. Bolsonaro recebeu uma facada. O mesmo clima bélico dos estádios, uma praga no futebol, é visto na pré-eleição do Brasil, com bombas de fezes de um lado e morte de outro, a exemplo do que aconteceu em uma festa particular de aniversário.

As arquibancadas, em sua maior média de público no futebol brasileiro, ainda estão longe dessa polarização eleitoral, mas não se sabe até quando se manterão em silêncio. Por ora, os times conseguem unir seus seguidores em torno dessa paixão chamada futebol. Por ora!

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