Alejandro García/EFE
Alejandro García/EFE

Efeito Barcelona

Sucesso do time espanhol com três baixinhos geniais faz mudar a forma como os clubes brasileiros encaram o trabalho de formação, até então priorizando a estatura e a força física

Anelso Paixão - O Estado de S. Paulo,

23 de outubro de 2011 | 12h10

SÃO PAULO - Foram necessários um time espanhol e um craque argentino para o futebol brasileiro redescobrir sua essência. No embalo do fabuloso Barcelona e do genial Messi, os clubes nacionais já falam em mudar a filosofia do trabalho de base. Acostumados a privilegiar a força física e, principalmente, à conquista de títulos durante a formação, os times já admitem que essa fórmula não é a ideal.

Agora, entendem que garotos inferiores fisicamente, mas com visão de jogo e habilidade acima da média, podem fazer toda a diferença no futuro.

O Barcelona, com seu trio de baixinhos feito em casa - Xavi, 1m70, Iniesta, 1m70, e Messi, 1m69 -, vem encantando o mundo com toque de bola refinado, velocidade impressionante e ofensividade que há tempos não se via.

“O Barcelona é a referência que salta aos olhos. É um case de jogar futebol, embora num raio X mais minucioso não seja essa maravilha toda na parte administrativa, mas ainda assim é um caso evidente de sucesso”, afirma o Diretor Executivo da Universidade do Futebol e mestre em Filosofia da Educação, João Paulo Subirá Medina. “É um clube excepcional porque a maioria de seus jogadores são formados na base, o que se torna um ponto fora da curva na atualidade.”

No Brasil, a exceção tem sido o Santos, que coleciona poucos títulos nas categorias menores, mas oferece grandes craques para o profissional, casos de Neymar, Ganso, Robinho e Diego, quatro das maiores revelações na atualidade.

Especialista no assunto, Medina explica que os dirigentes esportivos não conseguem enxergar as necessidades do trabalho de formação em sua plenitude. “Para o ‘hardware’ já caiu a ficha, porque os clubes têm centro de treinamento, campos bem cuidados, academia, estrutura física, mas para o ‘software’, que é o investimento na capacitação profissional, na integração do trabalho entre as diferentes áreas, isso ainda não.” E filosofa. “É um problema de teoria do conhecimento. Evoluímos muito na especialização, com excelentes profissionais, mas incapazes de fazer um trabalho integrado que o esporte exige.”

O professor destaca no caso do Barcelona a importância de um profissional de visão. “O Barcelona criou uma diretriz há 23 anos, com o Cruyjff (em 1988, quando assumiu o cargo de técnico). A instituição não pensa, quem pensa são os homens que a dirigem. Essa filosofia se mantém até hoje. No Brasil, a filosofia muda a cada má jornada do profissional e a cada troca de técnico.”

Na tentativa de largar na frente nesta empreitada que a formação de base pretende assumir, o São Paulo mudou o comando das categorias de base em 2009. O professor Marcelo Lima, bacharel em Esporte pela USP e especialista em fisiologia do exercício, vem coordenando uma reformulação. “Pensamos em formação e não em resultado. Desde 2009, mudamos o critério de seleção. A estatura, por exemplo, não é fundamental para resultados. A Espanha foi campeã do mundo e era a 8.ª seleção em tamanho de atletas na Copa, enquanto a Sérvia, a 1.ª, não passou da primeira fase”, explica.

O coordenador garante que, para isso dar certo, porém, é necessária uma mudança no comportamento também dos dirigentes. “A diferença é não ter a cobrança de se ganhar títulos nas categorias menores, tanto que nem disputamos o sub-13 e o sub-14. No sub-15, fazemos rodízio de atletas.”

AVALIAÇÃO COMPLEXA

O mais difícil nesta nova forma de avaliação, no entanto, é encontrar critérios concretos para detalhes tão subjetivos quanto inteligência de jogo e visão tática, bem diferentes de aspectos físicos facilmente mensuráveis como altura e peso.

De acordo com Lima, o clube encontrou uma metodologia. Para a questão da inteligência de jogo, é feito um teste tático, um jogo de três contra três, em que são avaliadas todas as ações, com e sem bola, e é criado um histórico ofensivo e defensivo. Um segundo ponto avaliado é a idade biológica. Para isso, são realizados quatro exames: o primeiro é o crescimento anual, em que é possível se detectar o pico de evolução; o segundo é o raio X do punho, que determina a maturação óssea; o terceiro é o da maturação sexual; e o quarto é o raio X dentário. Tudo isso para se definir a idade biológica exata.

A avaliação final passa, então, por uma média de todos estes aspectos. A aprovação ou não do garoto depende desta média entre as partes técnica, tática e física, com pesos diferenciados em relação a cada um delas. A técnica tem peso 3, a tática, 2, e a física, 1.

NA CONTRAMÃO

Nem todos os clubes, porém, pensam assim. O Corinthians garante que não dá para abrir mão de montar times competitivos e de brigar por títulos, mesmo na base. “No Corinthians é assim, a gente sempre entra em qualquer competição para ser campeão. A base tem de revelar, mas não pode abrir de ter times competitivos”, diz Fernando Alba Braghiroli, diretor do futebol amador. “É preciso se chegar a um meio-termo.”

Braghiroli faz questão de explicar que o fato de o clube não revelar um Neymar não significa que o trabalho não esteja sendo bem feito. “Fica a impressão que a base não funciona porque não tem um Neymar, mas lançar alguns jogadores, ainda que não sejam gênios, é uma forma de mostrar que a base está trabalhando bem.”

O diretor ainda destaca que a boa situação financeira do clube acaba indiretamente conspirando contra o trabalho de formação.“Tem de entender o momento econômico do Corinthians, que é excepcional e muito diferente da realidade do futebol brasileiro. Hoje, o grau de exigência para um atleta chegar ao profissional é muito alto”, destaca. “Situação diferente da que o Santos viveu quando lançou Diego e Robinho em 2002. Naquela época, o Leão dizia que não tinha time para entrar em campo. Por incrível que pareça, isso ajudou.”

O aproveitamento dos garotos no profissional é, portanto, o desfecho de todo o projeto. Por isso, alguns clubes sofrem com as poucas oportunidades oferecidas. No São Paulo, Lima garante que existe integração entre as áreas. “Quando chega no topo da pirâmide, que é o profissional, precisamos entregar atletas prontos e, em contrapartida, sempre tivemos as portas abertas.”

O desafio a partir de agora, porém, é fazer o Brasil redescobrir sua essência e provar que, quem um dia já foi o País do futebol, não pode ficar eternamente apenas reverenciando o futebol mágico do Barcelona e de Messi.

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