Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

'Elas não têm o respeito que merecem', diz Emily Lima

Para treinadora, o anúncio de aposentadoria de algumas jogadoras junto à seleção é apenas em parte por solidariedade a ela

Entrevista com

Emily Lima, ex-treinadora da seleção feminina

Marcio Dolzan /Rio, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2017 | 07h00

Demitida na semana passada, a treinadora Emily Lima considera que o anúncio de aposentadoria de algumas jogadoras junto à seleção é apenas em parte por solidariedade a ela. "A minha saída só acrescentou a não aceitação de não ter o respeito adequado, de não ter o respeito que elas merecem", declarou, ao Estado. Ela criticou o coordenador da seleção feminina, Marco Aurélio Cunha que, a seu ver, não tem toda "essa vontade, essa briga de melhorar, de gostar do futebol feminino" que ele diz ter. A técnica retornou nesta quinta-feira à noite a São Paulo e diz que vai descansar antes de definir a sequência de sua carreira.

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Como está vendo a decisão de algumas atletas de não defenderem mais a seleção em apoio a você?

Não sei se foi só por conta disso. Acho que os anos fizeram com que elas cansassem. A minha saída foi a gota para que elas pudessem colocar pra fora. A minha saída só acrescentou a não aceitação de não ter o respeito adequado, de não ter o respeito que elas merecem. Acho que refletiu dentro da minha demissão essa atitude das atletas.

A saída dessas atletas não vai colocar a seleção, o futebol feminino, numa situação ainda mais difícil?

Situação difícil elas passam diariamente. Acho que elas têm que começar a pensar nelas e buscar o respeito que elas merecem. Toda a vida elas pensaram na seleção, toda a vida elas pensaram em ajudar, e nunca ninguém pensou em ajudá-las. A CBF dá todo o respaldo necessário porque é obrigada a ter seleção feminina. Agora, tem alguns detalhes, que ela (CBF) até citou em vídeo nas redes sociais, como camisa... Isso é muito pequeno. Elas ganham uma camisa por convocação com o nome delas, sendo que tem um monte com o nome delas. E elas sabem, porque são amigas dos jogadores (da seleção masculina), que eles recebem 20 camisas, 15 camisas, 10 por convocação. Fora diárias que eles recebem por convocação, o bicho que ganham por jogo. Então é difícil você estar há 15, 17 anos na seleção, e nunca ninguém brigar por você. E quando uma pessoa entra pra brigar por você, e essa pessoa é demitida, e pode ter sido por conta disso também, aí acho que foi o fim pra elas. E eu acredito que tem que aparecer mais meninas falando o que se passa. Tem que acontecer. Acho que só assim a gente vai conseguir mudar as coisas.

Você chegou a bater de frente com o Marco Aurélio?

Sempre bati de frente com o Marco Aurélio, desde o primeiro dia que pisei na CBF, até antes mesmo. Eu batia de frente com coisas que não achava corretas, que ele como coordenador de seleção fazia. Algumas por comentários que ele fez sem ter um mínimo de conhecimento de futebol feminino, e outras lá dentro, com coisas ligadas a atletas mesmo. A gente sempre discordava um da opinião do outro. Eu brigando pelo que fiz durante 25 anos, por uma coisa que eu amo de verdade, e ele brigando por cargo dele, pelo status de estar na seleção. Não vejo essa vontade, essa briga de melhorar, de gostar do futebol feminino como ele diz que ele gosta.

Qual o futuro que você prevê para a seleção? 

Eu vou torcer para que o trabalho dê sequência e que as meninas tenham sucesso.

E o que você pretende fazer a partir de agora?

Estou retornado a São Paulo, vou ficar um pouco com a minha família. Estive muito ausente e acho que preciso um pouco recarregar minhas energias. Não por conta da demissão, mas quando eu entro em qualquer coisa que vou fazer eu entro de cabeça mesmo, me doo 100% e me desgasto demais. Já estou em conversas com meu empresário para saber o que a gente vai fazer e o que é melhor pra mim neste momento.

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