Arquivo/AP
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Em 1966, chega a vez dos criadores do futebol levantarem a taça

Inglaterra conquista sua primeira, e até hoje, única Copa do Mundo

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2018 | 03h00

Os ingleses, inventores do futebol, passaram vontade por anos e mais anos até finalmente ganhar a primeira Copa do Mundo. O país sediou e venceu a competição em 1966 graças à uma geração de ouro e uma mentalidade forjada nos dolorosos fracassos nas edições anteriores.

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Por ter sido o país inventor do futebol, a Inglaterra por décadas se considerou uma potência no esporte. O país tinha a associação nacional da modalidade organizada desde 1863, campeonatos eram realizados desde o século XIX e a seleção, portanto, tinha uma fama de temida. Porém, antes desse Mundial de 1966, muitos tropeços abalaram a crença dos ingleses.

O primeiro abalo foi em 1950, na Copa no Brasil. Foi a primeira vez que o país disputou a competição, que até então era ignorada. A derrota em Belo Horizonte para os Estados Unidos, por 1 a 0, foi um golpe duro. Anos mais tarde, em 1953, outro abalo veio na massacrante derrota por 6 a 3 para a poderosa Hungria, em Wembley.

Portanto, para se dar bem na Copa em casa, a Inglaterra precisava ser mais humilde. A equipe começou bem a preparação para ganhar o Mundial ao escolher em 1963 o técnico Alf Ramsey, que como jogador, esteve em campo na vexatória derrota para os americanos, em 1950.

A equipe da casa tinha à disposição uma geração de ouro para colocar, enfim, o país no topo do cenário mundial do futebol. O capitão Bobby Moore era um zagueiro firme e seguro, o goleiro Gordon Banks dava segurança, os irmãos Jack e Bobby Charlton eram a sustentação da equipe e, no ataque, Geoff Hurst vivia grande fase. Poucos adversários davam medo.

O Brasil impunha respeito, mas se perdeu na falta de organização. A equipe começou a preparação com mais de 40 jogadores e teve a convocação norteada por critérios políticos. Dos 22 convocados, dez eram paulistas, dez eram cariocas, um era gaúcho e um era mineiro (Pelé). Apesar de ter vencido as duas Copas anteriores, era uma equipe envelhecida.

O Mundial teve como peculiaridade não ter jogos aos domingos. Pela religião anglicana, predominante na Inglaterra, a prática esportiva estava vetada no dia, considerado sagrado. A competição começou em uma segunda-feira e terminou no sábado.

Os ingleses, candidatos ao título, começaram a Copa com um empate sem gols com os primeiros campeões mundiais, o Uruguai. Foi uma decepção e tanto para o lotado estádio de Wembley, que tinha na tribuna a Rainha Elizabeth II. A volta por cima dos donos da casa viria graças a uma vitória sobre o frágil México por 2 a 0, e a repetição do placar sobre a França, para garantir classificação às quartas de final.

Enquanto isso, o envelhecido e desorganizado Brasil estreou com uma vitória por 2 a 0 sobre a Bulgária. Um resultado que se provaria ilusório. No jogo seguinte, sem Pelé, machucado, a equipe não deu conta da velocidade dos húngaros e perdeu por 3 a 1. A classificação estava em risco.

Para piorar, era preciso vencer o último jogo, justamente contra o adversário mais temido da chave. Portugal tinha como base o Benfica, bicampeão europeu na década de 1960, e o craque Eusébio. O atacante terminaria a Copa como o artilheiro, com nove gols, três deles contra o Brasil.

Pelé retornou ao time sem as melhores condições físicas. Garrincha acabou barrado. O camisa 10 da seleção foi muito bem marcado e pouco pode fazer em campo. Portugal fez 3 a 1 e mandou os atuais campeões de volta para casa já na primeira fase. Um vexame histórico.

Porém, o Brasil não seria a única seleção tradicional a fracassar na Inglaterra. A bicampeã Itália também caiu logo na primeira fase.

A Copa chegaria à fase decisiva com a Inglaterra em grande forma. A equipe bateria Argentina nas quartas e na semifinal a zebra, Portugal, para se aproximar do sonho do título caseiro. Discretamente, a Alemanha despontava como a principal ameaça, ao golear o Uruguai por 4 a 0 nas quartas e despachar a União Soviética na semifinal.

A decisão entre alemães e ingleses se tornaria um jogo histórico e polêmico para sempre. A partida equilibrada, sob os olhares da família real, teve a Alemanha na frente com gol logo no início e virada da equipe da casa depois. A partida estava quase no fim quando em um descuido da defesa, a Alemanha consegue fazer 2 a 2 e levar para a prorrogação.

O tempo extra teria o lance decisivo e mais marcante daquele Mundial. O inglês Hurst chutou para o gol, a bola tocou no travessão, quica no chão e volta para o campo. O árbitro suíço Gottfried Dienst deu gol. Os alemães reclamaram bastante. Até hoje não há consenso sobre o lance.

Os ingleses fariam ainda mais um para selar o 4 a 2 e ficar com o título. A conquista finalmente foi para as mãos de quem inventou as regras do futebol. A taça Jules Rimet foi entregue ao time pela Rainha Elizabeth II.

FICHA TÉCNICA DA FINAL

INGLATERRA 4 X 2 ALEMANHA

INGLATERRA - Banks; Cohen, Jack Charlton, Bobby Moore e Wilson; Stiles e Bobby Charlton; Ball, Hurst, Junt e Peters. Técnico: Alf Ramsey.

 

ALEMANHA - Tilkowski; Höttges, Schnellinger, Schulz e Weber; Beckenbauer e Overath; Haller, Seeler, Held e Emmerich. Técnico: Helmut Schon.

GOLS - Haller, aos 12, e Hurst, aos 18 minutos do primeiro tempo. Peters, aos 33, e Weber, aos 44 minutos do segundo tempo. Na prorrogação, Hurst, aos 11 minutos do primeiro tempo e aos 15 do segundo tempo.

CARTÃO AMARELO - Peters.

PÚBLICO - 93 mil pessoas.

DATA - 30/7/1966.

LOCAL - Wembley, em Londres.

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