Em artigo, Pedro Luiz Nunes Conceição pede reforma política nos clubes

Conselheiro do Santos acha que os dirigentes continuam omissos e submissos aos poderes constituídos

Pedro Luiz Nunes Conceição, O Estado de S. Paulo

25 de setembro de 2013 | 06h55

Está em curso uma revolução no futebol brasileiro! Peço licença ao zagueiro Paulo André, autor de recente texto sob o título Reforma Política, já, para fazer uso do mesmo título neste meu artigo. O conteúdo do texto do atleta, que precedeu o início desta revolução, defende mudanças profundas na estrutura do futebol brasileiro. O texto merece duas notas: uma 10 e outra ZERO.

A nota 10 vai para o próprio Paulo André. Ele já tinha sido protagonista, poucos  dias antes da publicação do texto, participando no Forum Nacional do Esporte, ao deixar José Maria Marin, frente a frente, em saia justa. A lucidez e a coragem de um atleta em plena atividade, é um fato digno de registro. Os colegas de profissão já se movimentam e um grupo de 75 jogadores  estão iniciando uma queda de braço com a CBF pela mudança do calendário. A nota ZERO vai para os dirigentes de clubes, pois  continuam omissos e/ou submissos aos poderes constituídos, como se tudo o que está ocorrendo nada tenha a ver com os clubes. Lamentável!

A atitude do Paulo André, mais a movimentação iniciada pelos atletas, mais a recente aprovação da Medida Provisória 620, que disciplina as práticas de gestão das entidades esportivas no Brasil, limitando reeleições,  são fatores que, conjugados com a publicação pela CBF do estapafúrdio calendário 2014, obrigam os dirigentes de clubes a assumirem as suas responsabilidades neste processo. Não há mais dúvidas de que as mudanças são inevitáveis e o momento é agora. Os dirigentes devem exigir do futuro presidente da CBF, seja ele quem for, um comprometimento público, formal e inegociável em  8 (oito)  pontos:

O primeiro é o apoio incondicional à formação da Liga de Clubes.  O segundo a alternância de poder, com uma única reeleição.  O terceiro ponto, um calendário racional que preserve a qualidade técnica dos torneios. Como quarto ponto, consequência do anterior, possibilitar uma  pré temporada decente, que respeite o estado atlético dos jogadores, atenda às exigências profissionais de preparadores físicos, fisiologistas e médicos, por exemplo, e aos interesses comerciais dos clubes e das entidades (Federações e CBF).

O quinto ponto deve ser a convergência dos interesses da Seleção Brasileira com os interesses dos Clubes. Outro ponto, o sexto, é o de atribuir um peso aos clubes muito maior do que o peso das Federações, nas votações sobre as principais  decisões que envolvam o futebol brasileiro. O sétimo ponto, uma participação ativa e conjunta da CBF e Federações com os clubes,  na rediscussão de cotas de TV, evitando a tão temida espanholização. A responsabilidade maior aqui é dos clubes, mas o interesse das Federações e CBF na qualificação dos torneios e no equilíbrio econômico-financeiro dos clubes deve ser contínuo, perene.

Por fim,  uma atuação pró-ativa da CBF na esfera continental, liderando profundas mudanças no comando do futebol Sul Americano. Caso as mesmas não ocorram, que os clubes brasileiros não participem mais da Libertadores. O continente tem todas as condições de realizar um torneio  tão charmoso, rentável e seguro como a famosa e charmosa Champions League (pior é que aquilo que temos de melhor, que é a decisão sendo realizada em dois jogos, está prestes a acabar, pois apenas neste quesito querem copiar aquele que é o ponto mais fraco da Champions, a decisão em jogo único).

É preciso ficar claro que nunca defendi  uma guerra dos clubes contra as Federações ou contra a CBF, mas apenas uma relação equilibrada na busca de interesses que são, ou deveriam ser, convergentes, afinal,  entidades e clubes não são concorrentes. Enquanto, por exemplo, uma Federação Paulista de Futebol mantém  o pífio discurso de que precisa proteger os clubes do interior e acaba matando a galinha dos ovos de ouro, sugando os grandes clubes e insistindo em um calendário estupidamente extenso para a realização do Campeonato Estadual, a CBF tira dos clubes os benefícios de um calendário que deveria ser racional, conjugando os interesses da seleção com os interesses deles, os clubes.

Mais ainda, a CBF não representa  os clubes condignamente perante à Conmebol, que deveria ter  a obrigação de organizar a principal competição do continente, a Libertadores, tendo como benchmark nada menos do que a Champions League. É mister evoluir! Como diretor de futebol do Santos Futebol Clube nos anos de 2010 e 2011 e membro do Comitê de Gestão de 2012 até agosto de 2013, fui testemunha ocular da total omissão do clube na condução dos assuntos institucionais/políticos junto aos poderes constituídos do nosso futebol. Aliás, esta foi a minha profunda  divergência  com o presidente ora licenciado, o que nos levou a um desgaste insuperável.

Ao assumir a presidência do Santos FC em dezembro de 2009, tínhamos enormes desafios, um deles, a redemocratização do clube. Hoje, com um  novo estatuto, só é permitida  uma reeleição. Ninguém mais poderá se perpetuar  no poder. A enorme popularidade do presidente ora licenciado, a sua reconhecida e brilhante eloquência, o sucesso desta atual gestão, que dentro de campo é a mais vitoriosa após a era Pelé, sem aumentar o endividamento do clube, o que, convenhamos, não é pouca coisa, desenharam um cenário mais do que ideal para que o clube fosse um dos protagonistas no processo das mudanças necessárias no futebol brasileiro.

O Santos Futebol Clube fracassou no campo institucional e político, retumbantemente. Em outubro de 2011, quando a CBF divulgou o calendário de 2012, fizemos no departamento de futebol  um profundo estudo que  foi encaminhado à presidência, identificando os problemas, sugerindo soluções (ainda que paliativas) e apontando as providências que precisariam ser adotadas junto à FPF e CBF para minimizar os prejuízos ao clube, já projetando, inclusive, as dificuldades ainda maiores que estariam por vir no ano de 2013, ano da disputa da Copa das Confederações. O documento foi ignorado.

Chegamos  ao ano de 2012,  tivemos 2 dias de pré-temporada para os principais atletas (é isso mesmo, apenas dois dias), fomos eliminados da Libertadores e no Brasileiro ficamos sem o Neymar em 55% dos jogos, por força dos  infindáveis amistosos caça níqueis da seleção brasileira. Quando jogou com  Neymar, o Santos teve desempenho de campeão ou, no mínimo, de vaga para a Libertadores 2013. Terminamos na 8ª colocação.

Neste ano de 2013, o resultado de toda esta insanidade do calendário e da omissão do clube: com o melhor jogador da nossa história depois de Pelé, jogamos infindáveis 5 meses de 2013 (41% de toda a temporada) o modorrento Campeonato Paulista, com um dos melhores jogadores do mundo exibindo o seu talento em estádios e gramados incompatíveis com um futebol que se pretende grande.Ou seja, tudo o que foi previsto em outubro de 2011, por conta do já insano calendário, aconteceu, infelizmente.

A consequência  de tudo isso foi a tristeza e o fastio estampado no semblante de Neymar. Conjugado com a incompreensível (para mim) campanha de grande parte da mídia esportiva, defendendo a saída do atleta para o mercado europeu, culminou com a sua inevitável (mas precipitada) venda. Não há dúvidas de que o relacionamento do clube com os poderes constituídos sempre foi bom, cordial e respeitoso, mas de efetividade nula, para não dizer negativa.

O Santos FC no primeiro semestre deste ano recebeu  e aceitou o convite para participar da Copa Audi, na  Alemanha, mas teve a autorização negada pela FPF e CBF, com a alegação de  indisponibilidade de datas para alterar a tabela do Campeonato Brasileiro. Posteriormente, o São Paulo foi convidado no lugar do Santos e obteve a autorização. Só restou à direção do clube, timidamente, notificar por duas vezes  a CBF,  pedindo esclarecimentos e exigindo ressarcimento por evidentes prejuízos financeiros.  A segunda notificação ocorreu por que para a primeira não houve sequer uma resposta.

O Santos FC pediu para a CBF  a liberação de Neymar  para que ele pudesse se despedir da torcida na Vila Belmiro no jogo  contra o Grêmio, no dia 01 de junho (era um desejo do próprio jogador, inclusive). A CBF negou. Importante registrar que a Seleção estava concentrada no Brasil. Já o  Barcelona, pediu para a CBF a liberação de Neymar para que ele pudesse ser apresentado à torcida do Barcelona, aqui bem perto, na Catalunha,  no dia 03 de junho, e obteve a autorização. Incrível, o  Barcelona também conseguiu mudar a tabela do Brasileiro,  pois a CBF autorizou o Santos a fazer o amistoso na Catalunha, após um pedido de Sandro Rosell. Hoje, quando me perguntam se o segundo jogo contra o Barcelona será realizado, desta vez no Brasil, a minha vontade é a de responder: “perguntem ao Sandro Rosell, ou no Posto Ipiranga”.

Em termos de Santos FC, a minha esperança está na figura do atual presidente, Odilio Rodrigues, que juntamente com o novo Comitê de Gestão conseguirá  (espero) estabelecer um relacionamento mais equilibrado, propositivo e corajoso com FPF e CBF. Em termos dos demais clubes  brasileiros, entendo que há sim dirigentes capazes de também conduzirem este processo, apesar da omissão reinante. Para encerrar o meu texto, peço licença mais uma vez ao Paulo André, para fazer uso da mesma frase que encerrou o texto dele: “Não esperemos mais quatro anos. Reforma política esportiva, já”.

Pedro Luiz Nunes Conceição é empresário do mercado de seguros, conselheiro do Santos Futebol, foi diretor de futebol no biênio 2010/2011 e um dos componentes do Comitê de Gestão de janeiro de 2012 até agosto de 2013

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.