Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Em Buenos Aires, argentinos festejam vaga na Copa como uma celebração de 'título'

Com show de Messi, Argentina sai perdendo, mas vira sobre o Equador e garante vaga na Copa

Gonçalo Junior, em Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 23h42

Os argentinos comemoraram a classificação para o Mundial do ano que vem como se fosse um título. A vitória por 3 a 1 sobre o Equador veio com uma das maiores atuações de Lionel Messi pela seleção da Argentina. O craque, eleito cinco vezes o melhor jogador do planeta, mais uma vez fez história. Torcedores foram ao Obelisco, cartão-postal de Buenos Aires, para celebrar o fim do sufoco e os carros buzinaram nas ruas. Clientes e garçons se abraçaram nos restaurantes. Os hermanos estão na Copa.

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Até o Obelisco celebrou. Depois de exibir um tom rosa, em referência ao movimento de combate ao câncer de mama - Outubro Rosa -, ele virou azul e branco no final do jogo.

O drama não se deve apenas aos exageros da alma portenha. Após campanha sofrível, a pior da história, troca de treinadores e ataque inoperante, a Argentina correu sérios riscos de ficar fora do Mundial pela primeira vez desde 1970. A seleção que vive um jejum de títulos desde 1993 e amarga três vice-campeonatos encontrou ontem sua redenção. "Vamos à Rússia", gritava um grupo de torcedores.

A "final", como foi tratada pela imprensa, mexeu com a rotina da cidade. Na hora do jogo, as vitrines dos bares viraram pequenas arquibancadas. Cada TV no centro de Buenos Aires, por menor que fosse, virou um ponto de concentração. A pizzaria Banchero foi um ponto de encontro. Quem ficava sem jeito de entrar só para ver o jogo, encostava o nariz no vidro, do lado de fora mesmo, procurando uma das três tevês disponíveis. O eletricista Mauricio Teves pintou o rosto, como na época da Copa, e levou uma bandeira para o Obelisco.

As dores do futebol não se comparam. São únicas. Mas o gol do Equador, com menos de um minuto de jogo, provocou um silêncio comparável ao da final da Copa do Mundo no Maracanã. O Estado presenciou os torcedores argentinos atônitos e mudos, algo impensável para o povo que se tornou um exemplo do modo apaixonado de torcer nos estádios da América Latina. Nesta terça-feira foi a mesma coisa.

Messi, que não fazia dois gols em uma Eliminatória desde 1993, resolveu a angústia ainda no primeiro tempo. Empatou e depois fez o segundo. "Pecho fresco", sentenciou o torcedor Juan Miguel Palacios em um elogio à raça do camisa 10. É um dos maiores elogios que se pode fazer a um jogador.

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A salvação não poderia vir de outros pés. A AFA (Associação de Futebol Argentino) instalou um gigantesco painel luminoso em frente ao Obelisco. Ao lado de um Messi de braços abertos, a inscrição "É hora de alentar a seleção. Eu amo a seleção". Alentar é o mesmo que encorajar, dar força. Messi, agora, está ao lado do cartão-postal da cidade. Azul e branco.

Os canais esportivos exibiram, ao longo do dia, mensagens de apoio de jogadores que participaram da campanha, como os são-paulinos Buffarini e Pratto, Pastore e Demichelis. No centro da cidade, o vendedor Pablo Vicari anunciava chips e celulares e emendava: "Será 1 a 0 com Messi", gritava.

A "final" mexeu com a vida das pessoas. Ao longo do dia, o Estado ouviu expressões intensas como "orgulho da Nação" e "deixar a alma no gramado" dos torcedores nas ruas. Parece exagero, mas tudo isso são coisas que os portenhos falam normalmente, inclusive aqueles que se espremem na estação Constituición na hora do rush. "Esse time é o suplente do Equador. Não é o Brasil", comentou o bancário Alexis Valderraga.

Até os estrangeiros perceberam o tamanho da encrenca. A banda irlandesa U2 atrasou em quase 1 hora e 30 minutos o seu show no estádio Único de La Plata, das 21 horas para 22h20. Os telões do jogo, localizados dentro do estádio, ficaram sintonizados no jogo de Quito. Só depois o show começou e se transformou na festa oficial pela classificação.

O argentino não tinha certeza da vaga. Poucas camisas azuis e brancas foram vistas ao longo dia. E quando não há certeza, surge a superstição. Juan Miguel, ele não quis dar o nome todo, afirma que recebeu uma mensagem em um grupo de Whatsapp que dizia que Adidas, Putin e a Fifa não ia permitiam que Messi ficasse fora da Copa. Fariam alguma coisa para salvá-lo. Nem precisou de nenhuma conspiração.

No final do jogo, as câmeras captaram um Messi sorridente entrando nos vestiários. Coisa rara. "Ele nos fez lembrar Diego", completou o torcedor Palacios, cortando a pizza e fazendo referência ao ex-craque Maradona, minutos depois de ter criticado o craque do Barcelona.

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