Paulo Liebert/Estadão
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Ugo Giorgetti
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Em busca do milagre

Equipes tradicionais do futebol brasileiro sofrem com dificuldade para escapar do rebaixamento

O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2018 | 03h00

Estamos chegando ao fim de mais um Campeonato Brasileiro. E o que há de comum à maioria das equipes é uma sensação de insegurança e instabilidade. Não falo de cair para a Série B, falo de realmente deixar de existir, ou pelo menos de continuar significando alguma coisa no futebol brasileiro.

Não há mais aqueles últimos colocados usuais, equipes modestas de centros mais ou menos modestos, que penosamente subiam à Série A para descer invariavelmente nos anos seguintes. Hoje há equipes grandes, futebolisticamente falando, muito representativas, de Estados proeminentes, ameaçadas de perder um patrimônio simbólico que levaram décadas para amealhar. Há clubes cujo futuro é mais do que incerto, na medida em que multidões de torcedores passaram a significar pouco, ou mesmo nada, para enfrentar as tremendas despesas dos departamentos profissionais.

O dinheiro arrecadado com ingressos é mais do nunca irrelevante. É preciso que o clube ascenda a outro patamar social e financeiro. Em geral os clubes em dificuldade trocam o treinador, e caem treinadores um depois do outro. Vão entender um dia, os que dirigem os clubes, que isso nada significa: o milagre que esperam com a troca de treinador não vem mais desse artifício, mas de uma troca de procedimento enquanto organização empresarial. O clube tem que virar outra coisa. E a maioria insiste em permanecer o que sempre foi: clube de futebol. Para ser realmente poderoso é preciso precisamente deixar de ser só um clube.

Felizmente há um exemplo que elucida a questão. Trata-se do Palmeiras. Clube de colônia, cheio de altos e baixos na sua trajetória, em geral gloriosa, o Palmeiras amargou duas quedas para a Série B e de uma terceira queda foi salvo milagrosamente na última rodada. Qual é o segredo da ascensão meteórica do clube nos últimos três anos? Uma completa modificação do que sempre foi. Uma reconciliação com o momento histórico atual e uma consequente negação completa do passado.

Tinha um estádio modesto, aprazível, igual a qualquer estádio de bairro comum na São Paulo dos anos 50 do século passado. Tinha uma torcida grande, majoritariamente popular, e um departamento de finanças lutando como podia para manter a equipe. O velho e idílico estádio foi demolido impiedosamente e em seu lugar, numa manobra habilíssima, foi construída, sem custos para o clube, uma arena como só se vê no exterior. Feita para dar a impressão de que se está no exterior.

Quase não houve aumento de lugar no estádio, houve aumento de conforto, luxo, impressão de modernidade. Os preços ficaram para quem pode pagar e, principalmente, quer pagar. Para isso foi excluída toda uma torcida, que passou a ver os jogos pelos aparelhos de televisão dos bares na frente da arena, mas que até da rua acabou excluída. Em dia de jogo, para andar pela rua Turiaçu – perdão, rua Palestra Itália –, é bom ter ingresso na mão. Paixão clubística sim, contanto que pague. Afinal, “não há almoço grátis”.

O resto veio como consequência: patrocínio, shows internacionais, comércio de itens do clube, vários planos de pagamento de ingresso, visibilidade na televisão, etc. O Palmeiras tinha entrado em sua época. O clube estava finalmente a par de seu tempo. É isso.

Se, pessoalmente, gosto disso? Detesto. Mas esses são os tempos e quem compreende isso vive bem. Os clubes agora podem errar em tudo, menos na escolha fundamental: em que época querem viver. As coisas podem voltar a ser como eram? Talvez, mas para isso seria necessário não só que o futebol mudasse, mas que, antes dele, o País mudasse. Não enxergo qualquer indício de que isso esteja num horizonte visível. Portanto, senhores dirigentes, a última coisa a mudar são os treinadores.

 

 

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