Jamil Chade/Estadão
Jogadores da seleção suíça batem bola enquanto são acompanhados de perto por parentes e torcedores. Jamil Chade/Estadão

Em clima de festa, Suíça sonha alto para a Copa do Mundo

'Estado' visita concentração da seleção europeia, que fala em superar o Brasil para tentar fugir de confronto com a Alemanha

Jamil Chade, enviado especial a Freienbach, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2018 | 07h00

A Suíça, primeiro adversário do Brasil na Copa do Mundo, tem um objetivo claro no torneio: disputar a segunda vaga do Grupo E contra Sérvia e Costa Rica para poder, pelo menos, passar para as oitavas de final. Mas seus jogadores não escondem que vão entrar em campo com o sonho de criar uma surpresa para a seleção brasileira na estreia.

+ Seleção brasileira recebe visita de Parreira e faz último treino em Teresópolis

+ Escolha por Sochi e sorteio levarão Brasil a viagens recordes na Copa

Longe da realidade da Granja Comary, do outro lado do Atlântico, apenas uma barra de ferro separava o público do gramado, enquanto os poucos seguranças se limitavam a emprestar canetas para permitir que os atletas pudessem dar autógrafos.

Nesta semana, o Estado visitou a primeira base de treinos do time suíço no pacato vilarejo de Freienbach. Encontrou um clima de festa de cidade pequena com a presença de crianças, comes e bebes, sem qualquer tipo de isolamento dos jogadores da seleção. O treinamento, por exemplo, foi acompanhado quase que de dentro do campo por familiares e torcedores.

A partir desta segunda-feira, a Suíça vai para uma nova sede, na região de Lugano. Mas, enquanto os jogadores começam a se reunir para a fase final de preparação, a atmosfera de tranquilidade pouco dava a entender que ali estava uma seleção a caminho de uma Copa, e no grupo do pentacampeão Brasil.

No total, dez jornalistas acompanhavam a seleção e, ao longe, os sinos tradicionais das vacas suíças podiam ser ouvidos entre um grito do treinador e o barulho do chute da bola.

Se nos bastidores a comissão técnica insiste que vencer ou pelo menos empatar com o Brasil é uma possibilidade, a ordem é a de evitar comentários sobre o time de Neymar durante a preparação. “Brasil? O que é isso?”, brincou o treinador Vladimir Petkovic, ao ser questionado pelos jornalistas sobre suas expectativas para o primeiro jogo.

Membros da Comissão técnica explicaram à reportagem do Estado que Petkovic não quer criar um clima de expectativa entre seus jogadores nem resumir a participação da Suíça na Copa ao confronto com Neymar. A meta é a de concentrar o time para uma preparação intensa e pensar em cada um dos jogos. Entre os amistosos antes da Copa, os suíços jogarão com a Espanha no dia 3 de junho.

O objetivo não é apenas se transformar em uma espécie de sensação do Mundial. Mas o de evitar, na fase de mata-mata, uma eliminação precoce contra a Alemanha, atual campeã do mundo. O cruzamento das equipes após a fase inicial coloca o segundo colocado do grupo do Brasil no caminho do primeiro classificado da chave Alemanha. A Suíça, portanto, quer fugir dessa situação. Para que isso ocorra, só há um caminho: superar o Brasil na fase de grupos.

Os jogadores confirmam que, por enquanto, o treinador não conversou com eles sobre a estreia, dia 17, em Rostov. “Nosso técnico ainda não nos falou do Brasil”, revelou Steven Zuber, meio-campista do Hoffenheim. “Ele nos pede para estarmos focados em nós mesmos e em nossa preparação. O objetivo é que tenhamos nosso melhor desempenho possível”, disse. “Acho que sobre o Brasil, o treinador falará apenas na última semana antes da partida.”

Mas ao ser questionado sobre qual seria um resultado realista contra o Brasil, Zuber deixou claro que a Suíça vai entrar para ganhar. “Um resultado realista veremos quando entrarmos em campo. Queremos vencer todos os jogos e por isso estamos indo para a Rússia”, afirmou. “Claro, nossa primeira meta é a de superar a fase de grupos.”

A Suíça se classificou para o Mundial na repescagem contra a Irlanda do Norte após boa campanha na fase de grupos.

Nico Elvedi, zagueiro do Borussia Mönchengladbach, também destaca o trabalho de seu time. “Temos um bom elenco e vamos mostrar isso em campo”, disse ao Estado. “Vamos entrar para vencer”, garantiu.

FERROLHO

Um dos pontos fortes da Suíça é seu caráter compacto – realidade que o time de Tite sofre para superar. Foi assim diante de rivais europeus. Elvedi confirma que esse é, de fato, um dos principais atributos de seu time. No treino acompanhado pela reportagem, Petkovic deu ênfase sobre a solidez de sua defesa, exigindo atenção máxima dos jogadores. Segundo um dos membros da comissão técnica, a ordem é a de não dar liberdade a times como o Brasil. Para suíços, Neymar não é o único com quem eles devem se preocupar. “O Brasil não tem elos fracos”, diz Elvedi. “O time tem os melhores jogadores em cada uma das posições. Será muito difícil. Mas o futebol reserva belas surpresas em Copas do Mundo”, afirma.

Para Zuber, não se pode resumir o time brasileiro pelo desempenho de Neymar ou em sua recuperação. “A força do Brasil é o conjunto. O Brasil é o Brasil, e não Neymar”, diz.

Em 2017, o time helvético teve uma das melhores defesas das Eliminatórias, sofrendo apenas sete gols em doze partidas. E isso num grupo no qual teve de enfrentar duas vezes a seleção de Portugal. A Suíça acabou na segunda posição no grupo. Mas com uma larga vantagem sobre o terceiro colocado. O time venceu dez partidas, empatou uma e apenas foi derrotado pela seleção de Cristiano Ronaldo, em Lisboa. Com tal perspectiva, os suíços consideram que seria um “desperdício” enfrentar a Alemanha logo nas oitavas de final.

Entre os jogadores, alguns confrontos dos últimos mundiais são usados como exemplos de que a pequena Suíça pode sim criar uma surpresa para o Brasil. Em 2010, o time bateu no primeiro jogo a Espanha, que terminaria como campeã do mundo na África do Sul. Em 2014, em São Paulo, a seleção esteve perto de um resultado histórico contra a Argentina de Lionel Messi.

Na única vez que enfrentou o Brasil na Copa, a seleção suíça empatou por 2 a 2, em duelo disputado no Pacaembu, em 1950.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Olheiros suíços revelam 15 atletas ao ano para a seleção

Pequeno país europeu aposta na base para formar gerações competitivas

Jamil Chade, enviado especial a Freienbach, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2018 | 07h00

A seleção helvética ficou fora das Copas entre 1970 e 2002, com exceção de 1994. Mas tudo mudou a partir de meados dos anos 90 quando os dirigentes decidiram concentrar suas atenções na formação de jovens. Uma vasta rede de olheiros foi criada para poder identificar os raros, mas certamente existentes, talentos numa população menor que a do Rio de Janeiro. “Somos um país pequeno e não podemos nos dar ao luxo de deixar passar um talento”, explicou um dos assessores da Associação Suíça de Futebol.

+ Veja nossa página especial da Copa de 2018

+ Raio-X -  Conheça as seleções da Copa da Rússia

Pelo sistema, 15 jogadores profissionais de qualidade devem ser formados a cada ano, a partir de uma base de 15 mil jovens que começam a ser acompanhados de perto desde os 12 anos. A Associação Suíça de Futebol delegou aos clubes a função de identificar os futuros craques e acompanhá-los com uma equipe profissional.

A partir de transferências de dinheiro da entidade aos clubes, jovens promissores de 14, 15 e 16 anos já recebem salários e, acima de tudo, orientação. “Há um acompanhamento de perto de todos os atletas que os clubes consideram ter algum tipo de potencial”, contou ao Estado o lateral e zagueiro Luis Puchol Del Pozo, garoto de 17 anos e que já conta com um contrato com o Servette, de Genebra, desde o ano passado. Além do apoio de psicólogos, os meninos já recebem uma ajuda de R$ 2,4 mil por mês.

Vice-campeão da Copa da Suíça sub-18, Luis já passou a ser alvo dos olheiros, que o colocam para jogar em categorias mais elevadas para permitir uma transição mais rápida do jogador. “Há uma estratégia comum em toda a Suíça sobre qual é a filosofia de jogo no país e isso vem desde as equipes jovens”, comentou.

A ofensiva ainda coincidiu com a chegada de uma nova onda de imigrantes africanos, sul-americanos e da região dos Bálcãs, que ajudaram a compor o “novo” time suíço. Já na Copa de 2014, a Suíça era a seleção com o maior número de estrangeiros e filhos de imigrantes: 21 dos 23 jogadores.

O sistema de monitoramento funcionou: a partir de 2006, a Suíça passou a se classificar para todos os Mundiais, inclusive com certa facilidade. Nas equipes de base, os títulos começaram a aparecer. Em 2002, ela venceu a Eurocopa sub-17. Em 2009, ela foi campeã mundial também sub-17. Em 2011, o time sub-21 foi vice-campeão europeu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.