Kazuhiro Nogi/AFP
Kazuhiro Nogi/AFP

São Paulo deve se espelhar no passado para poder sobreviver

Clube vem pensando pouco no futebol e muito na política

CIRO CAMPOS, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2015 | 12h06

O São Paulo vai precisar se espelhar no próprio passado para sobreviver no futuro. O clube, antes modelo de gestão e de organização, vive a maior crise política da história e procura encontrar caminhos para trilhar e voltar a honrar o apelido de "Soberano", como os torcedores gostam de se referir à equipe.

Com 85 anos de atividade, o atual São Paulo pouco tem se preocupado pelo que se passa no futebol. O foco está mais voltado ao que se passa no salão nobre do Morumbi, onde circulam os dirigentes, do que para possíveis resultados obtidos no gramado do estádio.

As graves acusações de irregularidades contra o ex-presidente Carlos Miguel Aidar causaram a saída dele na última semana. O dirigente renunciou, algo que não ocorria desde 1938. A decisão colocou em evidência a necessidade do tradicional clube se reorganizar para voltar a ser o exemplo para os demais times brasileiros.

A crise política é a face mais gritante do momento tenebroso. O clube aguarda a eleição do fim do mês para ver quem se sentará no gabinete da presidência e terá que resolver outro desafio, dar um jeito de sanar a dívida de R$ 273 milhões. "Torço para que a paz seja restabelecida e que o São Paulo volte a ter tranquilidade", pediu o goleiro Rogério Ceni.

Para tentar sair do sufoco o clube deverá agir em várias frentes, segundo ex-dirigentes ouvidos pela reportagem. Será necessário achar soluções para os problemas financeiros, além de ações para pacificar o clube. "Para resolver a complexa situação do São Paulo vai ter que ser alguém muito criativo. O clube é envelhecido tanto nas pessoas, como nas ideias. Precisamos de alguém que traga novas propostas", explicou o ex-presidente Fernando Casal de Rey, que comandou a gestão entre 1994 e 1998.

Nesta temporada, alguns problemas também respingaram no elenco. O São Paulo precisou vender jogadores para poder pagar os quatro meses de direitos de imagem atrasados do elenco. Alexandre Pato chegou inclusive a acionar a Justiça para resolver o problema.

Diante do caos, o São Paulo quer contratar profissionais da área de finanças para ajudar na gestão. "Eu quero modernizar a gestão. Não é possível administrar o clube como era há 30, 40 anos. Hoje a realidade é outra", prometeu o presidente interino Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, que assumiu a vaga de Aidar e já é candidato para o pleito do próximo dia 27. O adversário dele deve ser Paulo Amaral, presidente do clube entre 2000 e 2002.

ROMPIMENTO

Os motivos que fizeram o São Paulo se perder e entrar na crise ainda não estão claros. Um dos mais significativos foi a briga entre Aidar e o antecessor, Juvenal Juvêncio, em setembro de 2014. Um passou a culpar o outro pela dívida e também pela divulgação de dados imprecisos no balanço. "Não se cuidou do caixa do São Paulo entre 2003 e 2014", disse o então presidente Aidar em entrevista exclusiva em julho. "A culpa da dívida do clube é dele", rebateu Juvêncio na ocasião.

A briga política rachou o clube e iniciou um processo de crise culminado na renúncia de Aidar, na última terça-feira, entre graves acusações de desvio de dinheiro, demissão da diretoria e rompimento com aliados.

"O que o São Paulo mais precisa agora é de unidade. O clube está enfraquecido demais por tudo o que vem acontecendo", comentou o ex-vice-presidente Roberto Natel.

A lista de problemas tem ainda o caso Iago Maidana, contratação irregular que pode trazer como punição o rebaixamento, e a série de investigações internas para apurar as denúncias contra Aidar. Um grupo da oposição chegou a protocolar um ofício para pedir a expulsão dele do quadro de sócios juntamente com o ex-vice-presidente Ataíde Gil Guerreiro. Os dois teriam brigado em uma reunião da diretoria.

A repercussão de tudo isso manchou a reputação do clube. "Esperamos que nossa credibilidade volte. Temos condição de virar esse jogo", disse Leco, ao manifestar preocupação com a dificuldade de resolver outro problema, a falta de patrocinador master. Desde julho do ano passado o time está sem.

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