Alexander Nemenov/AFP
Alexander Nemenov/AFP

Gonçalo Junior, enviado Especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 14h00
Atualizado 15 Julho 2018 | 22h37

A vitória sobre a Croácia por 4 a 2, na final da Copa do Mundo da Rússia, neste domingo, coloca a França em um novo patamar no futebol mundial. O time entra agora em clube seleto e qualificado dos bicampeões mundiais, ao lado de Argentina e Uruguai. A seleção deixa para trás Espanha e Inglaterra, donas de uma conquista cada uma. Com uma bela atuação ofensiva, o time sofreu pouco diante da Croácia e conquista seu segundo título exatamente 20 anos depois da vitória de 1998, quando venceu em casa. A França foi consistente do começo ao fim da Copa. 

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A exemplo do que aconteceu nos jogos anteriores, o time de Didier Deschamps conseguiu equilíbrio entre ataque e defesa e teve poucos momentos de sofrimento na partida. As boas atuações de Griezmann e Mbappé garantiram a folga no placar. A Croácia mostrou desgaste físico após a disputa de três prorrogações na Copa do Mundo, lutou até o final, mas sempre esteve atrás no placar. 

A França adotou uma estratégia arriscada no início do jogo e deixou que a Croácia ficasse com a bola. O time de Didier Deschamps começou a marcar atrás linha da bola e claramente esperava uma chance para contra-atacar. Foi uma atitude inesperada para a equipe favorita antes do início do jogo em função da campanha que fez na Copa: cinco vitórias e um empate. Foi esse estilo que o goleiro belga Courtois criticou após as semifinais, mas depois reconsiderou. 

Para abrir o placar, a França usou o mesmo expediente que havia garantido sua classificação à final com a vitória suada sobre a Bélgica: a bola parada. Após cobrança de falta, em um lance polêmico aos 18 minutos, o artilheiro Mandzukic cabeceou para trás e fez gol contra. O mesmo atacante que garantiu a vaga da Croácia na final, marcando diante da Inglaterra na prorrogação, deixou a França à frente no placar. 

 

As arquibancadas do estádio de Luzhniki mostraram divisão. Embora croatas e franceses estejam em grande número, torcedores de diversos países, como México, Argentina, Colômbia e Alemanha, marcaram presença e se dividiram entre os finalistas. Os brasileiros, também em grande número, penderam para o lado croata. 

A Croácia mostrou boa movimentação e continuou melhor no jogo. Mesmo depois de três prorrogações nas fases anteriores, o time mostrava um jogo dinâmico com boa variação de jogadas pelos lados do campo. Rakitic, melhor do time no primeiro tempo, apostava nos lançamentos para Perisic. Após cobrança de escanteio, o time croata conseguiu o empate aos 27 minutos. Perisic driblou e chute firme de perna esquerda. Foi seu terceiro gol em sete jogos.

Grande novidade do Mundial, o VAR (árbitro assistente de vídeo) teve interferência na final da Copa no segundo gol da França. Diante das reclamações dos franceses de toque de Perisic após cobrança de escanteio, o árbitro argentino Nestor Pitana ouviu as recomendações dos assistentes de vídeo e vai à beira do campo para rever o lance. Após muita indecisão, em que voltou ao vídeo por duas vezes, o argentino assinala o pênalti. Na cobrança, Griezmann deslocou o goleiro Subasic e colocou a França em vantagem novamente. Foi seu quatro gol no Mundial. Foi o primeiro pênalti durante o tempo normal em uma final de Copa desde 2006. 

A Croácia quase conseguiu o empate no primeiro tempo em duas cobranças de escanteio que levaram perigo. Embora tenha finalizado o primeiro tempo com 61% de posse de bola e sete finalizações, os croatas acertaram apenas uma vez o alvo. 

Com a vantagem no placar, a França voltou a apostar no contra-ataque. O arco era Pogba; a flecha, Mbappé. Com essas peças, o time conseguiu o terceiro gol no início do segundo tempo. Aos 14 minutos, o camisa 6 lançou Mbappé. Após rebatida da zaga, Pogba chutou de perna esquerda. Depois de afirmar que estava fazendo sacríficios no Mundial, fazendo funções mais defensivas antes de chegar ao ataque, Pogba fez seu primeiro gol na Copa.

Sem a organização e o equilíbrio tático dos últimos jogos, a Croácia deu espaço - muito espaço - para um time mortal no contra-ataque. O quarto gol saiu rapidamente, cinco minutos depois. O astro do time, Kylian Mbappé, chuta de fora da área, de longe para estabelecer a goleada: 4 a 1. O lance foi construído em grande jogada do lateral Hernandez.

Mesmo em uma final recheada de alternativas técnicas e táticas, os erros também apareceram. Erros grotescos. O goleiro Lloris tentou driblar o atacante Mandzukic e perdeu a bola na pequena área. Gol da Croácia: 4 a 2. Foi provavelmente a única grande falha defensiva da França na Copa.

Ficha técnica

França 4 x 2 Croácia

Gols: Mandzukic (contra) aos 18, Ivan Perisic aos 27 minutos e Griezmann, aos 37 do 1º T; Pogba, aos 14 e Mbappé aos 19 minutos do segundo tempo e Mandzukic, aos 24 minutos do 2º tempo. 

França: Lloris; Pavard, Varane, Umtiti e Hernandez; Kante (Nzonzi), Pogba, Matuidi (Tolisso), Griezmann e Mbappé; Giroud (Fekir). Técnico: Dider Deschamps

Croácia: Subasic; Vrsaljko, Lovren, Vida e Strinic (Pjaca); Brozovic, Rakitic, Perisic, Modric e Rebic (Kramaric); Mandzukic; Técnico; Zlatko Dalic. 

Cartões amarelos: Kanté, Hernandez, Vrsaljko

Local: Luzhniki (Moscou)

Árbitro: Nestor Pitana

Público: 78011

 

 
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Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 16h40
Atualizado 15 Julho 2018 | 20h47

A festa dos novos campeões mundiais levou uma maré humana aos principais pontos turísticos de Paris tão logo o confronto entre França e Croácia chegou ao fim em Moscou. Organizados em duas grandes fan-zones, uma na Avenida Champs-Elysées e outra junto à Torre Eiffel, centenas de milhares de franceses comemoraram o título, o segundo em 20 anos. Nas ruas da capital, gritos, buzinas e fogos de artifício se tornaram o ruído ambiente com a vitória de 4 a 2 que deu aos Bleus o bicampeonato na Copa do Mundo – a primeira conquista no exterior. Incidentes envolvendo torcedores foram registrados na noite deste domingo, em Paris. A polícia registrou confrontos e até depredação de lojas na Champs-Elysées.

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A comemoração foi organizada pelas autoridades públicas, que deslocaram 12 mil policiais e 4 mil agentes de Corpo de Bombeiros e de Serviços de Atendimento Médico de Urgência. Avenidas foram fechadas ao trânsito desde cedo, e com o título a circulação de veículos foi ainda mais limitada. Por medida de segurança, a polícia ampliou a área de interdição de circulação de veículos por toda a região em torno da Champs-Elysées até a região do Champ-de-Mars, onde se situa a Torre Eiffel.

Os incidentes aconteceram à meia noite, no horário local (19 horas em Brasília), mas foram pouco numerosos, segundo a Chefia de Polícia de Paris. Os mais importantes haviam sido um confronto entre a polícia e torcedores que depredaram lojas da Champs-Elysées.

A preocupação do Ministério do Interior é que a comemoração, que invadirá a segunda-feira, com a chegada dos campeões e o desfile em carro aberto, pudesse ser aproveitada por grupos extremistas para a realização de atentados – como aconteceu na festa de 14 de julho de 2016, em Nice, no sul do país.

Mais cedo, antes do jogo, um grupo de hooligans também foi objeto de repressão da polícia, que usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os que forçavam a entrada da "Fan zone" do Champ-de-Mars, onde se situa a Torre Eiffel, outro local de forte concentração de torcedores durante e depois da final da Copa.

FESTA

Nas ruas, a emoção do bicampeonato foi para Aurélien Peyrel, 35 anos, ainda mais intensa do que a do título de 1998. Com a camisa de Zidane às costas, Peyrel disse que agora os franceses têm consciência de que vencer é possível, o que os faz acompanhar a Copa com mais entusiasmo. “Eu tinha 15 anos quando do primeiro título, nem tinha muita noção, não sabia o que significava ser campeão do mundo”, conta. “Quando você já viveu uma vez, sabe que é possível ser campeão de novo. Então vivi mais intensamente a Copa neste ano. Mesmo não achando que era favorito, tinha esperança que a França vencesse.”

 

A seleção “multicultural” da França, repleta de descendentes de imigrantes, também provocou reações de simpatia. Arremou Gnonhossou, 25 anos, alemão descendente de africanos, se disse feliz pela vitória da França, um país rival da Alemanha no futebol europeu. "Estou contente porque faz anos que vivi esse evento na Alemanha. Agora sinto prazer que aconteça na França, onde tenho quase toda a minha família. Essa alegria que acontece na minha presença hoje me dá um prazer enorme", diz o jovem.

Nascido no Senegal e imigrante recém-chegado a Paris, Albert Carrera, 28 anos, vendeu bandeiras tricolores em azul, branco e vermelho nas proximidades da Torre Eiffel. Para ele, a seleção de Didier Deschamps é também um pouco a sua. “Eu acompanhei o jogo e torci pela seleção. Sou senegalês, sou imigrante e vim morar na França”, explicou. “Fico contente de ver que há vários descendentes de africanos no time. Para mim é um orgulho.”

Quem não mostrou simpatia pelos campeões foram os curitibanos Bruno Mehl, 26 anos, e Roxane Langaro, de 24. Vestidos com camisetas da seleção brasileira, foram para as ruas apenas para conferir a festa, sem entusiasmo particular. “Nós viemos visitar Paris e saímos com a camisa do Brasil porque somos muito patriotas. Nossa seleção é a brasileira”, argumentou Bruno. “Viemos ver a festa. Não tenho simpatia nenhuma pela seleção da França.”

 

 

 

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Jamil Chade, enviado especial/Moscou, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 13h36

A final da Copa do Mundo da Rússia, em Moscou, com um amplo esquema de segurança, não conseguiu evitar a invasão de campo por quatro pessoas. Elas vestiam roupas que sugeriam uniformes policiais. Instantes depois, o grupo Pussy Riot declarou nas redes sociais a responsabilidade pelo protesto e pedia que a repressão na Rússia terminasse.   

+ Ronaldinho Gaúcho rouba a cena com participação na festa de encerramento da Copa

+ Final da Copa tem líder indiciado por crime de guerra em camarote com Putin

+ Brasileiros comparecem em grande número ao estádio Luzhniki para a final da Copa

O protesto foi um golpe contra as pretensões do presidente Vladimir Putin de mostrar um país onde os questionamentos contra seu governo não existem. 

Assim que conseguiram entrar em campo, os invasores correram para lados opostos do gramado. Mas a TV oficial da Fifa deixou de transmitir as imagens a mais de 1 bilhão de pessoas pelo mundo. É pré-determinado que, quando episódios desse tipo ocorrem, a TV mostre lances da partida.  

Rapidamente, policiais entraram em campo para tentar retirá-los. Pelo menos um deles teve de ser arrastado para fora por três agentes de segurança. O zagueiro croata Lovren ainda derrubou outra manifestante, antes de a polícia chegar. "Olá todos a partir do campo de Luzhniki. É bem legal aqui", escreveu o grupo, nas redes sociais. 

Em uma reivindicação, o grupo faz seis pedidos, entre eles a liberdade de todos os presos políticos, o fim de prisões ilegais em manifestações, permitir uma competição política justa na Rússia e o fim de casos criminosos "fabricados". Com um dos maiores esquemas de segurança criados para um evento esportivo, a Rússia proibiu qualquer tipo de manifestações e passou a censurar até mesmo um protesto silencioso em praças de Moscou. 

O grupo de punk rock feminista russo questiona o estatuto das mulheres na Rússia e voltou a agir durante a campanha eleitoral de Putin. O grupo ganhou uma dimensão internacional quando suas integrantes foram condenadas a dois anos de prisão por "vandalismo" depois de terem invadido uma missa na Catedral de Moscou e protestado. Elas questionavam o uso da Igreja para fazer campanha por Putin. 

A performance foi no dia 21 de fevereiro de 2012. Mas a prisão de três das cinco cantoras ocorreu apenas dez dias depois. Em agosto, duas delas foram condenadas a dois anos de prisão. O grupo Pussy Riot usa métodos inusitados para passar uma mensagem quando acham que a tática convencional não funcionava. Em 2012, o ato de protesto foi uma resposta à iniciativa do patriarca de Moscou de fazer campanha por Vladimir Putin. Certamente os invasores serão presos por tempo indeterminado.

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