Laurence Griffiths / AFP
Laurence Griffiths / AFP

Em Liverpool, festa particular é oferecida às massas

Equipe se sagrou campeã da Inglaterra no meio da pandemia de coronavírus

Rory Smith, The New York Times

24 de julho de 2020 | 08h00

LIVERPOOL, Inglaterra — Com o gramado aos seus pés repleto de glitter vermelho, prateado e dourado, os jogadores do Liverpool formaram uma comprida fila, com os braços nos ombros uns dos outros. Já estão acostumados à essa altura: logo soam os primeiros versos de “You’ll Never Walk Alone". Já sabem onde se posicionar: perto da marca do pênalti, diretamente em frente aos torcedores da arquibancada atrás do gol.

Foi onde celebraram a vitória contra o Barcelona em maio passado, a vitória que garantiu a presença de Jürgen Klopp e sua equipe na final da Champions League. Foi onde celebraram contra a Roma um ano antes, a caminho de Kiev, e da derrota. Eles fazem fila, balançam e cantam.

Foi o que fizeram mais uma vez, comemorando um momento que esperaram um mês para saborear, um momento que esse time aguardava há três décadas: o Liverpool se sagrou novamente campeão da Inglaterra.

Mas, dessa vez, havia uma pequena diferença. Eles não estavam de frente para a arquibancada. Em vez disso, estavam de costas para ela, decorada com bandeiras, oculta por jatos de fogo e a fumaça que demorava a se dissipar após o ensurdecedor disparo dos fogos de artifício. Em vez disso, Klopp, sua comissão técnica e seus jogadores voltaram o olhar para o centro do campo, encarando uma muralha de câmeras de TV.

Não é segredo que os dois meses mais recentes do futebol europeu — de meados de maio, quando a Bundesliga voltou e mostrou o caminho para os demais campeonatos do continente, até a conclusão das temporadas inglesa, espanhola e italiana em meados do ano — foram realizados para satisfazer a programação da TV e captar a receita que ela oferece.

O futebol voltou porque, hoje, é menos um esporte e mais um complexo de entretenimento; voltou para satisfazer suas obrigações contratuais; voltou para proteger os fluxos de renda que injetam sangue na elite desse espetáculo.

O esporte tentou o seu melhor. Felizmente, foram poucos os resultados positivos em meio às dezenas de milhares de rodadas de testes para o coronavírus às quais os jogadores se submeteram. O cronograma apertado não resultou em um desastre de lesões como muitos tinham previsto. E, após um recomeço lento em quase todos os campeonatos, o padrão habitual de qualidade está presente, seja ele alto ou baixo.  

Mas houve momentos em que a coisa toda pareceu estranha e sobrenatural, um esporte aprisionado em um vale fantástico, superficial e raso, talvez um pouco forçado, um drama oco e uma empolgação artificial.

O espetáculo do Liverpool erguendo o troféu na quarta feira não conseguiu disfarçar esse lado. A equipe, a Premier League e sua principal parceira de transmissão, Sky, fizeram o que puderam: foi construído um palco na arquibancada para a premiação, ao fim da tola e despreocupada vitória do Liverpool por 5 a 3 contra o Chelsea.

Tivemos um show de luzes. Vimos hologramas do rosto exultante de Klopp. Como não poderia faltar, canhões cuspiram glitter e chamas e fogos de artifício. a sobrecarga sensorial parecia intencional: quanto mais elementos presentes, menos tempo o cérebro tinha para lembrar que faltavam ali cerca de 54.000 pessoas.

Funcionou perfeitamente na televisão. Os técnicos trabalharam durante dias para garantir que tudo estivesse no lugar certo para produzir imagens perfeitas com o fundo perfeito: jogadores em primeiro plano, fogo, fumaça, pompa e circunstância em segundo plano.

Dentro do estádio, longe do palco, as coisas pareciam um pouco mais desligadas da realidade. No futebol inglês, o gesto de erguer a taça não é tradicionalmente tratado como uma ocasião em si, certamente não com esse caráter grandioso. Quando Jordan Henderson, capitão do Liverpool, levantou a taça sobre a cabeça, era óbvio a quem o gesto se destinava. Menos óbvio era o objeto desse gesto.

Mas há um mal entendido descartarmos superficialmente o esporte encenado apenas para a TV. Sinto dizer o óbvio, mas a TV é um meio de comunicação; uma partida transmitida é um exercício recíproco. No fundo, o esporte jogado para a TV é o esporte disputado para as pessoas que assistem à transmissão. Significa um esporte jogado para nós.

E, nas semanas mais recentes, torcedores de todo tipo provaram que a emoção não é reduzida: havia milhares de torcedores do lado de fora do estádio de Anfield na noite passada, soltando seus próprios fogos de artifício, mesmo com as regras de distanciamento social ainda valendo e a polícia fazendo valer na cidade uma ordem de dispersão contra aglomerações.

O fenômeno não se limita a Liverpool. Havia milhares de pessoas do lado de fora do estádio de Elland Road na semana passada, quando o Leeds United celebrou a vitória na segunda divisão, e também torcedores reunidos para celebrar a vaga conquistada pelo West Bromwich Albion na divisão superior essa semana. O fato de não poderem entrar no estádio não os dissuadiu; o fato de o esporte ser disputado para a TV não significa que o esporte não conta.

Mas a celebração do Liverpool não se limitou a esses torcedores, nas ruas e em suas casas. Pouco após o apito final, uma seção do Anfield, tão perto do palco quanto o possível, se encheu de parentes dos jogadores: seus pais, cônjuges, filhos e amigos. Sua entrada foi autorizada de última hora pelas autoridades de segurança, desde que permanecessem no estádio durante a partida em si.

O momento serviu para lembrar que o futebol (como qualquer esporte) não se destina apenas a nós, torcedores. Também envolve os jogadores. Sua alegria não foi artificial; talvez mais pessoal do que nos outros anos.

Independentemente das circunstâncias, e talvez por causa delas, a alegria deles estava carregada de orgulho, da sensação de terem realizado um sonho. “Um sentimento", descreveu o zagueiro Trent Alexander-Arnold.

É por isso que eles jogam. É isso que os motiva, tanto quanto o amor e a dedicação e a força dos torcedores. Ao assumirem seu lugar, perto da marca do pênalti eles cantaram para a televisão — para todos os espectadores assistindo —, mas também cantaram para si mesmos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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