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Em livro, Andrew Jennings diz que vem sendo grampeado pela Fifa

Jornalista ainda afirma que o COI segue o 'mesmo funcionamento' da entidade

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2016 | 18h46

Após os Jogos Pan-Americanos de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o Brasil encerrou seu ciclo de megaeventos esportivos. No livro "Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?", publicado pela Boitempo Editorial no Brasil, uma série de especialistas analisam e questionam o legado destes grandes eventos para a sociedade brasileira. Um deles é o jornalista escocês Andrew Jennings, popular desafeto da alta cúpula da Fifa, que afirma que o COI segue o mesmo modus operandi da entidade máxima do futebol.

"Quando comecei a investigar o COI, há mais de vinte anos, alguns de meus amigos jornalistas riram: 'Esporte? Nós investigamos governos, grandes negócios, a polícia. Por que ir futucar no esporte?'. E eu disse: 'Organizações esportivas estão na esfera pública. São financiadas por dinheiro público, detêm poder. Por que deveriam ficar isentas do exame crítico", afirma Jennings, em texto intitulado 'A máfia dos esportes e o capitalismo global'.

Nele, ele ainda afirma que, recentemente, vem tendo até mesmo suas ligações telefônicas interceptadas por executivos da Fifa: "Eles ilegalmente obtiveram meus registros telefônicos, identificaram alguns de meus contatos e usaram suas ligações na polícia para tentar sujar o nome de amigos meus. Às vezes brinco que, desde que me tornei persona non grata, nunca mais estive perto da Fifa - eles estão comigo em cada telefonema que faço!", ironiza em outro trecho.

"A lacuna que identifiquei entre os holofotes olímpicos e seus bastidores me mobilizou tanto que mal conseguia dormir à noite. Fui descobrindo que o funcionamento do COI não é muito diferente do da Fifa e que figurões de ambas as entidades reapareciam frequentemente nas mesmas cenas obscuras", prossegue Jennings. No texto, ele ainda acusa tráfico de influência por parte de nomes como Horst Dassler, antigo chefe da Adidas e da ISL (International Sport and Leisure), e do diplomata americano Henry Kissinger, homem de confiança de José Havelange à época que o brasileiro presidia a Fifa.

Jennings ainda traça um paralelo entre a apropriação do esporte de alto rendimento pelas grandes corporações e o doping. Neste trecho, o jornalista é enfático: "Corporações precisam atingir milhões de consumidores, o que exige, portanto, muita audiência televisiva. Multidões exigem heróis artilheiros, recordistas. A raça humana evolui devagar demais para quebrar recordes com a frequência satisfatória. E aí vêm os médicos do doping com a cura. Esportistas não precisam de doping. Patrocinadores precisam".

"Mas por que o capital gosta tanto de esporte?" - prossegue Jennings, com uma reflexão - "O esporte é tão velho quanto nós. É como treinamos para a caça e para a batalha. [...] Quando assistimos a esportes somos mais que meros espectadores. Quando Pelé faz o gol, fui eu que fiz o gol. [...] Quando estamos curtindo o esporte, estamos completamente abertos, vulneráveis. E é assim que o grande capital gosta que estejamos", conclui.

Andrew Jennings é conhecido por ser um dos grandes desafetos e uma 'pedra no sapato' da cúpula da Fifa e da CBF nos últimos anos. Nos dois volumes da série 'Jogo Sujo', ele passa a limpo e escancara o grande esquema de corrupção que assola o futebol há anos, denunciando personagens como Joseph Blatter (ex-presidente da Fifa), João Havelange (ex-presidente da Fifa e da CBD, falecido neste mês) e Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF).

Na coletânea 'Brasil em jogo', outros textos de análises sobre os megaeventos esportivos no Brasil podem ser encontrados. Para tornar o livro acessível ao maior número de pessoas, autores cederam gratuitamente seus textos, tradutores não cobraram pela versão dos originais para o português, e fotógrafos abriram mão de pagamento por suas imagens. A publicação pode ser encontrada pelo preço de R$ 10.

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