Michael Probst / AP Photo
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Em livro, Joseph Blatter aponta ‘caixa-preta’ da ISL e de Havelange

Em ‘Minha Verdade’, obra lançada na Europa, ex-dirigente relata fraudes e propinas e cita TV brasileira

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2018 | 07h00

Joseph Blatter não é mais presidente da Fifa e a Copa do Mundo que está prestes a começar na Rússia será a primeira em 11 edições sem sua presença. O suíço, no entanto, está longe de desaparecer do cenário do futebol e, às vésperas da competição, reaparece com relatos e denúncias de quando mandava no futebol.

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Em livro publicado na Europa – Ma vérité Minha Verdade (Éditions Héloïse d’Ormesson) –, Blatter relata bastidores do caso de corrupção envolvendo os brasileiros João Havelange (seu antecessor) e Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF). Ele afirma que “descobriu” que dinheiro de uma emissora brasileira de TV teria sido desviado para a criação de uma “caixa-preta” no futebol. 

O caso relatado por Blatter se refere à quebra e falência da ISL, empresa de marketing esportivo que vendias os direitos de transmissão dos jogos das Copas do Mundo e agia de forma independente. A ISL era suspeita de pagar propinas, inclusive para os dirigentes brasileiros. Muito antes do colapso dos cartolas com prisões em 2015, Blatter deixa claro em seus relatos que as investigações sobre a ISL revelaram um bastidor que ele insiste que desconhecia dentro de sua própria entidade.

Blatter conta como em 2001 “o tribunal cantonal de Zug (na Suíça) abriu processo judiciário contra a ISL” e que os procuradores tomaram a decisão de fazer “uma operação de busca na Fifa”. O juiz Thomas Hildbrand era um velho conhecido do cartola e de sua família. A dimensão brasileira do caso chama a atenção do ex-dirigente, pelo menos em sua versão da história, agora em livro.

 

“Eu então descubro que uma caixa-preta foi constituída com o dinheiro desviado da televisão brasileira”, revela. Blatter não cita o nome da emissora nem indica se ela participava do esquema. Nos documentos do tribunal que investigou o caso, a referência à TV brasileira é mantida em sigilo. A Rede Globo tinha os direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006, período em que a ISL atuava.

Procurada pelo Estado, a emissora informa desconhecer qualquer fato nesse sentido. “O Grupo Globo sempre negociou direitos de transmissão de boa-fé. Nas suas relações comerciais, como em todas as suas atividades, nada é mais importante do que adotar práticas éticas e transparentes. O Grupo Globo não tem conhecimento desses fatos e reafirma que não tolera nem paga propina.”

Blatter, num primeiro momento, se recusou a acreditar que Havelange estava envolvido com falcatrua. “Eu penso em Teixeira e não em Havelange”, escreve – ele foi secretário-geral da Fifa quando o brasileiro ocupava a cadeira mais alta. “Para mim, Havelange é a estátua do comandante e em nenhum momento pensei que ele estaria envolvido nesse caso”, diz.

Ele conta que, na época, “viu passar uma transferência de US$ 1 milhão (R$ 3,7 milhões em valor atual) da ISL para Havelange”. “Eu imediatamente mandei devolver ao contador, achando que tinha sido um erro”, explicou. Mas Blatter diz que foi apenas depois de o inquérito ter sido lançado que ele “começou a ter dúvidas sobre o comportamento da ISL”.

“A ISL começou a pagar propinas para manter os contratos da Fifa. Levou uma década de inquérito e processo para eu entender com detalhes o sistema que foi criado por Havelange e Teixeira, um sistema que eu totalmente estava fora”, conta. “Os documentos do Tribunal de Zug indicaram que Havelange ficou com US$ 1 milhão. Quanto ao seu genro, Teixeira, ele leva US$ 12,4 milhões (R$ 45,8 milhões na cotação atual).

Teixeira e a família de Havelange não foram localizados pela reportagem.

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