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Em livro, Tostão analisa o futebol e fala da vida dentro e fora dos campos

Tricampeão mundial em 1970 percorre os últimos 60 anos do esporte

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2016 | 07h00

Os 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil da Copa de 2014 mexeram com muita gente, de várias maneiras. Em um tricampeão mundial, por exemplo, despertou o desejo de fazer uma análise profunda sobre o futebol a partir de sua visão. O resultado está no livro Tempos vividos, sonhados e perdidos - um olhar sobre o futebol. Nele, Tostão, um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, percorre as últimas seis décadas desse esporte. Para isso, se vale de sua experiência e aprendizado dentro e fora de campo.

De maneira simples, objetiva e bastante didática, Tostão, um mineiro de Belo Horizonte nascido há 69 anos, comenta a evolução tática do futebol no Brasil e no mundo. Não é só isso. Também revela detalhes de sua carreira, encerrada precocemente aos 26 anos por causa de um descolamento de retina, de sua vida como médico e professor – período no qual se afastou do futebol – e sobre sua função atual, de comentaria esportivo.

Inicialmente, Tostão pretendia abordar apenas aspectos táticos e técnicos do futebol em Tempos vividos, que será lançado no dia 19 pela Companhia das Letras (200 páginas, R$ 39,90 e versão e-book por R$ 27,90). Mas diz ter concluído que o livro ficaria "chato''. 

"Depois da Copa, eu comecei a pensar em contar a história do futebol do ponto de vista técnico, tático, a evolução do futebol no Brasil e na Europa'', disse ao Estado. "Mas percebi que ficaria muito chato, poucas pessoas se interessam por esses detalhes. Então eu achei melhor misturar com um aspecto pessoal, como se fosse um diário de memórias. E acabei falando também do que aconteceu no período em que fiquei fora do futebol. Fui entrelaçando as coisas'', conta.

O resultado foi um livro agradável, e informativo, com destaque para as questões táticas – a origem real do trabalho. Com o estilo franco que sempre o caracterizou, Tostão faz elogios e críticas com naturalidade. 

Com base no que viveu, desfaz alguns mitos, como o envolvendo sua transferência do América para o Cruzeiro, onde se profissionalizou, e a convocação de Dario para a Copa de 70. Admite inseguranças, revela desconfianças, curiosidades com fatos famosos, e mal esclarecidos, do futebol, e até algum inconformismo com determinadas situações.

Tostão é bastante crítico com os técnicos brasileiros, que aponta como responsáveis - não únicos – pelo atraso técnico do futebol brasileiro nos últimos 20 anos. "Passamos 10, 15 anos jogando de uma maneira que não existe nos grandes times há muito tempo." Mas dá a eles um crédito. "Agora, estamos recuperando isso (o atraso). Hoje, um time brasileiro tenta jogar com a mesma força coletiva que na Europa."

O craque revela incômodo com os atuais jogadores brasileiros, pela deficiência de lucidez para tomar as decisões técnicas corretas em campo e pela falta de autocrítica. "Isso é ruim porque ele ( o jogador) deixa de se desenvolver, de aprender muita coisa. Os europeus se comportam mais friamente como profissionais. O brasileiro mistura muito a parte técnica com sucesso, fama, com o oba-oba.''

De volta aos 7 a 1, Tostão – que define a seleção de 1970 como uma das que revolucionaram o futebol mundial – dedica praticamente dois capítulos ao tema que o instigou a escrever o livro. "Foi um fator tão estranho, tão importante e tão espetacular do ponto de vista futebolístico, que aquilo me estimulou a fazer uma síntese da evolução, para tentar explicar.''

Na explicação, ele deixa claro que a derrota para os alemães (não o placar) não foi por acaso. "Foi a mensagem de que as coisas estavam ruins (no futebol brasileiro). Foi uma confirmação do que já se esperava."

Tostão, porém, espreita o futuro com boa dose de otimismo. Considera que há um processo de reação, iniciado após a Copa de 2014 e que envolve vários setores. "Há mudança e conceitos na imprensa, nos técnicos, entre os torcedores. Depois da Copa houve melhoria da parte do jogo coletivo, esta havendo uma onda positiva."

TRECHOS DO LIVRO

"Outra lenda do futebol é a de que o time de 1970 foi escalado por alguns jogadores.  Falam o mesmo da Copa de 1958. Como Gérson adorava conversar sobre detalhes técnicos e táticos, e Zagallo, desde o Botafogo, confiava em sua liderança, é possível que Gérson tenha influenciado Zagallo em minha escalação.

Mais uma lenda é de que a Seleção de 1970 tinha vários camisas 10, que jogavam na mesma posição. Na Copa, eu atuei como centroavante; Gérson, como meia-armador; Pelé, de ponta de lança; Rivellino, como armador pela esquerda; e Jairzinho, como atacante pela direita, entrando em diagonal pelo centro. Eu e Gérson jogávamos com a camisa 8 em nossos clubes. Jairzinho era 7 no Botafogo. Os únicos, do meio para frente, que trocaram de função na Seleção fomos eu, que passei de ponta de lança para centroavante, e Rivellino, que era meia-armador no Corinthians e se tornou um armador, um ponta recuado.''

"A Espanha, campeã do mundo em 2010 e bicampeã da Europa em 2008 e 2012, o Barcelona, dirigido por Cruyff, Guardiola e Luis Henrique,  assim como a seleção inglesa de 1966, a brasileira de 1970 e a holandesa de 1974, foram times revolucionários, pois além de jogarem de uma maneira diferente da que se jogava habitualmente em suas épocas, influenciaram na transformação do futebol em todo o mundo. Houve muitas outras equipes excepcionais, mas não tiveram a mesma importância.''

"Felipão e Dunga são técnicos de estilos parecidos, ótimos representantes da filosofia de jogo que existiu no Brasil nos últimos anos e que contribuiu para a queda do nosso futebol, baseado em muita marcação, contra-ataques e jogadas aéreas, e que não agrada, mas, muitas vezes, consegue bons resultados. Esse estilo está em desacordo com o das atuais grandes equipes, que privilegiam a posse de bola, a troca de passes e o domínio do jogo.''

 

 

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