Divulgação/Torpedo Zhodino
Divulgação/Torpedo Zhodino

Em meio ao coronavírus, começa o Campeonato da Bielorússia de futebol

Governo manda a população ter cuidado e aumentar a atenção com a higiene, mas não vê motivos para paralisar a competição, que começou neste final de semana

Rory Smith, The New York Times

25 de março de 2020 | 16h00

Havia um punhado de câmeras termográficas do lado de fora do estádio do Dynamo Brest na sexta-feira. O objetivo era identificar e afastar qualquer pessoa que mostrasse sinais de febre. Tanto os torcedores do Brest quanto os de seu adversário, o Smolevichi, recebiam conselhos de higiene: lave as mãos com sabão, evite os abraços. O Ministério da Saúde decretou que o estádio fosse desinfetado duas vezes por dia. Tudo para afastar o vírus do novo coronavírus.

Fora isso, porém, o jogo de abertura da temporada do Campeonato da Bielorrússia seguiu como planejado, abrindo toda uma rodada de jogos no sábado e no domingo. Não havia restrições para os torcedores. Ao contrário de todos os outros países, em quase todos os lugares, a Bielorrússia simplesmente decidiu seguir jogando. O jogador brasileiro Gabriel Ramos, contou ao Estado um pouco do que sentia e como estava o País, antes do início da competição.

Na opinião das autoridades de futebol do país, não havia razão para não jogar. A ABFF – órgão que dirige o esporte na Bielorrússia – sabia das medidas tomadas por outras ligas europeias diante da crescente pandemia de coronavírus: primeiro jogando com portões fechados e, depois, cancelando ou adiando indefinidamente os campeonatos.

A ABFF concluiu que as decisões tiveram pouco ou nenhum efeito para impedir que os torcedores se reunissem ou que o vírus se espalhasse. E que a situação na Bielorrússia não justificava o cancelamento da nova temporada.

“Temos um estado de emergência declarado em nosso país?”, Vladimir Bazanov, chefe da ABFF, disse em entrevista ao site de esportes Tribuna. “Não estamos em condição crítica, então decidimos começar o campeonato em tempo hábil”.

Essa decisão fez da Bielorrússia uma exceção no futebol europeu. Todas as outras ligas do continente, e quase todas as outras ao redor do mundo, foram adiadas por período indeterminado. À medida que a escala e a gravidade da pandemia de coronavírus se tornaram claras, a maioria dos esportes na maioria dos países fez a mesma coisa: fechou as portas até que seja seguro – para jogadores e torcedores – retomar as atividades.

A resposta na Bielorrússia, por outro lado, foi cética. Enquanto grande parte da Europa permanece confinada – cidades inteiras desertas, populações inteiras instruídas a ficar em casa, muitas vezes sob ameaça de prisão – a Bielorrússia ainda não implementou medidas severas. Oficialmente, registrou 81 casos de coronavírus, embora o governo afirme que 22 deles se recuperaram.

Embora o presidente Alexander Lukashenko – considerado por muitos o último ditador da Europa – tenha aconselhado os cidadãos a observar protocolos de distanciamento social e não visitar lugares que possam estar lotados, ele também sugeriu que o vírus é uma “psicose”.

Em público, os jogadores da liga concordaram com a decisão. Sergey Kislyak, meio-campista do Brest, disse que “está tudo tranquilo” entre seus companheiros de equipe. “Minha mãe trabalha numa escola; as aulas continuam como antes”, disse ele. “Está tudo bem”.

Somos pagos para jogar

Seu companheiro de equipe, Artem Milevsky, admitiu na Arena Radio que, embora seja “estranho” participar da única liga em atividade normal na Europa e embora ele esteja tentando ter “menos contato” com as outras pessoas, não foi uma decisão dos jogadores. “Somos pagos para jogar”, disse ele. “As autoridades estão no controle. Tudo está aberto, tudo funcionando, você pode comer onde bem quiser”.

Em particular, porém, as coisas são bem diferentes. Uma pesquisa divulgada pelo Tribuna, site de esportes, descobriu que a maioria dos atletas era a favor de encerrar o campeonato. O comentarista Konstantin Genich qualificou a ideia de continuar jogando como “desesperada”.

Alexander Hleb, que já jogou no Barcelona e no Arsenal e provavelmente é o maior jogador da história da Bielorrússia, classificou a falta de preocupação entre jogadores e autoridades como “inacreditável”. Mas, em um post no Instagram, ele reconsiderou seus comentários. “Como a presidência não vê real necessidade de colocar o país em quarentena, a situação está sob controle”, escreveu Hleb. “Se houver uma verdadeira ameaça à saúde dos jogadores, à saúde da torcida, tenho certeza de que os jogos serão cancelados”.

Hleb pôs a família em auto-isolamento, por precaução. Alguns torcedores se sentem da mesma maneira, evidentemente. As bilheterias no primeiro fim de semana da temporada ficaram em cerca da metade dos números do ano passado, embora isso ainda significasse quase 4 mil pessoas aparecendo para assistir ao primeiro jogo do Brest, o atual campeão.

“A atitude em relação ao coronavírus ainda parece bastante frívola”, disse Maxim Berazinski, executivo-chefe do site Tribuna na Bielorrússia e na Ucrânia. “Isso se deve, pelo menos em parte, ao fato de que as autoridades ainda não fecharam fronteiras, escolas e universidades e estão tentando, de todas as formas possíveis, minimizar a gravidade do problema”.

“Muitas pessoas continuam indo aos jogos de futebol e estão se manifestando contra a ideia de cancelar o campeonato. De nossa parte, como imprensa, insistimos que a medida necessária agora é suspender a temporada. O risco ao qual estamos expondo as pessoas não se justifica no momento”.

Ainda não há sinal de mudança na política. Na terça-feira, Alexander Aleinik, porta-voz da ABFF, confirmou que a próxima rodada seguiria como planejado, o que permite que os torcedores continuem se aglomerando nos estádios. O resto do mundo parou, pelo tempo que for necessário. Mas a Bielorrússia, sozinha, segue o jogo. / Tradução de Renato Prelorentzou 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.