REUTERS/Jorge Silva
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Em Mérida, brasileiros farão 'viagem no tempo'

País vive hiperinflação e escassez de alimentos

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2016 | 07h00

A seleção brasileira desembarca na Venezuela para a partida contra a Vinotinto, terça-feira, como se estivesse numa viagem no tempo. Muitos dos jogadores do elenco não eram nem nascidos, mas para o técnico Tite, o país vizinho certamente o fará lembrar do Brasil dos anos 80, assombrado por hiperinflação, saques, escassez de produtos variados e mercado negro de alimentos.

O manejo caótico na economia da Venezuela chavista de 2016 lembra os tenebrosos anos do governo Sarney, quando o Brasil entrou em processo hiperinflacionário. Tite, à época, era volante do Guarani.

O país governado pelo presidente Nicolás Maduro deve fechar o ano com inflação de 480%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 2017, esse índice deve bater 1.600%. Oito em cada dez produtos da cesta básica não podem ser encontrados nas prateleiras. Nos hospitais, faltam remédios e, em alguns casos, sequer há água e sabão para limpar simples feridas.

A crise, que já dura três anos, tem origem na última eleição do presidente Hugo Chávez, em 2012, a poucos meses de sua morte. Na época, ele ampliou o gasto público com programas sociais durante a campanha. O caixa ficou vazio e a estatal do petróleo PDVSA – responsável por 96% da receita em dólar do país – não era produtiva o suficiente para repor o que foi gasto, parte porque comprometera fatia de sua produção em acordos anteriores com a China, parte porque perdera competitividade. 

Quando Maduro assumiu, não havia dólares suficientes para o setor privado, responsável pela produção e revenda de produtos e consumos, em sua maioria, importados, para o setor público e para o pagamento da dívida. O governo começou então a restringir o acesso das empresas aos dólares, o que provocou uma corrida pela moeda americana no câmbio negro. Sem dinheiro no setor privado, a produção caiu e com a oferta em baixa, os preços dispararam. O setor público, com caixa zerado, passou a imprimir dinheiro para financiar a dívida estatal. O bolívar, dinheiro local, perdeu o lastro e a inflação, já alta, saiu do controle.

Hoje, falta quase tudo. É comum no noticiário que jogadores da Vinotinto, em viagens pelas Eliminatórias, comprem itens básicos de higiene, como sabonetes, papel higiênico e desodorantes em outros países da América do Sul. Por outro lado, quando as seleções do continente viajam para a Venezuela, levam esses itens na bagagem.

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