Alejandro Pagni/ AFP
Alejandro Pagni/ AFP

Em oito anos, River Plate vai de rebaixado a bicho-papão da América

Finalista da Libertadores se reergueu após cair para a segunda divisão argentina em 2011

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2019 | 13h15

No dia 26 de junho de 2011, quando o River Plate empatou por 1 a 1 com o Belgrano no Monumental de Nuñez e foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Argentino, um torcedor de 23 anos tentou se matar cortando as próprias veias, tamanho era eu desespero com a queda inédita. Oito anos depois, o "Más Grande", como se autointitula o time argentino, vive um dos períodos mais vencedores de sua história. O torcedor que havia tentado suicídio sobreviveu e agora vai acompanhar a busca por mais um título da Libertadores.

O River Plate chega à sua terceira decisão desde 2015. É o time que mais disputou finais nos últimos cinco anos. Será a sétima vez que a "equipe millonaria" jogará a decisão da principal competição continental em sua história, a segunda vez diante de um rival brasileiro. Na primeira ocasião, a equipe argentina acabou derrotada para o Cruzeiro, em 1976.

A reconstrução desde o rebaixamento, episódio que tentou o torcedor ao suicídio, está diretamente ligada à gestão do presidente Rodolfo D'Onofrio. Ele assumiu o clube no fim de 2013. O presidente não tentou reinventar a roda, mas adotou uma política austera gastando menos do que arrecadava. Tomou medidas como a profissionalização da gestão, renegociações de dívidas, lançamento do programa de sócio-torcedor "Tu lugar en el Monumental" (Seu Lugar no Monumental, em português), com descontos anuais para os sócios, desenvolvimento da comercialização de ingressos e pacotes, além de um mecanismo de indexação para as cotas dos afiliados.

O faturamento praticamente dobrou em cinco anos. A equipe de D'Onofrio também investiu no pagamento das dívidas. Em 2014, por exemplo, os débitos do clube estavam em 600 milhões de pesos (R$ 111 milhões na cotação atual).

Hoje, as principais fontes de receita são: bilheteria e arrecadação em dias de jogos (30%), programas de sócios (30%) e patrocínios (mais de 20%). Mais abaixo estão os direitos de transmissão em TV e bônus de competições (cerca de 10%). A venda de atletas também é um ponto considerável, embora variável. Recentemente, o River faturou cerca de € 41,7 milhões com a negociação de atletas. As principais vendas foram de Lucas Alario para o Bayer Leverkusen (ALE), por € 24 milhões, e Sebastián Driussi para o Zenit (RUS), por € 15 milhões.

INVESTIMENTO

Depois de quatro anos, o clube voltou a justificar o apelido de "Millonario". O time foi quem mais investiu em contratações entre todos das Américas no ano passado. Foram € 32,29 milhões, o equivalente a quase R$ 128,5 milhões. O principal reforço foi o atacante Lucas Pratto, comprado ao São Paulo por € 11,5 milhões. Como comparação, o clube brasileiro que mais gastou no mesmo período foi o São Paulo, com € 15,79 milhões, algo em torno de R$ 59,6 milhões.

A recuperação econômica deu suporte para a construção de um grupo forte e competitivo, gerido por um treinador acima da média. Marcelo Gallardo é visto com fundamental na reconstrução do River. Desde que chegou, em junho de 2014, o Muñeco, como é conhecido, elevou o patamar da equipe. Pegou o mesmo elenco da época da segunda divisão e maximizou o potencial dos jogadores. Com ele no comando, os Millonarios conquistaram a Copa e a Recopa Sul-Americanas, ficaram em segundo lugar no Campeonato Argentino no começo de sua trajetória. 

O treinador mais vitorioso da história do River Plate vai disputar a 14ª decisão desde que assumiu o cargo. A média é de três finais por temporada. Das 13 decisões disputadas nesse ciclo, o River Plate de Gallardo venceu dez. Os três raros momentos em que o técnico de 43 anos não ficou com o título foram nas finais da Supercopa da Argentina 2014 (Huracán venceu por 1 a 0), do Mundial de Clubes de 2015 (vitória do Barcelona por 3 a 0) e da Supercopa da Argentina de 2017 (3 a 0 para o Lanús). "Sinto uma felicidade enorme pelos jogadores e por nossos torcedores. Eles devem estar muito felizes e contentes. O River vai jogar outra final de Libertadores depois de eliminar mais uma vez o Boca. A felicidade não cabe no meu corpo."

O sucesso do técnico está fundamentado no convencimento dos atletas da ideia de jogo, baseando na posse de bola, intensidade e ofensividade. Além disso, Gallardo se apoia em sua própria história. Ele foi um dos grandes jogadores da história do clube e passou a ser considerado por muitos torcedores o maior treinador do River Plate.

Gallardo mostra uma sinceridade incomum ao afirmar que o ápice de suas conquistas já passou. Para o treinador, o maior momento foi a Libertadores do ano passado, quando a final foi disputada em Madri depois de incidentes de violência no jogo de volta em Buenos Aires. Naquele dia, o ônibus do Boca foi apedrejado na chegada ao estádio do River.

"A partida da minha vida eu já joguei, foi a final em Madri, disse na segunda-feira, véspera do Superclássico. Essa é uma partida muito importante, um grande desafio. Mas nada mais do que isso."

PROMESSA NA MIRA DO SANTOS

O meia Nicolas de la Cruz, um dos destaques do finalista da Libertadores, esteve na mira do Santos no ano passado. Além da qualidade técnica, outro fator que despertou o interesse santista foi um laço familiar. O meia de 22 anos é irmão do uruguaio Carlos Sánchez, um dos pilares do time santista. Foi o próprio Sánchez que "esquentou" o negócio. O irmão tem vínculo até 30 de junho de 2021 com o clube argentino.

"Falo bastante com ele e digo que quero trazê-lo para jogar comigo. Ele disse que sempre existe possibilidade, mas precisaria de um acordo entre os clubes. Seria lindo jogar com ele. Nunca joguei, por que não? O sonho existe. Sempre disse que queria jogar com meu irmão, a possibilidade existe e posso jogar com ele a qualquer momento, no Santos, no Uruguai, onde seja. Conheço e sei que pode ajudar nosso time e eu poderia ajudá-lo", diz Sánchez.

Nicolas de la Cruz fez parte da seleção uruguaia sub-20 que conquistou o Campeonato Sul-Americano em 2017 e chegou às semifinais do Mundial da categoria. O meia foi titular e marcou cinco gols em 16 jogos somando as duas competições. Na partida que classificou o River Plate à final da Libertadores, a terceira nos últimos cinco anos, De La Cruz mostrou todo seu estilo, que é complementar ao do irmão santista. Atuando como segundo atacante, ele foi a principal opção ofensiva do River diante da pressão do Boca. Ele é um jogador mais móvel e ágil, que gosta de entrar na área para finalizar bem com as duas pernas.

No ano passado, esteve na reserva e sofreu com contusões. Ele atuou em 12 partidas e anotado um gol em 2018. Nicolás chamou a atenção do River Plate após se destacar pelo Liverpool-URU, mesmo clube revelador de Carlos Sánchez. A negociação foi finalizada por R$ 11 milhões em 2017.

De La Cruz se envolveu em um episódio polêmico recentemente. Em agosto, ele foi detido pela polícia paraguaia e teve de deixar a concentração do River. O time se preparava para o jogo de volta das quartas de final da Libertadores, em Assunção. Ele teve de prestar depoimentos, mas foi liberado para voltar à concentração.

De La Cruz foi chamado para explicar um episódio de três anos atrás. Tudo ocorreu no dia 14 de fevereiro de 2016, quando o Liverpool, clube que defendia, enfrentou o São Paulo pela Libertadores Sub-20. O jogador uruguaio foi acusado de agredir dois policiais. Dias depois, De La Cruz e outros quatro jogadores do Liverpool foram autuados, à época, por "resistência à autoridade". No entanto, todos já estavam fora do Paraguai. Segundo a imprensa paraguaia, ele terá de pagar multa e voltar ao país em três meses para novos esclarecimentos.

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