Louai Beshara/AFP
Louai Beshara/AFP

Em plena guerra, Síria se aproxima da Copa do Mundo e faz festa

Gol nos acréscimos classifica time de Damasco para repescagem

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2017 | 18h01

Disparos foram ouvidos pelas cidades sírias na noite de terça-feira. Não era mais um confronto entre forças do governo, rebeldes ou terroristas. Mas uma população comemorando um resultado em campo que poderá aproximar a Síria da Copa do Mundo de 2018, na Rússia.

Jogando contra o Irã, o time de Damasco arrancou um empate de 2 a 2 já nos acréscimos, aos 48 minutos do segundo tempo. Na semana passada, a Síria já havia derrotado o Catar por 3 a 1 . Mas, com uma combinação de resultados, conseguiu ficar na terceira colocação em seu grupo e disputará uma repescagem contra a Austrália. 

Com o sonho de ir ao Mundial ainda vivo, rapidamente a conquista do time se transformou em um assunto altamente político. O governo de Bashar Al Assad, denunciado na ONU por crimes contra a humanidade, tem tentando usar a vitória como forma de reforçar a ideia de que o país está voltando à normalidade e que o regime está com suas mãos firmes no poder, inclusive ganhando terreno e cidades ocupadas pela oposição ou por jihadistas. 

Dentro do grupo de jogadores, há quem defenda abertamente o regime. O treinador, Ayman Hakim, costuma ir às coletivas de imprensa com uma camisa em que estampa a foto do ditador. A Fifa, que diz não tolerar qualquer uso político do futebol, não se pronunciou sobre o caso.

Mas num esforço da propaganda oficial do regime, o time é apresentado como a volta do sonho de uma Síria unida. Um dos jogadores, o atacante Firas al-Khatib, de fato chegou a fazer campanha no exterior pela oposição e disse que nunca mais jogaria pela seleção enquanto o regime atacasse os rebeldes. Mas retornou para Damasco há poucos meses, sendo recebido como herói. 

Até mesmo o jogo decisivo para a Síria se transformou em um assunto político. Do outro lado do campo estava justamente o maior aliado de Assad na guerra, o Irã. Rapidamente, surgiram as suspeitas de que Teerã, para dar apoio a Assad, teria ordenado a seus jogadores que cedessem ao empate. O português Carlos Queiroz, treinador do Irã, rejeitou qualquer manipulação de resultados. 

Mas, sem ter sofrido um só gol em casa durante toda a competição, o Irã acabou cedendo dois em uma só partida. 

A classificação é uma rara boa notícia em um país que vive o pior desastre humanitário do século XXI e certamente um impulso ao próprio Assad. Com cerca de 400 mil mortos e 5 milhões de refugiados, a Síria passou a ser o símbolo da incapacidade da comunidade internacional a dar uma solução a um conflito.

Entre ativistas, a classificação tem um gosto amargo. Investigações ainda revelaram que, desde o começo da guerra em 2011, pelo menos 38 jogadores profissionais foram assassinados pelas forças do regime, além de 13 outros desaparecidos. 

No país, diversos estádios foram transformados em armazém de armas e locais de tortura. A Fifa, por causa da guerra, determinou que os jogos fossem realizados fora. Mas, com inimigos em diferentes locais, o regime de Damasco teve dificuldades para encontrar quem recebesse as partidas. Uma partida ocorreu em Omã, enquanto as demais acabaram sendo realizadas na Malásia. 

Dos 21 jogadores da seleção, apenas seis atuam em times locais, que continuam a disputar o campeonato nacional sírio apesar da guerra. O restante atua fora do país, com alguns dos jogadores no Catar, China ou nos clubes sauditas.

Imediatamente, as autoridades do país e seus dirigentes esportivos, próximos do regime, passaram a usar o empate como um sinal de fortalecimento de Assad. “Queremos o nosso povo feliz e estamos prontos para ir pela primeira vez para a Copa”, disse Muwaffaq Fathallah, administrador do time. 

Se por anos qualquer ato público na capital síria era proibido, nesta semana foram as próprias autoridades que distribuíram telões pelas principais ruas e praças. Mesmo a TV estatal interrompeu a programação sobre os avanços do exército para se concentrar no jogo. 

“Todo cidadão se transformou em um soldado e os jogadores farão o melhor pelo país”, completou Mowaffak Joumaa, presidente do Comitê Olímpico da Síria.

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