Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Em primeiro jogo após morte de jogador, emoção toma conta do Canindé

Lucas foi homenageado pelos companheiros da equipe Sub-17 da Portuguesa

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2016 | 15h29

O goleiro Matheus olhava para frente, exigência da sua função, procurando orientar o posicionamento correto da equipe em campo. O sentimento na manhã desta quarta-feira, porém, era de ausência. Poucos passos adiante, na entrada da área, ele não vê mais o zagueiro Lucas. A morte trágica do companheiro na semana passada abalou o time Sub-17 da Portuguesa. 

Antes do jogo contra o Diadema, pelas quartas de final do Paulista, os jogadores entraram no gramado do Canindé com uma camiseta e uma faixa para homenageá-lo. Ao lado da foto de Lucas, os dizeres "Realizando seu sonho...", seguido de uma frase: "Todos os dias, Deus viaja comigo. Se um dia eu não voltar, é porque viajei com Ele."

A fila de jogadores foi puxada pelo avô de criação de Lucas, Ivan Marques. O sonho da promessa da Lusa de 16 anos era atuar no Canindé. O jogo contra o Diadema, agendado originalmente para o sábado, dia 22 de outubro, seria o primeiro. Ele morreu dois dias antes. O corpo foi encontrado na piscina do clube, dia 20, após uma confraternização do time pela classificação às quartas de final do Paulista. 

Poucas horas antes da tragédia, emocionado, Lucas agradeceu ao coordenador do time Sub-17, Ricardo Alonso, pela oportunidade de jogar no Canindé. A Portuguesa mandou todos os jogos do Paulista até aquele momento no CT do Parque Ecológico do Tietê. A utilização do estádio era mais um prêmio ao elenco pela excelente campanha na competição.

A homenagem foi uma iniciativa dos próprios jogadores. Alguns choraram. Outros beijaram a foto de Lucas, em um último adeus. No braço, uma fita preta para simbolizar o momento de luto, sentimento que alguns, muitos jovens, conviveram pela primeira vez. 

O avô estava emocionado. O semblante era de abatimento pela perda do neto que criou desde que ele foi abandonado pelo pai e sua mãe, Mércia, se mudou para Carnaíba, cidade no interior de Pernambuco a 357 km do Recife. Mas, nas palavras de Ivan, Lucas continua vivo. Não faltam histórias. Lucas, certa vez, cobrou o avô, que se arrisca como goleiro em um time de várzea, o Serra Morena, por falhar em um gol por ignorar uma orientação do neto. "Ele me chamou de burro o dia todo, ficou bastante irritado", relembra, com um sorriso no rosto.   

Ao lado de alguns familiares, Ivan acompanhou o jogo das arquibancadas do Canindé, próximo da faixa em homenagem ao neto. Antes da partida, o goleiro Matheus, que era muito próximo de Lucas, fez uma promessa: "Não vamos perder esse jogo de jeito nenhum." 

Dívida paga. Matheus fez duas defesas inacreditáveis e garantiu o 0 a 0. O jogo de volta será no sábado, no Baetão, em São Bernardo do Campo. No final da partida, o avô foi até o vestiário para abraçar o goleiro e os garotos da equipe sub-17 para agradecer o carinho, causando comoção.

O telão exibiu imagens de Lucas com "Canção da América" no alto-falante. A letra imortalizada por Milton Nascimento vai ficar para sempre na memória dos jogadores da Portuguesa: "Amigo é coisa para se guardar... Debaixo de sete chaves... Dentro do coração..."

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