Em Quintino, torcida contra o Brasil

O bairro de Quintino, na zona norte do Rio, não chegou a parar, afinal era quarta-feira, dia de trabalho, e nem era jogo de Copa do Mundo, mas irmãos e a amigos de Zico torceram fervorosamente pelo sucesso da seleção japonesa, treinada pelo filho mais ilustre do local. Ao final da partida, o sentimento era de que o empate com a seleção brasileira, por 2 a 2, não teve gosto de derrota, mas ficou a certeza de que faltou pouco para a vitória. Em 3 de março de 1953, nasceu na família Antunes o último dos seis filhos: Zico. Criado e revelado no bairro, todos se referem com carinho ao "Galinho de Quintino", recordando a origem humilde do atleta. Por isso, torcer contra a seleção brasileira hoje não foi difícil ou um pecado. "Temos mesmo que torcer para o Zico. Ele está começando agora e o Brasil tem muitos títulos", disse o barbeiro Nilton Mota, o Pardal, de 65 anos. Desde criança, o profissional cortava o cabelo do jogador e vibrou a cada lance a favor da equipe japonesa. Mas, como sempre existe a turma do contra, a vibração de Pardal ora recebeu aplausos entusiastas, ora foi contestada pelos cerca de 20 torcedores que se aglomeraram no bar Jóia de Quintino para ver a partida. Provocações, claro, feitas em um clima pacífico. O gol legítimo do Japão anulado logo aos três minutos do primeiro tempo serviu para lamentos até o final do confronto. O jogo transcorria, o Brasil inaugurou o marcador, os japoneses empataram e uma turma em destaque, alheia a cada lance chamou a atenção. Em cima de um coreto na praça de Quintino, cinco amigos sentados ao redor de uma mesa pareciam nem saber que Zico estava dirigindo o Japão contra a a seleção de seu País. "Claro que não esquecemos do jogo! É que não podemos parar o nosso, mas vai dar tempo para ver o segundo tempo. Já vamos correr para o bar", disse Eni da Silva, explicando que o "pontinho", tradicional jogo de cartas, naquele momento, era mais importante do que tudo. Afinal, "valia uma graninha". Alheios à movimentação na praça de Quintino, os irmãos de Zico optaram por torcer sossegadamente pelo caçula da família. Fernando, o Nandinho, ficou em casa, na rua Lucinda Barbosa, onde o "Galinho" nasceu. Já a irmã Zezé não viu o empate da seleção japonesa porque estava dando aulas de Psicologia. E Antônio, o Tunico, foi para o CFZ, clube fundado pelo técnico do Japão, na Barra da Tijuca, zona oeste - os outros dois irmãos, Edu é o auxiliar-técnico de Zico, e José Antunes, o Zeca, morreu em 1997. Para Nando o árbitro da partida (o tunisiano Mourad Daami) "tremeu" e não teve "peito" de dar o gol japonês, optando por anulá-lo, por causa do "peso" da camisa brasileira. Além disso, ressaltou outros lances em que considerou ter ocorrido erros do juiz. Já Tunico frisou que o mais importante foi Zico ter ensinado a seleção do Japão "jogar bola". Atentou ainda para o fato de por várias vezes o Brasil não ter conseguido anular os ataques do adversário. "O Japão deu conta do recado e mostrou que tem um time. Não tem mais essa de partir para cima deles. Agora, eles é que avançam. No próximo ano, podem esperar porque será outro jogo", se conformou Tunico. É ver para crer!

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