Rildo Góis/DBAF
Rildo Góis/DBAF

Em Salvador, escolinha de árbitros revela profissionais para o futebol

Projeto social na cidade de Salvador promove a formação de juízes e ajuda a passar cidadania aos jovens

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2018 | 07h00

Nas peladas dos campos de terra do bairro Engomadeira, em Salvador, Luanderson Lima queria ser o juiz. Aos 9 anos, ele adorou quando ganhou um apito e assistia aos jogos pela televisão para ver o que fazia aquele homem de preto. Em abril, o estranhamento dos moradores do bairro carente da periferia da capital baiana virou admiração quando o profissional de 23 anos foi auxiliar na partida entre Americano e Novorizontino, pela Série D – dez árbitros já fazem parte do quadro da Federação Baiana e a CBF está de olho no projeto. 

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O sonho incomum de Luanderson virou uma carreira em ascensão a partir do projeto social Divisão de Base de Árbitros de Futebol. É uma espécie de escolinha para os juízes. Ele foi o primeiro aluno do curso em que 25 meninos e meninas de 10 a 17 anos têm aulas práticas e teóricas sobre regras e funções da arbitragem, com palestras que abordam disciplina e cidadania. De graça. A carga é de 330 horas, como manda a CBF, e é conduzido pelo ex-juiz Rildo Góis. “A ideia é formar os árbitros, mas também passar lições de cidadania.”

Desde 2011, foram formados 150 jovens. Desse total, 40 estão envolvidos com futebol, organizando campeonatos de várias modalidades ou apitando jogos amadores e profissionais. Dez fazem parte do quadro de árbitros da Federação Baiana. “Nunca pensei em ter um filho árbitro, mas agora estou orgulhosa. Vou aos treinos e jogos”, diz a dona de casa Ytamara Gomes Marinho, mãe do aluno Francisco Iaslan, de 14 anos. 

A CBF está atenta ao movimento e promete se inspirar no que ocorre em Salvador para tentar criar um projeto nacional. “Conhecemos e achamos interessante. Mas temos outras prioridades neste momento. Estamos conversando com a área que desenvolve os projetos sociais na CBF para viabilizar algo semelhante ao que existe na Bahia”, diz o coronel Marcos Marinho, chefe da Comissão Nacional de Arbitragem da CBF. 

Hoje, para garimpar novos árbitros, a CBF depende da indicação das federações, que desenvolvem políticas de formações em escala estadual. Na Bahia, a Divisão de Base luta para sobreviver. Não há patrocinadores. O apoio vem de doações de sindicatos, federações e empresários. A própria CBF fez uma doação de materiais da ordem de R$ 38 mil anos atrás. O projeto não tem uma sede fixa. Instituições como o Colégio Parque, no bairro de Cabula, cede a quadra para as aulas, oferecidas aos sábados. Outras são dadas na praia do Jardim de Alá, próximo ao bairro da Boca do Rio. 

Para os alunos, a arbitragem vira uma alternativa econômica desde cedo. Com 13 ou 14 anos, alguns trabalham nos jogos de várzea e, com isso, conseguem ajudar a família a pagar o gás ou uma conta de luz. Ganham de R$ 30 a R$ 40 por jogo. O aluno José Maurício Almeida, de 12 anos, é um dos talentos da escolinha de árbitros de Salvador. Ele já atua nos jogos das categorias de base como árbitro assistente.

Quem já é formado ganha entre R$ 100 e R$ 120. Com os R$ 700 que ganha por partida da Série D, feitos todos os descontos, Luanderson paga aluguel, água, luz e internet.

Ele mora com os pais, o autônomo Luiz Oliveira dos Santos e a dona de casa Ana Maria Lima dos Santos. Seus sonhos são aprender inglês e espanhol e se tornar um árbitro da Fifa. “A arbitragem é minha vida”, diz o menino, que está terminando a faculdade de Recursos Humanos. Ele ajuda os pais, pois acha que é uma forma de retribuir por terem acreditado no sonho incomum de querer ser árbitro.

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