Amanda Perobelli/Estadão
Jogadoras do Apache fazem corrente antes de jogo contra AD Ginga. Amanda Perobelli/Estadão

Em São Paulo, a várzea também é para as mulheres

Liga feminina soma quase 100 times, mas ainda briga por espaço e valorização

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2018 | 05h00

De segunda a sexta-feira, Flavia Tayna Mesquita de Jesus trabalha como cozinheira. Aos finais de semana, ela se transforma em jogadora do Apache, equipe da várzea da zona sul de São Paulo. Essa vida dupla virou uma tatuagem no braço esquerdo: um sapato de salto alto ao lado de uma chuteira. Existem centenas de Flavias espalhadas pela cidade: mulheres na várzea. 

Em linhas gerais, o feminino encontra mais obstáculos que o masculino: campos de terra na periferia, falta de recursos e pouca visibilidade. A notícia é que as mulheres deram um passo adiante na organização com a criação da Liga Feminina de Futebol Amador. São quase 100 equipes na capital, Grande São Paulo e interior. 

Maria Amorim, diretora da Liga, conta que tudo começou com um grupo de WhatsApp para organizar um torneio em Parelheiros. Era maio de 2016. O número de contatos aumentou até uma centena. Dali surgem torneios, amistosos e ações sociais. Existem torneios abrangentes, nos quais um time da zona leste vai jogar no extremo sul, e outros do bairro mesmo. Não há limite de idade, há jogadoras de 13 a 38 anos. A liga vem ganhando visibilidade e foi um destaques de evento realizado no Museu do Futebol em outubro no qual o governo paulista anunciou o projeto de tombamento dos campos de várzea para revitalizá-los. 

Existem outras iniciativas relevantes. A meia Thaís Nunes, a Thaisinha da seleção brasileira e do Red Angels, da Coreia do Sul, decidiu patrocinar a Copa da Rainha, que pretende ser o maior torneio da cidade. Serão R$ 12,3 mil em premiações — recorde entre copas de São Paulo. 

A presença feminina obviamente mexe com os homens. Alguns aceitam na boa. Maria cuida dos dois filhos, da casa e da organização dos torneios. Luis Amorim, seu marido, foi um dos grandes incentivadores da criação do time feminino. Ele é o presidente e o técnico do time. Os dois filhos do casal sempre vão ver a mãe jogar. 

Em vários locais, ainda existem preconceito e disputa por espaço. “As mulheres simplesmente não têm campos para treinar. Os homens não deixam”, reclama Gilmar Galvão, técnico do Magistral, time da Parada de Taipas e que foi criado no início dos anos 1990. 

Embora dê pequenos sinais de organização, as meninas estão muito distantes dos meninos. Enquanto a maior copa feminina paga R$ 12 mil em premiações, naquela Copa da Thaisinha, os torneios masculinos chegam a R$ 85 mil. As jogadoras não recebem ajuda de custo; os homens ganham de R$ 100 a R$ 400 por jogo. Em média, 500 pessoas vão aos grandes jogos femininos. A Super Copa Pioneer, a Champions League da várzea, por exemplo, teve nove mil na final. Enquanto a liga feminina celebra 100 times, a Liga Paulistana de Futebol Amador registra 1.440 times só na capital. Nesse contexto, o antropólogo Enrico Spaggiari classifica a várzea feminina como uma “prática de resistência”. “As mesmas diferenças que percebemos entre homens e mulheres no futebol profissional são observadas na várzea”, diz o estudioso da USP

A ex-jogadora Ednei dos Reis, a Ita, afirma que o preconceito diminuiu e mais meninas encaram o futebol como opção de carreira. Sua constatação vem do projeto social que ela desenvolve no campo do Codó, em Guaianases. Por outro lado, ela fica com um pé atrás em relação ao futuro. “Não existe olhar para a várzea”, opina a ex-jogadora do Corinthians. Para ela, seria fundamental que os clubes profissionais fizessem parceiras com projetos espalhados pela periferia. “A periferia é uma fonte de talentos”, diz. 

A parceria seria uma espécie de ponte entre a várzea e o profissional. Uma luz. A partir 2019, os times masculinos na Libertadores e na Copa Sul-Americana serão obrigados a manter equipes femininas. É uma ordem da Conmebol.

 

 

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Futebol feminino no Brasil tem origem nos circos

Pesquisadora da FGV revela evolução da modalidade a partir de exposições em picadeiros na década de 1930

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2018 | 05h00

Em novembro de 1930, o jornal carioca Correio da Manhã divulgava de forma inédita o “Football Feminino” como uma das atrações do Circo Irmãos Queirolo. A apresentação era descrita como um “torneio disputado por 10 lindas e graciosas moças” e revelou que os times vestiriam os uniformes de Brasil e Uruguai. O sucesso obtido pela atração foi tão grande que, dias depois, mobilizou um novo número do “football Feminino” no espetáculo seguinte dos Queirolos. Dessa vez, no picadeiro, um Brasil x Argentina

Uma pesquisa conduzida por Aira Bonfim, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro e que por sete anos trabalhou no Centro de Referência do Futebol Brasileiro no Museu do Futebol, levantou as experiências iniciais entre as mulheres e o futebol no Brasil. E, nela, o picadeiro e o futebol se misturavam, com um impacto duradouro para a imagem da modalidade. 

O circo não era apenas mais uma atração. Aira lembra que ele atingiu seu apogeu na primeira metade do século 20, tornando-se “uma das mais importantes manifestações artísticas brasileiras, com grande apelo popular - mais até que o cinema nacional - e por vezes como a única diversão que chegava até muitas regiões do Brasil”. 

As companhias circenses atuavam num campo ousado de originalidade e experimentação e misturava sensualidade, magia e fascínio. “O circo era um espaço privilegiado para o encontro do público com o que era considerado exótico”, disse.

A "espetacularização" do futebol protagonizado por mulheres dentro de um picadeiro vai aparecer com frequência nas páginas dos jornais de diferentes Estados brasileiros nos anos seguintes. Com o desgaste do repertório clássico dos circos do século 19, novas atrações irão possibilitar a diversificação dos números, além da iniciação de novos atores e atrizes amadores. Com pouco tempo para decorar falas longas e a demanda por números sempre novos a cada temporada, os circos desse período reuniram um considerável repertório de apresentações que passaram a ficar disponíveis, como uma carta na manga, entre suas viagens pelas cidades brasileiras.

A pesquisadora conta como o caráter itinerante dos espetáculos dos circos atribuía certa exclusividade e personaliza a atração “Football Feminino”. Por todo local que passavam, as tais artistas vestiam as camisas das equipes do futebol local durante as apresentações. Estratégias de sedução, portanto, incluíam desde a exposição dos corpos femininos à identificação do clube local.

Num outro cartaz da época, os circos ainda anunciavam o jogo “Flamengo vc. Syrio Libanez”, e ainda completavam com a constatação: “o maior sucesso do circo”. 

Já uma notícia de jornal coletada pela pesquisadora explicava o que era o campeonato de futebol feminino. “Ao contrário do que pode parecer a princípio, não se trata de um simples número de variedades: são dois adestrados teams de moças que se batem com vigor e decidido empenho pela victoria das cores do clube”, apontou.  

“É curioso saber que as primeiras décadas do século 20 marcaram a ruptura do privilégio masculino nos picadeiros nacionais. Mesmo que estigmatizadas, malvistas e à beira da prostituição, aos poucos a composição de artistas mulheres cresceu em tais companhias”, constatou a pesquisadora.

Aira considera que o cenário de exposição circense da década de 30 pode ter sido um dos inauguradores da associação da imagem ainda pouco usual da mulher como jogadora de futebol. 

“Tal imagem, ainda considerada ‘exótica’ ou estranha, trazia consigo uma posição simbólica subversiva e escandalosa para os padrões da época”, disse. “Sendo assim, se o circo foi a expressão artística que maior público mobilizou nas primeiras décadas do século 20, podemos supor que a atração ‘Football Feminino’ contribuiu para a popularização e estigmatização da imagem das mulheres jogadoras”, comentou. 

CAMPOS

Dos picadeiros, o futebol de mulheres ganhou novos espaços, como nos campos suburbanos do Rio de Janeiro entre 1939 e 1940. Mas, ainda assim, a pesquisa mostra como os eventos traziam consigo em seus anúncios palavras e termos que vinham de ações cênicas. "Moças do Mavillis voltam a ensaiar”, dizia um deles. Em outro, era anunciado que “os integrantes do futebol feminino se exibirão em Santos a convite do Santos FC”; “(...) a partida da preliminar constituirá um espetáculo inédito para o público paulista”. “Trata-se de um encontro de football feminino entre duas adestradas equipes cariocas”, explicava outra.

Algum tempo depois, em 14 de abril de 1941, o Decreto-lei Nº 3.199 formalizaria de vez as definições sobre os esportes adequados ou não à “natureza feminina”, e afastaria legalmente a promoção do futebol entre o dito “sexo frágil”. 

Esse impedimento, legal e simbólico, ainda foi deliberado mais uma vez, em 1965, depois de visíveis reincidentes de futebol feminino,  e permaneceu em vigor até 1979, quando foi revogada a proibição. Mas a regulamento do futebol feminino no País ocorreu apenas em 1983. “Ou seja, enquanto o esporte nacional crescia e se populariza nacional e internacionalmente, segundo a Conselho Nacional de Desportos (CND), aos corpos das mulheres o futebol permanecia interditado e impróprio”, apontou Aira. 

Segundo ela, a ideia de “espetacularização dos corpos femininos em campo” rendeu ainda muitos episódios. “Impossível não mencionar os jogos e preconceitos entre as vedetes que na década de 50 e 60 ‘ousaram’ desfilar em carros abertos e pisar com seus shorts curtos nos gramados dos estádios do Maracanã e do Pacaembu”, contou. 

“Não muito distante, em 2001, a Federação Paulista de Futebol e a Pelé Sports & Marketing sugeriram o embelezamento das atletas do futebol como critério de seleção para o Campeonato Paulista de Futebol Feminino daquele ano, como estratégia de conquista de mais público e recrutamento de um maior número de praticantes”, destacou. 

Em 2015, ano da Copa do Mundo de Futebol Feminino no Canadá, o coordenador da seleção feminina na CBF, Marco Aurélio Cunha, declarou ao jornal canadense The Globe and Mail que o futebol feminino do Brasil chamaria mais a atenção, uma vez que “as jogadoras estavam mais bonitas e usando maquiagem”. “Elas vão a campo elegantes. O futebol feminino costumava copiar o masculino. Até mesmo o modelo das camisas eram mais masculinizados. Costumávamos vestir as mulheres como homens. Então, faltava ao time o espírito de elegância e feminilidade. Agora, os shorts são um pouco mais curtos, e o estilo dos cabelos mais cuidadosos. Não são mais mulheres vestidas como homens.”

Para a pesquisadora, trazer à tona outras narrativas sobre a memória do futebol brasileiro é reencontrar experiências “repletas de discursos que exacerbaram marcadores sexuais de suas épocas, a ponto de produzir legalmente e simbolicamente o distanciamento das brasileiras com o futebol”.

Isso, em sua avaliação, “não são processos naturais, mas consequências de processos históricos, políticos e culturais, passíveis de serem superadas e rescritas nos próximos anos”.
“Em 2018, mulheres ainda são obrigadas a defender a ideia de que elas não querem seduzir, mas participar mais ativamente dos espaços de visibilidade, prática e decisórios dos esportes. O desejo futuro, ao conhecermos cada vez mais a nossa própria história, é de oportunamente desmontamos os muitos picadeiros no nosso futebol”, completou a pesquisadora.

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