Em Teresópolis, casa da seleção antes da Copa de 1966 está abandonada

Hotel Pinheiros, que recebeu Pelé, iniciou a relação da equipe com a cidade serrana do Rio

Sílvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2014 | 17h00

TERESÓPOLIS - Os jogadores da seleção brasileira são recebidos em Teresópolis com bandinha de música e salva de tiros. Eles desfilam em uma passarela na principal praça da cidade e assistem ao show de um trapezista. Enquanto isso, o locutor oficial do evento lê em voz alta uma pequena biografia de cada um deles.

Os atletas se apresentam à multidão cada qual acompanhado de duas belas moças da comissão de recepção. O prefeito entrega à delegação a chave de Teresópolis e uma queima de fogos tenta imitar grandes espetáculos pirotécnicos. Dali, a seleção segue para o hotel, a cinco quilômetros do centro, a fim de dar início à última fase de preparação para o Mundial.

Luiz Felipe Scolari estaria à beira de uma síncope e poderia atirar longe a sua cuia de chimarrão se essa festa toda estivesse programada para segunda-feira, dia em que a seleção vai chegar a Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, para começar o período de treinos para a Copa do Mundo. O primeiro jogo do Brasil no Mundial será contra a Croácia, no dia 12 de junho, em São Paulo.

O início do texto, no entanto, não é uma peça de ficção. Trata-se de um resumo do que foi publicado nas edições do Estado dos dias 4 e 5 de maio de 1966. Pelé, Garrincha e Tostão passaram com seus colegas pela passarela acenando para o público, sem nenhum gesto que os associasse a produtos comerciais. Depois se recolheram no Hotel Pinheiros, no bairro Quebra Frasco - uma área de 52 mil metros quadrados, na época de difícil acesso e supostamente ideal para o sossego da delegação.

O hotel hoje está abandonado, mas ele marcou o início da relação de Teresópolis com a seleção brasileira. Dividido em chalés, o local abrigou por dois períodos a equipe nos meses que antecederam a Copa de 66. Desde então, por cinco décadas a cidade passou a fazer parte da história da equipe pentacampeã mundial.

Nos anos 80, a Confederação Brasileira de Desportos (hoje Confederação Brasileira de Futebol) construiu a concentração oficial da seleção na Granja Comary, onde a partir de amanhã Neymar, Thiago Silva, David Luiz e mais 20 atletas de ponta vão contemplar o Dedo de Deus - símbolo daquela região - em busca de inspiração para mais um título mundial.

Não se tem notícia de que algum dos funcionários do Hotel Pinheiros nos anos 60 ainda esteja vivo. Vários deles eram íntimos de Garrincha, o mais divertido do grupo. O jogador costumava agradá-los com um "trocadinho" e era agraciado com a renovação permanente de seu estoque de bebidas - perto dali, biroscas vendiam doses de cachaça a preços em conta.

"O Garrincha sem uma bebidinha não funcionava. Todo mundo sabia disso", conta Isabel Maria Kwiatkowski, testemunha do dia a dia da equipe que lutaria pouco depois pelo tricampeonato mundial na Inglaterra. Adolescente em 1966, ela desfrutava de trânsito livre no hotel. Sua mãe, Ursula, era a governanta do Pinheiros. O pai, Wictor, também trabalhava no local, como eletricista e bombeiro. O casal imigrou da Polônia.

"Era um convívio alegre, descontraído. O Pelé gostava de tocar violão sentadinho em frente ao salão de jogos (hoje um espaço que ameaça ruir) e ficava mais no grupo do Gilmar e do Zito, um pessoal mais tranquilo. Já o Garrincha fazia parte da turma da bagunça."

A presença de visitantes não era permitida, mas isso não valia muito para jornalistas e parentes dos atletas, que circulavam pela área interna do hotel com liberdade. Não muito distante dali, havia uma estrutura montada pela prefeitura para facilitar o trabalho da imprensa: dois escritórios com telex e 20 máquinas de escrever.

O técnico Vicente Feola gostava daquele ambiente e fazia vistas grossas para os dribles de Garrincha na própria comissão técnica. O craque das pernas tortas optou por ficar em um chalé que guardava uma passagem secreta para a mata virgem localizada atrás do hotel.

Ele descobriu uma trilha com a ajuda dos seus novos amigos - os funcionários do estabelecimento - para escapar de noite e visitar suas fãs. No dia seguinte, durante os treinos, o genial jogador não deixava de aplicar seus tradicionais dribles, com a bola nos pés, e ofuscava assim os comentários vagos de um ou outro auxiliar de Feola, intrigados com o acende-e-apaga de luzes no chalé de Garrincha durante as madrugadas.

Aos domingos, um ônibus deixava cedo o Hotel Pinheiros e em minutos estacionava ao lado de uma igrejinha católica de um sítio vizinho. "A maioria dos jogadores ia à missa. As manhãs de domingo tinham um ar de recolhimento", lembra Isabel Maria, triste com o abandono do Pinheiros.

O terreno pertence ao mesmo proprietário do Hotel Alpina, um dos mais badalados de Teresópolis. Sua área física não passa por reforma há pelo menos três décadas. O salão de jogos e o refeitório estão entulhados de móveis e de vidros quebrados. O antigo barzinho, logo na entrada do hotel, desabou parcialmente.

"É uma parte da história que se perde", lamenta Isabel, hoje atuante em organizações não governamentais que defendem a saúde da mulher e dos trabalhadores rurais. Foi ela quem conseguiu o acesso do Estado ao Pinheiros.

Ao passar pela porteira, ela recuou e, comovida, relatou outro momento que lhe aproximou daquela geração. Isabel estudava no Colégio São Paulo e um ônibus escolar a levava para o hotel todos os dias. Tinha 14 anos e suas colegas de turma exigiam que o motorista desviasse o caminho e passasse primeiro pelo hotel. Queriam ao menos acenar para os jogadores.

"Por morar ali, só eu daquelas meninas podia entrar. Mas algumas davam um jeito, andavam pelo matagal e, quando eu via, estavam lá pedindo autógrafos. O Vicente Feola não ligava muito não, ele era um bonachão."

Tampouco a segurança impunha algum obstáculo. Apenas um guarda tomava conta da concentração da seleção em 1966. Na segunda-feira, na Granja Comary, esse número deve chegar a 200.

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