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Emoções de fim de ano

Nós da imprensa, jornalistas, no último degrau da qual me incluo, temos um problema neste momento da temporada, nesta época do ano. Como criar emoções num período em que as emoções já terminaram.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2015 | 03h00

Em primeiro lugar, o que quer dizer “emoções”? É na verdade a criação de fatos, ou melhor, a divulgação de fatos, que mantém exacerbada a taxa de entusiasmo de espectadores exatamente, talvez, na mesma intensidade em que reduz suas capacidades de raciocinar serenamente.

Tomado pela “emoção”, o espectador como que entra em choque, do qual vai se recuperando lentamente até que seja movido por outro choque, ou outra “emoção”.

Ou seu time ganhou o campeonato – o Corinthians faturou o Campeonato Brasileiro e o Palmeiras, de forma muito emocionante, conquistou a Copa do Brasil – , ou seu time que foi rebaixado, ou seu jogador mais querido que vai se aposentar, ou se contundiu seriamente, ou mesmo outro que neste momento olha atentamente o mapa da China tentando encontrar a cidade da qual recebeu proposta.

Tudo isso é emocionante porque são ainda restos das disputas que acabaram de terminar, isto é, o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil.

Há rumores e claro, boatos, espalhados para criar emoções nas redes sociais dando conta que tal jogador pode se transferir para outro clube, ou que metade de um time está sendo dispensada e não tem para onde ir. Muita emoção ainda pode chegar até nós. É só alguém imaginar, por exemplo, a tristeza de um Natal sem time pra torcer.

Por enquanto, a despedida de Rogério Ceni serviu para cobrir o vazio de emoções pós competição. É claro que se trata de craque que merece todas as homenagens. Não tanto pelo tempo de clube, isso muita gente pode conseguir, mas pelo ineditismo de goleiro-artilheiro.

De fato, depois de Ceni a posição de goleiro nunca mais será a mesma. Fernando Prass, do Palmeiras, cobrando pênalti decisivo na Copa do Brasil, é efeito imediato das modificações que a presença do ex-goleiro Tricolor ocasionou ao exercício da profissão.

Mas, é claro também, que a época é mais do que apropriada para o ritual do adeus, já que não há concorrência de competições e a festa promete ser bastante emocionante. Mais de sessenta mil pessoas foram ao Morumbi. Mas, agora? A festa de Ceni terminou e, refeitos das emoções de praxe, o que faremos?

Bem, o jeito é esperar e rezar, já que “emoção” não pode parar. No momento aparece a ameaça concreta da China e pode acontecer qualquer coisa em qualquer clube.

Agora que os europeus estão deixando de ser causa de nossas mais profundas emoções e choques, já temos um substituto à altura. Mas como estamos há muito acostumados a perder e nos conformar em sermos meros fornecedores de jogadores para centros mais adiantados – e bota centros adiantados nisso – as perdas não serão choques muito grandes, de resto previsíveis. Resta então o inesperado e, em tempos de surpresas em todo o país, talvez algo esteja reservado ao futebol neste fim de ano. Por que não?

Suponhamos que algumas operações policiais, que estamos sempre na iminência de presenciar, realmente se materializem? Suponhamos que providências legais que ameaçam acontecer por dias e dias, para não dizer meses, realmente venham a se verificar exatamente nestes dias em que não há nada para noticiar. 

Não seria uma bênção para muitos jornalistas se a ceia de Natal ou a de Ano Novo fosse interrompida por “breaking news” diante da Policia Federal ou outro órgão do gênero? Nesses momentos em que tudo parece calmo, podem acontecer coisas que ninguém espera. E cheias de “emoção”.

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