Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Empresa confirma 'possíveis pagamentos impróprios' na Copa

Bilfinger investiga propina de 'menos de 1 milhão de euros'

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

26 Março 2015 | 09h57

A empresa alemã Bilfinger confirma que identificou "possíveis pagamentos impróprios" para obter contratos na Copa do Mundo no Brasil. A propina paga a funcionários públicos brasileiros foi de "menos de 1 milhão de euros (R$ 3,2 milhões)". Essa foi a conclusão das investigações realizadas pela própria companhia envolvida e que anunciou nesta quarta-feira que está colaborado com a Justiça brasileira no caso.

"No curso de investigações internas sobre possíveis violações, a Bilfinger tem revisto as atividades das companhias do grupo no Brasil por vários meses", indicou um comunicado da empresa. "Depois de revisar todas as transações dos últimos anos, informações indicam que o potencial pagamento impróprio exista no valor inferior a 1 milhão de euros no total", declarou.

A suspeita é de que funcionários públicos brasileiros de um órgão do governo e de estatais teriam cobrado propina para dar a uma empresa alemã contratos para a Copa do Mundo de 2014. Essa foi a denúncia interna que a companhia de engenharia Bilfinger recebeu e que obrigou a direção a abrir investigações no ano passado.

A suspeita foi publicada no último fim de semana pelo jornal Bild, da Alemanha, e confirmada pela própria empresa. A Fifa jogou a responsabilidade para o Brasil, alegando que esses contratos não passaram por ela. No total, a companhia fechou em 2014 contratos com o governo brasileiro avaliado em R$ 21,2 milhões. Além da Copa do Mundo, a empresa presta serviços no Brasil para a Petrobras, para a Agência Nacional do Petróleo, para o Senado Federal e para a Anatel.

Apenas para o fornecimento de 1,5 mil monitores e software para o Centro Integrado de Comando e Controle da Copa do Mundo, foram R$ 13 milhões em contratos. O sistema era considerado como um dos principais legados do Mundial e permitia a centralização da operação de segurança.

COOPERAÇÃO

A companhia também confirma que está fornecendo informações à Controladoria-Geral da União e está disposta a colaborar com novas investigações no Brasil. "Após completar suas investigações internas, a Bilfinger fornecerá os resultados à CGU e vai apoiar qualquer nova investigação sobre o incidente", declarou a empresa em comunicado.

Segundo a companhia alemã, tanto auditorias da Ernst & Young e da Deloitte foram realizadas e, no total, a empresa movimentou no Brasil um total de 30 milhões de euros (R$ 96,5 milhões). No mundo, a empresa movimentou 7,7 bilhões de euros (R$ 22,5 milhões).

Ao Estado, o porta-voz da empresa na Alemanha, Sacha Bamberger, revelou que foi uma "denúncia interna" que resultou em uma investigação. "Começamos esse processo em 2014", indicou. Segundo o Bild, porém, as propinas chegaram a 20 milhões de euros (R$ 64,3 milhões) durante a preparação da Copa. A empresa confirma que uma avaliação inicial mostrou que, de fato, empregados estão sob suspeitas de terem pagos propinas no Brasil para ficar com os contratos. Mas sugere que os valores seriam menores e apenas incluiriam um contrato de 6 milhões de euros (R$ 19,3 milhões).

"A Bilfinger recebeu informações internas no ano passado indicando que pode ter havido violações nos regulamentos de ética do grupo a respeito do fornecimento de monitores para os centros de segurança em grandes municípios brasileiros", disse a empresa por meio de uma nota oficial. "A empresa, imediatamente, abriu uma completa investigação sobre o caso. A denúncia está ligada à suspeita de pagamento de propinas por parte de funcionários da Bilfinger no Brasil a funcionários públicos e funcionários de empresas estatais", alertou.

Na avaliação inicial da empresa alemã, não restam dúvidas de que existem provas de que de fato "substanciam" as acusações e suspeitas que foram levantadas. A questão, segundo ela, é saber quem o recebeu e quando. Por enquanto, a Justiça alemã afirma que está apenas "acompanhando o caso". Mas a própria companhia admite que, dependendo do resultado da investigação, a empresa lançará um processo contra os envolvidos. Se a revelação apontar para funcionários brasileiros, o caso será no Brasil.

FIFA

Segundo o Bild, parte da propina ainda foi para funcionários da Fifa. Mas a entidade insistiu que a questão da segurança não era sua responsabilidade e que tal medida era de competência do Comitê Organizador da Copa, ao lado do governo brasileiro. Contatada pelo Estado, a assessoria indicou que o caso se refere "a projetos do governo local". "Nem a Fifa nem seus empregados estiveram envolvidos em dar contratos de cidades-sedes ou do governo federal", declarou.

Para a entidade, esses são serviços que "claramente cabem às autoridades locais". "Isso não pertence às áreas de responsabilidade da Fifa."

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